quinta-feira, 25 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Receba - Trechos do conto



A saga de Pedro Henrique, um autodestrutível
Casanova às avessas, que recebe uma série tragicômica
de foras de mulheres, em fracassos e vergonhas dos
jogos de conquista e sedução barata.


“Domingo de Carnaval, único dia saindo em bloco, PH se perdeu dos sócios. Sozinho, preferiu ‘casar’ com alguma gatinha. Sintonizou com uma linda negra, elegante e esguia, pescoço nobre, tal qual uma rainha. Carioca, usava umas tranças coloridas e tinha um sorriso do tamanho do mundo (...) Casaram pelo trecho final do bloco, com muita dança, pulos, alegria, e PH de rei, com sua rainha e as princesas do Rio, todas babando com seu jeito engraçado, solto, feliz. Maravilha! (...) A segunda-feira de Carnaval passou, e o camarote foi um tédio. Os sócios reclamaram, e quando a gauchada voltou pra mais uma orgia, PH preferiu dormir trancado no quarto menor do apê. Macambúzio, adolescente tardio e apaixonado, orou diante do espelho: ‘Quero reencontrá-la, me ajuda, Senhor!’ (...) No dia seguinte, último do Carnaval, o acerto era curtir na pipoca. Os dois sócios estavam pendurados na corda de um bloco elitista pra pescar gatinhas ricas, mas só vinha tribufu se oferecer aos pipoqueiros. PH olhava perdido pra dentro do bloco, na esperança de encontrar sua bela imperial. E não é que o Senhor ouviu suas preces? Ele foi visto por uma das amigas cariocas, a mais gordinha, que celebrou o encontro com euforia e foi buscar a tão querida e desejada carioca. Lá no meio do bloco, as outras amigas ficaram emocionadas, pulando e apontando para onde estava o apaixonado da vez. Quando a gata imperial avistou de longe PH na pipoca, deu um tchauzinho e só. Ele se enfureceu, não entendendo porque ela não veio até a corda. Nem as amigas, que logo fecharam a cara ou se espalharam, fingindo pular e curtir o mais do mesmo da música eletrizada. Do amor ao ódio em segundos, PH revoltou-se e quase invadiu o bloco; foi contido pelos cordeiros. Berrava e balançava com força sua camisa regata: – É só de abadá, é?! É?! (...) A gata respondeu com um sorrisinho desdenhoso, à Mona Lisa, emoldurado com seus lábios do tamanho do mundo: – É. (...) #receba” (p. 62, 63 e 64)


“Pedro Henrique encerrou sua conta no Facebook. Soube que a sua ex tinha ficado noiva, foi fuçar a página dela e encontrou as fotos do noivado, todas devidamente publicadas em um álbum de livre acesso no seu perfil, tiradas em Bali, Indonésia, em mais uma viagem pelas praias paradisíacas do mundo, acompanhada pelo engenheiro bonitão e rico. Pra arrematar o alvoroço adolescente do ‘facecídio’ de PH, a gata paranaense, sua ex-estagiária e ex-paquera, atualizou seu status de relacionamento; passou de solteira para mulher do chefe (...) Não se deve brincar com o ressentimento da mulher. Bastaram poucos dias no cargo de primeira dama do maior escritório de advocacia do Estado, e PH passou a ser perseguido pelo chefe, escanteado até pelo Amaro, maltratado pelos clientes e descartado das principais reuniões. Ainda lascado psicologicamente pela ex, perdeu feio em dois processos importantes do escritório e foi demitido.” (p. 55 e 56)


“Pedro Henrique namorou uma moça bonita, doze anos mais nova que ele. No começo, ostentou a silhueta de carne dura e boca fechada da beldade, mas ela se cansou rapidamente da atuação em segundo plano e assumiu o controle, isolando PH dos amigos, recorrendo à birra insofismável. A inversão do domínio estreou na crueldade: o namorado teve de acompanhá-la a uma badalada festa – ou micareta – de verão em outro Estado, no raçudo esquema bate-e-volta em ônibus de excursão. Seis horas de viagem boiando em cachaça e esculhambação, todos enchendo a cara e paquerando adoidado, exceto o único casal no microespaço: Pedro Henrique e a sua dona encrenca. Três horas de festa – ou micareta – gastas apenas na função de pitbull-segurança, cravado num abraço por trás em sua namorada para que nenhum playboy pudesse sequer passar o dedo. Duas horas de mofo aguardando os quarenta e dois bêbados e bebaças aparecerem no local combinado pela excursão. Seis horas de estrada na madrugada, de volta ao Estado de todos os santos, motorista sem dormir, porque foi visitar a família durante a festa – ou micareta –, único ônibus na estrada insegura, banquete de vômitos e mijo batizando os pés. O irremediável não aconteceu, mas PH não encontrou seu carro no maldito ponto de desembarque, porque foi alterado de última hora sem qualquer explicação. Não havia responsáveis pela excursão, nem táxi por perto, mais celular descarregado e namorada de porre a base de cravinho e enjoo de sono. Teve de aceitar carona do pai bebum da amiga bebum de sua gatinha, que coincidentemente era o seu cliente mais insuportável, pior ainda de pileque de final de domingo. Sua namorada não sabia o motivo, mas PH parou de beber por recomendação médica e preferiu continuar sem mencionar o assunto, mal resolvido.” (p. 50 e 51)





Trechos do conto Receba, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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