sexta-feira, 6 de junho de 2014

Pílulas: Parte 02 - Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad

Emmanuel Mirdad (foto: Léo Monteiro - interferida por Mirdad)


"antes de ser brasileiro
eu sou uma incógnita da Matrix
apenas mais um
fruindo o enigma, conectado à engrenagem
disposto a acreditar no que me mantém vivo
e respirar um pouco mais
sustentando o sentido que entretém Deus"


"de tudo que o humano pode condensar
em seu pacote mais repugnante de crueldade
o que mais angustia é o desprezo profundo
soberbamente construído pelo silêncio"


"em cada sal expelido pelo corpo trêmulo e triste
preciosas informações dos infortúnios
educam o ato falho
resignam o coração à guerra de símbolos
entre qual de vocês você pratica
e qual deveria atuar com mais eficácia"


"quero apenas o silêncio dos olhos cravados em digestão
perpassados por um soco no estômago a cada sílaba
e uma cruel ducha fria de espinhos pontiagudos
a passear por cada fluxo de sensações
em busca do choque caro da reflexão [ou não]"


"vou me jogar na avenida
escorrer em bicas, berrar, riscar o asfalto
apagar-me na massa, ser o bloco de um só pulso
...
vou ali, por quase uma semana
esquecer de quem represento, desmascarar meu óbvio
largar-me ao léu, ao som, ao movimento que impele
...
quero ser de tantas pra afirmar que não sou de ninguém
e o que me importa, de fato, está vazio e longínquo"


Emmanuel Mirdad
(Cousa - 2014)


"a beleza pratica
um haraquiri diário
em minhas entranhas"


"posso ficar aqui
olhando
e a vida lá fora indo
/que vá

quero ficar aqui
absorvendo
cada pixel de luz
/casulo"


"e se você pensar que tudo pode ser
fontes ocultas de suas tragédias, ó, criança,
a força do espírito humano
adentra o trecho onde é preciso se aquietar"


"o que enxergo há muito desisti de sintetizar
estou louco de nós

passadino ser que me habita, te contorço
sem reflexos, apenas vegeto e canto
que a vida me leve para bem longe dos corretos"

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