segunda-feira, 22 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Não escaparás - Trechos do conto



Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo
ao irremediável encontro com o gume do fim.


“Dois amigos velhos e viúvos passeiam na rede mundial, cada qual com o avatar que menos se associa à carne que naturalmente os comporta, deteriorados pelo tempo. O interregno é breve, via gtalk (...) – Não há o que fazer. O que faço, então? (...) – Respire (...) – Tomei metade. Preciso da outra metade. Eu sou um covarde corajoso. Ou um corajoso covarde? (...) – Não faça (...) O que tomou os comprimidos minimiza a tela, para buscar a música My way, na voz de A Voz. O software é novo, não consegue encontrar. Mesmo com a demora, continua o silêncio. Maximiza: – Não há nada além de mim aqui. Estou só, e mal acompanhado de mim mesmo (...) – Faça (...) – É impossível” (p. 83 e 84)


“O menino estalou sua pequena coluna em formação e se cansou de ficar sentado em frente a centenas de amiguinhos virtuais. Apagou o monitor e ricocheteou pela casa, sem encontrar nada que pudesse aplacar a tão bem firmada ansiedade pós-moderna de agora. O tédio veio forte, e ele se atirou no sofá, folheando o porta-retratos digital de mais de mil fotos. Passando a esmo, sem passar o tempo, parou numa. Era o pai, com sua idade, rodeado de uma muvuca de moleques descalços e lotados de barro, unidos e sorridentes do baba recém-batido (...) – Que tosco! – riu. (...) Pela janela dos fundos, avistou a grande área verde que diferenciava o condomínio dos demais. Deserta, como sempre. Pensou em descer e só passear, para passar o tempo. Só pensou e rapidamente voltou a atenção para outra coisa. No quarto, de novo, acendeu o monitor (...) – :( ” (p. 82 e 83)


“Ela acendeu um baseado e prendeu os longos cabelos pela última vez; não havia ninguém para decifrar os sussurros que sempre escapavam. Da sala, ouvia o CD promocional de uma banda de reggae hypada, mas já estava cheia de soldados norte-americanos. Tinha coragem e muito cabelo, mas nunca foi rasta por lhe faltar fé (...) Terminou o baseado muito lentamente, acendendo-o diversas vezes, sempre com aquele movimento sinuoso que era só seu. De tacar fogo sabia, desde pequena, a queimar pontas dos cabelos das outras gurias. E ficava olhando a chama fixamente, bailando suas pupilas no inferno paralelo que tanto lhe sugeria a salvação (...) Tacou no próprio. Tacava e apagava, pelas pontinhas. E não se incomodou com o fedor de palha queimada; subiu mais rápido que a prudência e virou imolação. Girou as chamas como uma mula sem cabeça à frente do espelho e finalmente berrou a dor que vinha de dentro. Tacou a cabeça com tudo na privada. E, cravejada de tufos chamuscados, foi para a tesoura e gilete. Rapou, cada pedacinho, tirando umas lascas do cocuruto (...) Ficou uma linda Joãozinho. Asseada depois pelo iodado, preparou e acendeu um novo baseado, sozinha, na sala. Pensou nos irmãos; era Natal, e estavam todos no norte.” (p. 82)





Trechos do conto Não escaparás, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.




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