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Pílulas: Parte 02 - Mar de Azov, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Uma plantação de cacau é catedralesca. A nave sobe e desce outeiros, arrasta-se para o espinhaço de serras, atira-se na vertigem dos tombadores e grotas, pode deter-se à beira de um capinzal, à margem de um rio ou lagoa, em fimbria de mata ou capoeira, em baixios pantanosos ou em estéreis extensões de pedregulhos e pedreiras. Mas tenham a certeza de que, além do obstáculo, a nave continua sua viagem de árvores reunidas em muda atitude comicial, drapejando ao vento ou quase paradas nos rigores de um estio mormacento — e sempre as nódoas verdes e amarelas de seus frutos, por vezes as coifas de cipós finos lembrando cabeleira flutuante de mulher afogada"


"O brasileiro é antes de tudo um fraco. Se vê um balcão, arrima-se a ele. As paredes e os portais servem-lhe de encosto. Mole, bambo, preguiçoso, ampara-se até nos outros, quando conversa. Dizem que a mão no ombro, no braço, o estilo de falar agarrando-se ao interlocutor é sinal de afetividade da raça. Parece mais busca de apoio físico. O brasileiro cresce nervoso, apático, sem tomar consciência do corpo, salvo para a função sexual, que ele confunde com safadeza. Dorme muito, desfibra-se na inação e na vadiagem. Falta-lhe ordem, disciplina, motivação"


"Atravessaram a areia, tão larga que parecia duna ou areal, não fosse sua rasa e lisa superfície, e chegaram ao mar. Ou o mar chegou-se. Melhor dizendo, todos se chegaram, eles e o mar, em movimento único de manobra, o mar insinuando a ponta espumante de suas águas, eles fazendo saltar grãos de areia na polpa dos polegares dos pés. Entregaram-se ao mar, que bramia de maneira surda, pacificada, cantante, um bramido de fera satisfeita. Deixaram-se envolver por seu abraço cálido, solto; os corpos tensos e brancos relaxaram então, a pele começou a formigar com as quenturas do sol e do sal. Os trópicos rolavam nas vagas e nas ondas, corriam para o que parecia ser a central geradora das máximas luminosidades"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Isabel estira-se ao meu lado em pose relaxada ... Desço a vista ... no vale que então se forma e se prolonga para baixo, rumo a sítios úmidos e sombreados, começa o trigal. A penugem leve, finíssima, de cabeleiras de milho maduro, de hastes encaroçadas de trigo. A penugem cerrada, dourada, abre-se apenas para o poço do umbigo que talvez encerre águas ocultas. A penugem descai à medida que a pele afunda, esticada pela proeminência dos ossos ilíacos. E ao avançar para terras molhadas, irrigadas, protegidas pela sombra natural daqueles lugares ermos, o trigal cresce forte, vigoroso, encaracolado. O amarelo adquire ai tons mais fechados, de melaço grosso. Ah, os girassóis de Van Gogh, retorcidos, ásperos na aparência, inflamados como labaredas. O campo de trigo entra na área penumbrosa, se debruça à beira do charco, se mistura com o charco como certas raízes de plantas e certa vegetação eternamente gotejante. E cheiram as espigas entrelaçadas, altas, densas; cheiram na madurez, cheiram com o odor de searas completas, o feno segado no verão, eu quero afundar para ter o prazer de ver-me novamente à tona e novamente tentado a submergir"


"E então a mulher é colhida pela corrente. Embaixo, no leito fofo e andrajoso, as folhas acamadas cedem mais um milímetro; a corrente ergue o corpo retesado, libertando-o daquele último apego, daquele último ponto de apoio entre uma plataforma e o vazio. E a corrente puxa o corpo. O corpo adeja e se larga afinal na água. A mulher afunda ... A água sobe além da boca, das narinas, fecha-se sobre a testa ... a cabeleira flutua e logo submerge. Restam as borbulhas. A superfície da água dá a impressão de ferver. Depois se aquieta, de tal forma plácida que não se adivinharia ali a existência de correnteza capaz de despregar e arrastar corpos com a mesma indiferente força com que traz águas novas das cabeceiras, reboca troncos e pequenas ilhas de verdura desprendidas dos barrancos"


"Olímpio tinha na mão direita um embrulho malfeito, em papel pardo. Um terno, algumas camisas. Os olhos ardiam, como se feridos por mil pontas de agulhas finíssimas, e a garganta sufocava. Parecia entalado por um bolo de comida maior que a largura do tubo digestivo. Na rua, sozinho. "Largado por todos na rua", pensou. No olho da rua, como se dizia. No cu do mundo. "Estou órfão", disse uma voz medrosa, no fundo de sua consciência, que ele reconheceu como sua. "De agora em diante conto comigo mesmo, eu no meio do mundo." Para onde ir?"

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