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O grito do mar na noite - O banquete - Trechos do conto



O opressor criminoso e o oprimido vítima. E o opressor
que é oprimido e o oprimido que pratica a opressão.
Encadeados, lésbica, negro, machista, velho, racista,
pobre, estrangeiro, nordestino, nazista, entre outros tipos urbanos que devoram e são devorados num ritmo cinematográfico de um farto banquete.


“Um homem corre. Um bando corre atrás, com pedaços de pau, soqueiras, canivetes e rojões. A camisa dele é de cores frias, diferente das cores quentes da turba uniforme. Ele tem um nome: Carlito Alarcón. Tem um rosto, preferências, trabalho. Parentes, mulher, amigos, mãe. É moreno, um chapaco da cidade de Tarija, sul da Bolívia. A massa, não; é apenas impulso, vômito, ação assassina. Sem rosto, sem indivíduos, inimputável – relativa e absurdamente pode até ser considerada mais vítima que a vítima que está sendo caçada, caso a análise parta de algum fascinado que presuma a onipresença de um opressor hipotético: o sistema (...) Um homem e seu erro: desgarrou-se da sua turba para telefonar. Individualizou-se. Tornou-se um alvo e só pode correr, desesperado. Encurralou-se, por não conhecer a área dos até então adversários; agora, inimigos. Enquanto os times começavam o embate no primeiro tempo, dentro do estádio ali próximo, a surra foi visceral, num beco, longe da interferência da polícia. (...) Milagrosamente alguém, do alto de um prédio no fundo de um beco, se comove e decide agir: atira em direção à massa, para salvar o boliviano. Um covarde sem face cai morto. Vítima? (...) Carlito agoniza, mas está vivo e salvo da humilhação final, graças ao desconhecido, que se tornou o seu herói. Um herói que mata. É herói quem mata? (...) A polícia, montada, chega no momento em que ninguém mais necessita, exceto o fotógrafo do jornal.” (p. 36 e 37)


“Dentro do carro, a sensação entre os três assassinos era de dever cumprido. Chacotas. O celular passou de mão em mão. Miseravelmente um deles apagou uma por uma as fotos da viagem que a gordinha fizera com a namorada para o litoral, como se pudesse excluir da existência a opção que tanto odiava. Como se fosse possível, apenas com o seu grave distúrbio mental e atitudes criminosas passíveis de punição, exterminar bilhões de seres humanos.” (p. 39 e 40)


“A senhora se ajeitou para descer num ponto e recebeu um pisão no dedo, acidental. Esquentada, esbravejou vários palavrões antes de olhar a cara do algoz. Quando viu que era um homem com feição e forma do clichê de um nordestino – cabeça grande e chata, pequeno, atarracado –, descarregou toda a sua frustração acumulada pela perda de poder num repertório bizarro de frases feitas, elitistas (...) E ela bateu todos os recordes de acúmulo de culpabilidades por segundo, enumerando uma porrada de misérias humanas na conta do êxodo, enquanto fazia seu lento percurso do ônibus para a rua. O homem, que era mesmo nordestino – de Catolé do Rocha, na Paraíba –, surpreendeu a todos, inclusive o motorista, filho de maranhenses, com a sua elegante calma; não revidou nem disse uma só palavra, escutando todas as bravatas em completo silêncio, inexpressivo. O seu carro estava na oficina, e a bela morena suburbana, com quem ia se encontrar logo mais, não pode esperar até terça-feira, intimando-o. Sereno. O único gesto foi coçar a ponta da pistola em sua cintura, só isso. Por um breve assovio na mente, pensou em matar. Ou prender. Preferiu o anonimato e aturou; tinha método: antes de cumprir um mandato, era preciso ter paciência” (p. 38 e 39)


“Possesso com a confusão, o âncora correu atrás, atirando contra o seu próprio carro. No cruzamento, uma viatura deixou o importado passar e fechou pra cima do atirador maluco. Por um acaso da sorte, o jornalista não levou bala de um dos policiais; a arma falhou, talvez por causa da chuva. Por ser negro e estar armado (em muitos casos, nem isso), é como se todos os seus direitos humanos fossem sumariamente cassados e ele pudesse ser imediatamente abatido – as estatísticas da violência expõem claramente a diferença de tratamento entre um branco, antecipadamente inocente, e um negro, imediatamente culpado. Foi algemado com força e enfiado no camburão, tomando vários tapas de ‘Cala boca, marginal!’, enquanto tentava se explicar quem era e que era famoso.” (p. 45 e 46)





Trechos do conto O banquete, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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