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O grito do mar na noite - Bonecas - Trechos do conto



A transformação de um putão bombado, 
que se encanta e deseja um travesti.


“Futebol, buceta e cerveja. Apenas três assuntos na conversa e em poucos segundos os homens são iguais, melhores amigos há décadas, inseparáveis. Na convivência da academia, falar da bola seduz, atrai, induz o outro a comentar, a dividir suas opiniões e explorar o humor, a provocação sadia, moleque, que ambienta a fraternidade inicial entre homens. Para se afirmar num grupo, a buceta é necessária: é preciso ejacular em algo com peitos e vida, de preferência da espécie humana, e mais que ejacular, é preciso comentar, detalhar as façanhas secretamente manipuladas ou mentirosas, o uso da buceta como troféu, posse, título que diferencia o garganteador dos outros machos não tão comedores assim (mesmo que na prática todos não passem de meros expulsórios de esperma), sedimentando a intimidade entre os homens; recupera-se assim a contabilidade das traquinagens que tanto serviu para consumir o tempo na infância, que nunca termina. E, numa vida superficial e retilínea, imune à trágica consciência de que há diversos conflitos complexos na existência humana, a cerveja é a única sinuosidade dentro do óbvio, o alívio da rota mecânica dos dias. Todos bebem, vibram e se tornam felizes, permitindo a abstração (...) Homem é quase tudo igual: quer estar entre outros homens, ejacular e contar vantagem quantificada e não qualificada, e encher a cara até o fim. Eu não. Gosto de comprar bonecas, de preferência Barbie, nas Lojas Americanas espalhadas pela cidade.” (p. 108 e 109)


“De volta da balada frustrada, dessa que só rende a cruel e explícita evidência do buraco da ausência de si mesmo, que nada ou ninguém tapa, o fortão fez o possante andar bem devagar. E, ao invés de virar para a sua rua, no hábito de cantar pneu e assustar as saudosas velhinhas do bairro, Bodão reduziu a marcha, pisou no freio, fez a curva e parou. Um tronco obstruía a passagem. Um tronco que não estava caído na rua e, de pé na calçada da esquina, cantou: – E aí, bonitão, tudo bem? (...) O travesti é quase da mesma altura de Bodão, um tronco de suposta mulher. A diferença é que tem cintura, bunda saliente e coxas torneadas, silicone pra mais de 300ml. Quando aqueles peitos enormes pularam pra dentro do possante, e a boca carnuda, especialista em boquete supremo, ficou bem perto da sua, Bodão tomou uma futucada do macho alfa interior e, brusco, retrucou: – Sai daí, desgraça, se pique! – arrancou o carro violentamente, quase despencando o tronco no chão. Detalhe: de pau duro.” (p. 112 e 113)


 “O fortão olhava aquelas lindas mulheres com a desolação de quem já provou tanto o seu desempenho excepcional e agora todas parecem iguais, inatingíveis e cansativas. Ao ter brochado em sequência, sem uma explicação à mão (...) acabou transtornado, transformando o que antes eram apenas bucetas – para meter – em mulheres com enigmas e quereres mesquinhos, capazes de machucá-lo impiedosamente, de empenarem seu pau ao tamanho de um verme microscópico, sina de Adônis do Louvre. Ora, pois, estar brocha feito um inútil tascou-lhe na cabeça a maçã do Gênesis, que, mordida com casca e tudo, baniu o Bodão do paraíso, axioma da pura ‘metelança’ que era a sua vida até então, para o dogma do ‘inferno é aqui’, complexo, repleto de variáveis cancerígenas e canibais, que, para um homem padrão, raso, superficial e malhado, aterroriza como se você fosse largado no centro de uma metrópole chinesa, recém-cego-surdo-mudo, quase tetraplégico.” (p. 118)


“Orgia chique (...) alguns ricos, bem inseridos e farristas da elite baiana que se encontravam de quando em quando, para algum deles pagar a noitada, sempre com lotação bem restrita, com as melhores profissionais de luxo da cidade, até de outros Estados. Tudo para ostentar (...) Mesmo com a orgia disseminada nos cômodos e salas, o sexo era comportado, meio higiênico, sem histeria, com um som jazz fusion pop lounge house merda de elevador rolando ao longe (...) Bodão ficou no canto. Pegou uma Heineken, bebericou aos poucos, naqueles longos goles da frustração. Pica a valer não o apetecia mais. A impotência o estragara de vez. Mesmo com toda a sua ignorância e seu mau gosto, talvez não fosse um putão. Talvez só tivesse comido todas essas mulheres por hábito e ostentação. Talvez fosse um romântico de família, esse tipo de homem frouxo propenso à cornitude, masoquista não-assumido, fadado a amar a puta e se divorciar da mulher honrada – como se atualmente ainda existisse tal distinção. Mais ainda: talvez fosse gay. E ali, naquele paraíso da sacanagem, estava tão ausente e arrasado, que se tornou invisível.” (p. 123 e 124)


“O elevador fica parado, e o travesti nada fala, nem se movimenta, estudando se não seria um esparro estar ali. Confiava na gilete, dos tempos em que trabalhava no centro da cidade; era rápido no manuseio de facas, sempre afiadas, bom de tirar secreções de objetos pontiagudos, fálicos. Não era o caso agora. Talvez fosse apenas timidez (...) A morena dá uma chance, fungando mais forte, remexendo bem sutil o decote apertado, quase saltando à gula. O instinto responde, e Bodão levanta os olhos (...) Cobiça. O membro estala quase pra fora da calça. Desliga as noias. É a vez do fortão rosnar, o sangue vindo aos litros, em ondas, percorrendo o corpo sólido, as informações da potência de outrora distribuídas por cada músculo, Ares retomando o controle, banindo o Hades (...) Dentro do elevador, Bodão lasca um beijaço no travesti, que não o reprime, mesmo estando fora do “contrato”; curte a sensação lúdica do primeiro beijo gay de um heterossexual, ou do primeiro momento de saída do armário de um belo homem.” (p. 125 e 126)





Trechos do conto Bonecas, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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