sábado, 27 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Sol de abril - Trechos do conto



A história da cabocla pernambucana Lourdes,
a sanfoneira caolha, exímia instrumentista,
uma homenagem para a canção Assum preto,
de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga.


“A senhora, séria, reconhece o apelido como se fosse de batismo; parece que o tapa-olho, preto como o de um pirata de fábula, a cara fechada, de raras expressões e nenhum sorriso e a perda de um olho de forma trágica rendem uma aura de valentia e o espaço suficiente para ser respeitada como uma sobrevivente, quiçá temida. Sapiência? Quase como um bluesman da Louisiana, a sanfoneira deixou o tom maior, infantil e inócuo, para emocionar melodias em tom menor, a cor e a textura do idioma do coração. Instrumentaliza um forró em ré menor, mas é um blues, um lamento, sertanejo, sincronicamente ligado aos cânticos do banzo, da melancolia dos escravos, de qualquer tempo, raça e sofrimento.” (p. 23)


“Quase sempre abria o fole da sanfona com o sol. Talvez fosse uma mania, ou um gesto ingênuo – o breve escape, munido da delicadeza, a afrontar as asperezas da rua. Que fosse. Para Lourdes, a junção das notas sol, si e ré no acorde de sol maior representava a luz do teu sertão, lá no povoado de Caboclo, em Afrânio, extremo oeste de Pernambuco, divisa com o Piauí. Nordeste brasileiro, onde o pássaro assum preto, se estiver cego, canta de dor. Aquele pássaro preto, de tantos outros nomes, como graúna, arranca-milho ou chupão, o gnorimopsar chopi – o tio Chico, certa feita, chegou da estrada com um monte preso, de vez. Chamou a menina para lhe dar o melhor. Feliz, numa brincadeira de quintal com os primos, campou-se no espinho da cerca de quiabento: ela perdeu a vista de um olho, sem volta. Sem ver a luz pelo direito, Lourdes ficou macambúzia, mas não chorou pelo esquerdo. Na flor dos seus dez anos, com uma boniteza que chegava doer, surpreendeu a todos: ‘Só tein um agora; se chorá, pode estragá o ôto. Deus é mais!’” (p. 22 e 23)


“A fama da sanfoneira caolha correu o Nordeste profundo, no começo dos anos 1970. Tocava bem demais a moça. ‘Ô, sanfona arretada, sinhô!’ À parte dos empresários, que não quiseram investir numa estética troncha para a época – mulher com tapa-olho era vista como feiticeira, gente ruim, de mau agouro –, das rádios e dos grandes circuitos e festas, Lourdes fez muito show em tudo que é bodega, pardieiro mequetrefe, cafundó após cafundó, vida circense, rodando num pequeno caminhão pau de arara, com um agente xibungo, improvisado: seu tio Chico (...) Completando a equipe da turnê, um zabumbeiro esquálido e um triangueiro capenga. Uma caolha, um faquir e um cotó. Praticamente um circo dos horrores. Mas quando a bela cabocla abria o fole...” (p. 26 e 27)


“Uma noite, quando se arrumava para sair de Lajes, no Rio Grande do Norte, Lourdes ganhou um beijo que custou a sua virgindade, de boca. Bené, um marceneiro galanteador, bonito e forte, parou de dançar ainda na primeira música e ficou a cobiçar a cabocla formosa, de um olho só, o show inteiro. Bom de conversa e bem arrumado, ganhou o tio Chico num papo de parente de coronel, duas cervejas pro esquálido, que pagava de xereta, até se achegar na sanfoneira, ressabiada; o capenga, que jamais tinha voz, não incomodava. Divertiu-a muito, boas risadas, tirou do chão a vergonha da moça em olhar diretamente para um moço, ainda mais um charmoso que não ligava para a sua deficiência. Antes do pequeno caminhão partir, Bené segurou a mão de Lourdes, tirou o tapa-olho com a outra, e delicadamente beijou o olho direito, cego e fechado, demorando-se no carinho, um pouco. Ela abriu os dois olhos, um da cor de mel, outro da cor de nuvem, e abriu as pernas de seus lábios, pedindo. Ele a beijou. O romance aconteceu.” (p. 27 e 28)


“Vez ou outra, a pernambucana toca sanfona na principal praça de Canela. Não porque anseia público, mas sim pela admiração ao templo de Nossa Senhora de Lourdes. Católica por origem, deixou de ser praticante desde que enfrentou o infortúnio definidor de suas chagas vitalícias. Por isso não entra. E não rende conversa às cobranças eventuais da comunidade; sua eficiente cara fechada impõe respeito, até da guarda. Em dia de folga da lojinha, ajeita-se num dos bancos da praça e toca pela manhã inteira; nas pausas, espia a belíssima Catedral de Pedra, e os pensamentos a conduzem para longe, a recordar mais da metade da vida passada no calor, e a outra restante pousada no frio, astronauta desse destino torto que é a sincronia – compreensível apenas na linguagem do inefável.” (p. 24)





Trechos do conto Sol de abril, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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