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O grito do mar na noite - Quase onze dias - Trechos do conto



O livro de alguns dias escorrendo a vida formada
por efemérides inúteis e a rotina ordinária.


“Francesco não foi para o enterro de sua recém-amada. Ainda no Aeroporto Internacional de Guarulhos, no limite de 5h10 para fazer check-in, puxou a fita do disciplinador e saiu da fila apressado, carregando sua pequena mala de mão. De táxi, foi direto para a casa da ex, que, cúmplice, por amor, sumiu com ele serra abaixo, rumo a Ilhabela, SP. Conhecer a família da namorada falecida, de outro lugar, com outra cultura, reunida na dor, em pleno enterro, era uma fatalidade que Francesco não suportaria encarar. Fez o melhor para um covarde: o silêncio total, a ausência de quem não foi, de quem se compromete apenas 'na saúde'; 'na doença', não estou aqui. E hoje, 8 de outubro de 2012, uma segunda, passou no mercado e comprou quatro garrafas de água mineral e um pacote de absorvente (...) Oitavo dia de outubro, à noite, a cidade de Chicago (EUA) começa a pegar fogo, o que veio a se tornar um incêndio de proporções catastróficas, que só foi completamente apagado na manhã do dia dez; quase 200 mil dólares de prejuízo, 100 mil pessoas ficaram desabrigadas e trezentas morreram. Cento e quinze anos depois, ocorreu um vazamento de cerca de 20 a 25 mil litros de água radioativa na Usina Angra I, no Rio de Janeiro, que pode ter exposto ao menos 50 mil pessoas à contaminação, evento até hoje não muito explicado ou repercutido, pois, como cantou Renato Russo, ‘deixa pra lá, a Angra é dos Reis’.” (p. 151, 152 e 153)


“Ducentésimo septuagésimo sexto dia do ano no calendário gregoriano (no caso de anos bissextos), restando três meses para terminar o ciclo (sem ser bissexto), 2 de outubro, desde 2007, é o Dia Internacional da Não-Violência, instituído pela ONU em homenagem ao pacifista mais reconhecido do mundo, o indiano Mahatma Gandhi, nascido nesse dia em 1869. Quinze anos antes dessa nomeação, o segundo dia do mês de outubro foi marcante para a história da violência no Brasil, pela eclosão de um massacre terrível: pela tarde, após uma desastrosa operação policial, 111 detentos foram assassinados no Pavilhão 9 da penitenciária do Carandiru, em São Paulo (no noticiário do horário nobre, o destaque foi para a posse interina de Itamar Franco, após o Senado afastar por 180 dias o então Presidente Fernando Collor, que afirmou ser “vítima de um massacre jamais visto na República”) (...) Dois de outubro de 2012, seis horas e quarenta e três minutos da manhã, terça-feira. Na academia, Fábio termina sua sessão de esteira e, gotejando de suor, se apoia no bebedor para aplacar o cansaço antes de tomar água. Theo oferece, com a garrafa na mão: – Tome essa água não, beba essa aqui (...) – Que nada, valeu, man, vou beber dessa mermo (...) O suor continua pingando sobre o bebedor, mais ainda quando Fábio se inclina pra absorver o esguicho fraquinho da máquina, quase beirando o bico com sua boca (...) – Sabe, Fabão, se eu pudesse voltar atrás, mudaria muita coisa que fiz (...) Um silêncio breve, repressor, até Fábio conseguir engolir o tanto de água que pôs na boca. Retrucou, mais uma vez: – Grande merda! Você ia mudar essas coisas aí, mas, mesmo fazendo outras coisas, continuaria falando essa mesma besteira, de novo.” (p. 133, 134 e 135)


