Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Parte 04 - Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad

Emmanuel Mirdad (foto: Léo Monteiro - interferida por Mirdad)


"se algum dia eu estiver na profunda noite negra
dentro de um bote sem remo nem rumo
sobrevivente de um naufrágio de mim
acossado na quina por um tigre atento, mas adormecido
e o medo esmorecer o último vestígio da permanência
rompendo a comunicação com o sagrado
ainda assim, não estarei só;
fecharei meus olhos e trarei a imagem do teu sorriso
que já é parte do melhor que existi"


"sou um homem destruído por uma mulher que nada fez
esbagaçado por uma imagem
reduzido a um micróbio tilintando no automático
esmagado por um justo silêncio
até quando?"


"preciso do suficiente
o que basta e não preenche
pois tem que haver o espaço
para que o improvável opere
e lhe inverta os critérios"


"ereto e erupto, você me engole faminta
veloz tua boca que morde e me lambe
não há segredos mais, cala-te e geme
vem e me suga assim como te devasso
nesse papo cabeça que te descabaço
faço-te múltiplos e,
como soberano, desabo"


Emmanuel Mirdad
(Cousa - 2014)


"aliás, quando morto, quem será eu?
– o meu lar é aqui; ademais, não interessa
...
meus ossos estão arrepiados
não quero dormir à espreita do desconhecido"


"se não há amor, há a sobrevivência
o ter que respirar, comer, cagar
ser–temer–estar
a gravidade, a oscilação e os pesadelos
a educação, os métodos e os outros
o cercado que delimita fronteiras e as minas
o toque pelo escambo, as palavras programadas"


"o problema é não vibrar pela coleção
e sim aferrar-me à edição de uma probabilidade única
que provavelmente já estará casada e com filhos, amando
só pra retratar o que todos afirmam:
é impossível!

porém, aferrado como estou, prossigo arqueólogo
explorando os fragmentos em contínua restauração das memórias
que, ao sumo, é a única posse que tenho"


"sua mulher revelada pela coberta arteira
num final de madrugada qualquer
é o que de mais vivo enquanto carne e pouso
a vida materializava como tangível
e possível"

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…