segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Cinco passagens de Anton Tchekhov no livro A dama do cachorrinho e outros contos

Anton Tchekhov (foto daqui)


“Sob a invasão desordenada dos devaneios, das imagens poéticas do passado e de um doce pressentimento de felicidade, o pobre homem cala-se e apenas move ligeiramente os lábios, como se estivesse murmurando para si mesmo. Não lhe sai do rosto um sorriso embotado de beatitude. (...) Na quietude outonal, quando uma névoa gélida passa da terra para o coração humano, quando ela se alça como uma parede de prisão e testemunha ao homem a limitação de sua vontade, torna-se doce pensar nos rios largos e rápidos, de margens amplas e escarpadas, nas florestas impenetráveis, nas estepes sem fim. A imaginação desenha, lenta e tranquilamente, a imagem de um homem que, de manhã cedo, quando ainda não sumiu do céu o rubor da aurora, atravessa, qual mancha, a margem deserta e escarpada. Os pinheiros seculares, que parecem mastros e se agrupam como em terraços, de ambos os lados da torrente, olham com severidade para aquele homem livre e resmungam taciturnos. Vendam-lhe o caminho raízes, pedras enormes e arbustos espinhosos, mas ele é forte de corpo e espírito, não teme os pinheiros, nem as pedras, nem sua solidão, nem o retumbar do eco, que repete cada uma de suas passadas.”


“Saber que não o compreendem, que não querem e não podem compreendê-lo, impede Macar de se deliciar com a primavera. Tem a impressão de que, se o compreendessem, tudo se tornaria maravilhoso. Mas, como podem compreender se é talentoso ou não, se, em todo o distrito, ninguém lê coisa alguma, e, se lê, seria melhor que não o fizesse. Como fazer compreender ao general Striemoúkhov que aquela coisinha francesa é insignificante, vulgar, banal, surrada, como explicar-lhe isto, se ele nada leu na vida, a não ser tais coisinhas vulgares?”


“Os animais domésticos desempenham um papel quase imperceptível, mas indiscutivelmente benévolo, na educação e na vida das crianças. (...) Tenho, às vezes, a impressão, até, de que a paciência, a fidelidade, a capacidade de perdoar e a sinceridade, inerentes aos nossos bichos caseiros, atuam sobre o cérebro infantil de modo muito mais forte e positivo que as longas homilias do seco e pálido Karl Kárlovitch ou as digressões nebulosas da governante, procurando demonstrar à garotada que a água é composta de hidrogênio e oxigênio.”


“(...) Veio-lhe o pensamento: e se a mulher viajasse realmente para o estrangeiro? Viajar é agradável sozinho, ou em companhia de mulheres sem compromissos, despreocupadas, que vivam apenas o momento presente, e não daquelas que, durante toda a viagem, falem de filhos, suspirem, assustem-se com as despesas. Ivan Dmítritch imaginou a mulher no trem, carregada de cestos e pacotinhos, suspirando sempre por alguma coisa e queixando-se de que a viagem lhe deu dor de cabeça, que já gastou muito dinheiro; a cada momento, é preciso correr para a estação, arranjar água quente, sanduíches, água potável... Ela não quer jantar, porque a refeição é cara (...) pela primeira vez na vida, reparou em que a mulher envelhecera, ficara mais feia, estava impregnada de cheiro de cozinha, enquanto ele ainda era moço, sadio, viçoso, bom para casar novamente.”


“(...) Com a embriaguez, passara-lhe a vontade de enganar a si mesma e, a partir daquele instante, via claramente que não amava e não podia amar o marido, que tudo aquilo era tolice, estupidez. Casara-se por cálculo, porque ele, segundo diziam suas companheiras de escola, era terrivelmente rico (...) Se pudesse supor, quando estava se casando, que seria tão difícil, tão terrível e indecente, não concordaria em casar-se, por riqueza nenhuma no mundo. (...) Imaginou que, antes de chegar a velhice e a morte, ainda se arrastaria uma vida bem longa e, dia a dia, seria preciso levar em conta a presença do homem que não amava, que já entrara no quarto e estava se deitando para dormir, e seria necessário abafar dentro de si o amor sem esperança pelo outro, que era moço, sedutor e, como ela pensava, extraordinário. Olhou para o marido e quis desejar-lhe boa noite, mas, em vez disso, pôs-se de repente a chorar. Sentia despeito contra a si mesma.”





Presentes no livro de contos A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34/2014), páginas 103, 130, 149, 158-159 e 262 a 264, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.

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