“Cinco de outubro, 87 dias para acabar o ano, 1988. É promulgada a nova Constituição Brasileira, concluindo-se de fato a transição entre a Ditadura e a democracia, após 21 anos de regime militar. Noventa e um anos antes, na Bahia, é o fim de Canudos; a resistência sertaneja cai, e o arraial é destruído, num massacre descomunal, assim avalizado pelo primeiro político civil a ser eleito Presidente da República de forma direta, o advogado paulista Prudente de Moraes: ‘Em Canudos não ficará pedra sobre pedra, para que não mais se possa reproduzir aquela cidadela maldita’. Na França de 1789, por pressão popular e da Assembleia Nacional, o rei Luís XVI ratifica a Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen [Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão], que, num trecho célebre do Artigo 1º, reza: ‘Os homens nascem e são livres e iguais em direitos’. Teoricamente (...) Cinco de outubro de 2012, 11 horas em ponto. Entretido pelo ócio das sextas-feiras, Theo está no Facebook. Acaba de fazer uma postagem contra a patrulha do politicamente correto e está orgulhoso pela rápida quantidade de ‘curtições’, todas feitas por mulheres que o paqueram via inbox. Fábio curtiu também, e comentou: ‘Gênio’. O narrador de histórias até estava on-line, viu a postagem compartilhada por uma de suas paqueras baianas e também curtiu, mas sem gerar estatística – vulgo ‘não apertou o botão pra informar que curtiu’ –, ainda mais por ser declaradamente eleitor de partidos nanicos, politicamente corretos.” (p. 141 e 142)


“Trinta de setembro de 2012, 10 horas e vinte e um minutos, domingo de sol forte em Salvador, Bahia. Theo está numa barraca da Praia do Flamengo, bebericando, de fossa. Na cadeira ao lado, Fábio, seu melhor amigo, tosta ao sol e tenta enxergar o visor do celular. Theo, vestido com uma sunga branca, reclama: – Quem eu quero me diz que me quer também, mas que não pode continuar comigo (...) – Muito coerente! – Fábio retruca rápido, após curtir uma foto de uma saradona midiática indicando onde comprar produtos orgânicos (...) – Como assim? (...) – Manter-se safo da tragédia de uma paixão e confortavelmente protegido no padrão do estar por conveniência. Coerente, man! O processo de correção do amor está entranhado na nossa convivência de descartabilidades frequentes. O que queremos é novidade, outra e outra e outra, e que seja estéril, higiênica e com prazo de validade explícito.” (p. 131)


“Quando se chega aqui, restam 91 dias para o ano acabar, mas ninguém se dá conta disso (nem é preciso, o irremediável segue além de números e símbolos). Quarenta e um anos separam o lançamento do Ford T, o primeiro carro a ser fabricado em série com o intento de torná-lo popular e acessível, pelo norte-americano Henry Ford, e a proclamação da República Popular da China em Pequim, pelo chinês Mao Tse-Tung, então líder do Partido Comunista, fatos ironicamente ocorridos em 1º de outubro (...) Às dez da noite, Liz paga a conta, presente de aniversário para Francesco, seu novo namorado. O primeiro dia do mês de outubro não terminou após o maravilhoso jantar romântico, cantina tradicional de São Paulo, elegante. Mais tarde, o aniversariante convida o narrador de histórias para um ménage à trois.” (p. 132 e 133)


“Sete de outubro é o 280º dia do ano no calendário gregoriano (...) Cento e quinze anos antes, a escravidão é abolida em Cuba, penúltima nação ocidental a erradicá-la (a última foi o Brasil), no mesmo dia em que Pio II, intelectual e escritor, 210º papa, quatrocentos e vinte e quatro anos antes deste importante ato cubano, condenou a escravidão, denunciando-a como um magnum scelus [grande crime], ordenando aos bispos que proferissem censuras eclesiásticas àqueles que praticassem tal crime (...) Vinte e três anos de idade separam o bispo sul-africano Desmond Tutu do ex-ministro brasileiro Joaquim Barbosa, librianos de 7 de outubro, tal qual o militar alemão Heinrich Himmler, comandante da SS e um dos principais homens de Hitler, e o estadista russo Vladimir Putin (...) O narrador de histórias tinha encontrado o seu grande amigo baiano: o autor. Início da noite, em um café na Avenida Manoel Dias da Silva, ele foi contar as novidades do contrato assinado ontem com a editora e prosear sobre mulheres, literatura e política. Acabou cantando parabéns improvisado, acompanhado por garçons solidários por uma gorjeta.” (p. 147, 149 e 150)





Trechos do conto Quase onze dias, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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