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O grito do mar na noite - Assexuada - Trechos do conto



Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa.


“Monique não era virgem. Teve alguns namoros, de curta duração, até quando estourava o saco de transar por ficção – às vezes nem isso. O melhor namorado dessa época foi um gay não assumido que também precisava do disfarce, embora não soubesse – nunca soube – da real situação da assexuada; achava que era frígida e só. Engano. Monique não era frígida. Para ser, é preciso querer sentir, mas não sente e até cansa de tentar, negando o ato sexual. Mas teve vontade. E muitas vezes continua, amortecida, a frustração. Latente. A frígida é sempre uma mulher que quis ou quer sentir prazer, mas não consegue. A assexuada é diferente; nunca sentirá prazer, porque não quer, não se interessa por sexo, não tem necessidade (...) Três meses, e ele conseguiu o que ninguém tinha feito em mais de vinte anos de falsa vida relacional. De repente, pimba! Monique ficou propensa ao amor, despertar tardio (...) Três meses após o cineminha, e o primeiro beijo, o primeiro e inesquecível ‘eu te amo’, dito de sua própria vontade – tudo bem que foi um ‘eu também’, mas está implícito! Pronto! (...) O assexuado é um ser que pode amar sim, que vibra, se apaixona e quer o bem do ser amado, e quer e dá carinho, se diverte, sintoniza-se, gruda em chamego e apertos, mas só não tem nenhum interesse em trepar (...) Como assim? É possível amar sem transar?” (p. 97, 98 e 99)


“Desconcentrada, parou. Foi longe, lá na adolescência. Quando as amigas despertaram para o sexo, ela não. Ouviu de uma coleguinha sardenta, que parecia o Dennis, o pimentinha, que a mão na xoxota dava maior onda – mais gostoso que chocolate, pode? Pois tocou a sua até doer e nada sentiu. Tentou muitas vezes. Por dias. Nada. Desistiu. Pediu ajuda até para a coleguinha, que fez com gosto e curtiu só, descendo na onda até a praia. Monique, nada. E, no círculo das confidências, ao se entregar revelando que não sentia nada, virou piada, esculhambação perigosa. Conseguiu reverter a situação, alegando que era uma brincadeira – a sardenta se mudou semanas depois, por sorte –, e nunca mais parou de mentir. Aparentar ser normal passou a ser uma obsessão, psicótica, mantida a qualquer custo. Tentar se compreender e se respeitar nem foi cogitado; é preciso o padrão avassalador da invisibilidade do ser comum.” (p. 93 e 94)


“Pois não há parafilia comparável, nem distorção e desvio de conduta mais agressivos, do que um ser se afirmar perante a sociedade como assexuado. É imediatamente censurado com o maior escárnio possível, tachado de um ser improvável, alienígena, desprovido de sentimentos, gana, paixão e atitudes nobres relacionadas à emoção (...) É impossível estabelecer relações e vivenciar o amor sem sexo? Talvez sim, caso o outro também seja assexuado – mas como encontrá-los, se o mais fácil é esconder e aplicar uma vida virtual, como muitos experimentam nos meios digitais? Mas há opções, como relações sexuais consentidas com profissionais, para suprir a necessidade do parceiro sexuado, entre outras possibilidades. Pelo amor, adapta-se a tudo?” (p. 92 e 93)


“Suíte com mezanino, odor acre de desinfetante chinfrim, preliminares extensas, dedicação minuciosa. Ele a desnudou feito um colecionador de pedaços femininos; para cada parte, um beijo, uma carícia, uma lambida, uma dedicação exclusiva. E ela, tal qual uma lagartixa morta, ficou inerte. Há anos que não praticava a farsa das reboladas, caras e bocas. Esqueceu tudo, eficientemente. E bateu um nervoso extremo, de não poder satisfazer o seu amante, que, somado à natural vergonha do nu pela primeira vez – momento crucial em que o amor já estabelecido acolhe as imperfeições com ternura e aceita o corpo do outro como seu lar e parque de diversões –, travou-a por completo. Simbolicamente mais dura que ele, em silêncio, imóvel e seca. Ele, que começou como um bom amante, foi se reduzindo aos poucos e deixou que a realidade do macho acuado aflorasse, enfiando-se à força na amada – coisas de menino mimado e criado por mãe machista. Afobado, estocou forte, menos de cinco vezes. Gozou sozinho, frouxo, covarde. Eis que o tal especialista dedicado ficou nu: era nada mais que um pixote ejaculador. Mais um homem, com sua desgraça tão comum.” (p. 100 e 101)


“O escritório da LPZVK & Motta Andrade Martins Associados passou por uma reforma recentemente. Contrariando a sina comum na cidade, ficou um serviço bem feito, justo ao preço pago. Com menos paredes e divisórias, arquivos e salas fechadas, inaugurou a modernidade do ‘parece um galpão’ em seu amplo espaço, clean, asseado, branco e envidraçado. Mas, hoje, contrariando a lógica do trabalho, estava quase vazio; era mais um dos feriados não oficiais, legítimo, de acordo com as tradições baianas: Lavagem do Senhor do Bonfim. Assim como no dia de Iemanjá, por maciça e quase unânime decisão dos sócios – baianos ou amasiados da malemolência –, decretou-se ponto facultativo. E Monique facultou-se a ir trabalhar, coerente (...) É um dia diferente mesmo. Na bolsa, o caderninho, que nunca saía de casa, escondido dentro do armário. Ela e mais dois ou três no escritório. Telefone estranhamente silencioso também – a Bahia para na primeira oportunidade que tem.” (p. 96 e 97)





Trechos do conto Assexuada, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
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aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…