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Pílulas: Parte 01 - Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad

Emmanuel Mirdad (foto: Léo Monteiro - interferida por Mirdad)


"mal fiz trinta, mas já carrego a solidão dos sessenta
dobrando o meu não-pertencimento
duplicando as negativas apressadas às soluções
alternando, falsamente, a armadilha implícita do herói
e o fascínio panaca do mártir pelo pedestal"


"é difícil explicar a alguém
como chegar a um determinado lugar
se a pessoa estiver pilotando
um animal assombroso
aspirador de pó
cão que rói tudo"


"comedor de cuscuz e inhame
participo do Nordeste que me situa e enraíza
aqui é o lugar qu’eu pretensamente pertenço
o pêndulo que me badala cangaço e trabalho
lar e gene d’gente, sol e salitre
é por mim que nunca cesso; prossigo
avexado e alumiado, cabra macho"


"o amor é pra valer nada
está muito além de qualquer conceito de preço ou prêmio
nunca será objeto de troca ou intercâmbio
não há consciência de importância ou referência
absolutamente não sobrevive à dependência alguma

o amor não possui"


Emmanuel Mirdad
(Cousa - 2014)


"a senhora varre a sala da casa
para que a poeira volte
e ela tenha que varrer de novo
a manhã

nas frestas que não alcança, o excesso dos dias
nos cantos, as dívidas do amanhã farei
das aranhas no teto, a preguiça de se esticar
quem sabe depois?"


"a paixão passa
e o que não passa é o patético perceber
que tudo aquilo não passou de um fugaz desespero
enraizar um sentimento que já nasceu distorcido
e fadado ao esvaziamento progressivo
quando o concreto soterra a projeção ilusória
de mais um infantil “amor pra sempre”"


"quero o seu dedo dentro de você
a passear pela memória táctil
de todo espaço que ocupei ontem à noite"


"cataliso os sonhos na substância que almejo
ontem à noite dissequei charadas como um herói
quem nunca quis ser um herói?"


"busquei-te no inferno
a esmagar cabeças com minha pressa habitual
com a mesma cara de paisagem que sempre fiz
quando a miséria bateu à janela do meu carro"

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