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Três passagens de Anton Tchekhov no conto Uma crise

Anton Tchekhov (foto daqui)


"- Que roupa bonitinha a sua! - disse ele e tocou com o dedo a franja dourada do seu lenço de cabeça.
- Tem-se o que se pode... - disse desanimada a morena.
- A senhora vem de que região?
- Eu? De longe... Da região de Tchernigov.
- Boa terra. Lá é bom.
- É bom onde não estamos."


"(...) Há talentos literários, cênicos, pictóricos, mas ele tinha um talento peculiar: o talento humano. Possuía uma intuição sutil, magnífica, para a dor em geral. Assim como um bom ator reflete em si os movimentos e a voz alheios, Vassíliev sabia refletir em sua alma a dor alheia. À vista de lágrimas, ele chorava; ao lado de um doente, ele mesmo também ficava enfermo e gemia; se presenciava um ato de coação, tinha a impressão de que essa coação exercia-se contra ele, assustava-se como uma criança e, em seguida, corria em socorro da vítima. A dor alheia enervava-o, deixava-o exaltado, fazia-o atingir um estado de êxtase (...)"


"Pôs-se novamente a caminhar, sempre pensando. Agora formulava o problema de outro modo: o que era preciso fazer para que as mulheres decaídas não fossem mais necessárias? Era indispensável que os homens, que as compravam e assassinavam, sentissem toda a imoralidade do seu papel de donos de escravos e se horrorizassem."





Presente no livro de contos O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), páginas 94, 103 e 102, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.


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