terça-feira, 23 de junho de 2015

O grito do mar na noite - No palheiro - Trechos do conto



A descartabilidade das relações afetivas
e seus inúmeros desencontros.


“Carnaval de Salvador, Bahia, fevereiro de 2010. Fernando, carioca, estava de abadá, dentro do bloco, segmentado pelas cordas, atrás do trio, no asfalto da Avenida Oceânica. Carine, soteropolitana, estava de camisa colorida e salto alto, dentro de uma estrutura confortável, à frente da grade, rodeada por gente ‘diferenciada’, no alto do camarote. Quando ele a viu, sumiu dos amigos e das rodinhas de xibiatagem. Quando ela o viu, já tinha sumido do seu companheiro de enfeite e das amigas previsíveis. A ponte foi construída no exato instante em que ambos se entreolharam em magnetismo não-aleatório (...) Ele fixou o olhar. Ela desviou, mas voltou e desviou umas três vezes, até fixá-lo definitivamente. O tempo não parou, mas foi como se. E o sorriso veio cúmplice, só de boca, sem dentes. Ali e assim, compartilharam a longínqua possibilidade de um grande amor, de filhos, família, viagens e aquele maravilhoso pacote de felicidade a dois, que a comédia romântica já tanto explorou e delegou ao limbo dos clichês imperdoáveis (...) O bloco seguiu o caminho da massa, e Fernando foi junto, na confusão alegre da diversão escancarada, amparado nos abraços e garganteios dos amigos cariocas sarados a bater recordes de pegação. O camarote continuou onde fixamente se sustenta; Carine suspirou a inércia e se voltou ao mundo confortável e corretinho, sorrindo amarelo ao namorado Gusmão e dizendo amenidades às amigas, em tom anasalado.” (p. 74)


“Aproveitando o descanso das horas ‘túmulo-sofá’ do marido de férias em casa, a esposa se trancou no quarto do casal. Quatro mensagens de número desconhecido no celular e uma da filha única, Carine, que voltara do Rio, curada de uma ressaca de fim de namoro. Ansiosa, telefonou para o número estrategicamente não reconhecido pela agenda (...) – Venha. A gente se encontra no estacionamento do Bompreço. Seja rápido, porque só temos duas horas e eu ainda tenho que comprar coentro.” (p. 76)


“Foi a primeira vez que Gusmão se apaixonou. Ela era explicitamente uma piriguete, mignon, siliconada, toda carne pra fora de um vestido curtíssimo em fiapos, fervendo com as amigas no Twist Pub, no Rio Vermelho. E ele fixou a voz suave, sem vícios e sussurrada; o sorriso simétrico, alvo e frágil; o olhar limpo, ingênuo e quase infantil. Foi a primeira vez que um homem a olhou assim. Chocou-se, desnudada pela possibilidade de ser uma pessoa e não um corpo. Ela lhe deu com naturalidade seu número de celular, após beijos quimicamente atiçados, e a primeira saída foi um passeio dominical de cinema e sorveteria. Michelle quis uma bola de sorvete de cajá no copinho e quase chorou, boba, ao deleitar-se com o inédito primeiro homem que trocou a sua bunda magnífica pela cara típica de uma baiana comum, redonda.” (p. 76)





Trechos do conto No palheiro, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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