domingo, 28 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Chá de boldo - Trechos do conto



Um bisavô é abandonado pela filha e tem de viver
em um asilo contra sua vontade, até que ele
tem a chance de retribuir a covardia.


“O velho tava sossegado. A filha pediu: ‘É tipo endoscopia, não posso ir sozinha, e ele não pode ir’. O marido, sempre imprestável, desses que remexem suas coisas porque você mora de favor na casa dele, arrumou um serviço de ontem pra hoje. E saiu antes do pão ficar pronto; da torradeira para o lixo – ninguém mais lidava com o glúten. O pai velho respondeu que sim, antes que a filha terminasse o pedido, desses que te amam com a disposição imediata, independente, sem custo, critério, condição.” (p. 12)


“O velho parou de ouvir. Deixou a assistente social, amparada pelo segurança desnecessário, falando sozinha e saiu sem rumo do hospital, sem fome, sem sede, sem a dignidade que possuía horas atrás, numa manhã que começou normal, como todas as outras nesses quase oitenta anos. Teve medo. Na carteira, documentos, pouco dinheiro, cartão do banco. Todos os irmãos e amigos mais próximos mortos – costuma contar vantagem que é o último, o sobrevivente. A sobrinhada e seus descendentes se disseminaram pelo norte, e nunca mais teve notícias ou uma mísera ligação. Por insistência do neto, embora a mulher dele não permitisse acolhê-lo, deixou o interior. A filha pareceu não se importar; sempre foi carrancuda, de mal com o simples, o comum. O normal é estar de mal com algo.” (p. 14 e 15)


“Uma vez por mês, uma violonista, já senhora, ia tocar para os velhinhos de um asilo privado. Não tinha objeção em tocar para os mais ricos; é mais comum encontrar rancor, traumas e tendências suicidas na riqueza. O abandono de quem teve ou ainda tem muitas posses costuma ser empreendido na ausência quase completa de amor – muitas vezes, um reflexo do que o velho rico praticou em sua vida estritamente dedicada ao trabalho, ao acúmulo de bens, ou à futilidade, distorcendo os vínculos com os filhos e netos a meras relações de consumo. A senhora também tocava no asilo público e servia a todos com igual entusiasmo. Era a sua terapia. Um fazer o bem por outro. Afeta-se que isso é incondicional, mas nunca o é.” (p. 15 e 16)





Trechos do conto Chá de boldo, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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