domingo, 14 de junho de 2015

Quatro passagens de Dino Buzzati no livro Naquele exato momento

Dino Buzzati (foto daqui)


"Que é você, criatura? Um gracioso grãozinho de pó perdido no universo, tão só, simples e desprotegido (...) Uma camada infinitesimal de ar sempre nos divide, nunca, realmente nunca, poderemos superá-la. Assim, você ficará fora de mim, com todos seus estranhos mistérios. Sorrisos, abraços, ternos olhares, quanto esforço inútil. Mas nos encontraremos. Somos ilhas solitárias, semeadas no oceano, e um imenso espaço as separa. Beijos, juramentos, lágrimas; são como pequenas pontes, ridículos gravetos que atiramos, da margem, para ultrapassar os abismos. E todo dia se repete esta história absurda."


"Nunca a conheci tão bela, embora nos víssemos frequentemente. É claro, você não pensava nem em mim nem neste ou naquele homem. Talvez, quem sabe, num vestido novo ou nos sapatos que a machucavam. Sobre essas misérias havia porém algo de maior que a transformava; todo o seu destino, infeliz, estava celebrando o único possível e amargo triunfo: o de dirigir-se com tamanha e cega desfaçatez para a ruína."


"(...) Com os cotovelos no peitoril, em silêncio (...) ouviremos bater a porta de casa, obra de nossos filhos, que, cansados de nós, estão impacientes por sair. Da rua, levantando a cabeça, nos cumprimentarão alegremente, mas sem nenhum entusiasmo, para libertar a alma também deste último dever, e depois se dispersarão pelos jardins para entregar-se ao amor (...) Veremos, portanto, nossos filhos felizes – quanto se possa ser nesse mundo – orgulhosos de sua idade, estranhamente satisfeitos, como acontece com os jovens, por serem a fileira de maior frescor, os últimos e ao mesmo tempo os primeiros, ainda em jejum e por isso insaciáveis, certos de que tudo, desde o princípio dos séculos, foi preparado exclusivamente para eles."


"(...) ele vagueava na vida sem maiores necessidades profundas, como se não sofresse mais nenhum insulto do mundo ou como se seus sofrimentos fossem exclusivamente pessoais e não pudessem concernir os outros. Ao passo que, antes, não era assim. E como não se pudesse imaginar que fosse a qualidade das aflições que tivesse mudado, restava pensar que ele mudara, que estivesse vazio, que tivesse perdido a faculdade de recolher numa só as dispersas e secretas vozes dos homens."





Presente no livro Naquele exato momento (Nova Fronteira/2004), páginas 32-33, 18, 24-25 e 51, respectivamente, na tradução de Fulvia M. L. Moretto.

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