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Entrevista com o autor do livro O grito do mar na noite

Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


Semana passada, o blog CultVerso publicou uma entrevista com o escritor Emmanuel Mirdad (leia aqui), que falou do seu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), lançado no final de julho, entre outros assuntos. O blog reproduz abaixo a entrevista:


1 - Qual a inspiração em escrever um livro de contos? Quais as temáticas abordadas nos contos do livro?

A inspiração de escrever um livro de contos é vibrar com a possibilidade de trazer ao leitor várias histórias distintas num mesmo livro.

O grito do mar na noite é formado por dez contos, e, logo na abertura, Chá de boldo fala sobre o abandono de pessoas pela própria família. Sol de abril apresenta a bela e triste história de Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem à canção Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e Assexuada traz o dilema de Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa, mas quer vivenciar o amor - sem sexo, é possível?

No conto O banquete, segundo o escritor Mayrant Gallo, que escreveu o posfácio do livro, racismo, imigração ilegal, preconceito social e racial, além de heroísmo efêmero, se apresentam tão a gosto do jornalismo televisivo e funcionam como uma espécie de painel difuso do nosso mundo cotidiano, tão caótico. Gallo se divertiu com as desventuras amorosas do “autodestrutível Casanova às avessas” Pedro Henrique, no conto Receba, em que o protagonista, “muito embora consciente de seus quase êxitos, e especialmente de seus fracassos, mantém a linha, segue em frente e volta a se aventurar, como o boxeador tonto de Chaplin”.

Em Bonecas, o macho alfa se liberta aos desejos homossexuais; Quase onze dias, o maior do livro, traz uma vasta pesquisa histórica em que efemérides são relacionadas com fatos ordinários do cotidiano. Além desses contos, O grito do mar na noite traz mais três contos, sobre os desencontros das relações afetivas, o encontro irremediável com a morte e o gira mundo talião que surpreende os algozes.


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite 
no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


2 - "O Grito do mar na noite" é o segundo volume de contos de uma trilogia. Quais as diferenças de um volume para o outro?

A ideia surgiu do meu editor Agenor Gasparetto, da editora Via Litterarum, de lançar os três livros de contos em um box, no final deste ano (Abrupta sede, de 2010, O grito do mar na noite, de 2015, e Paisagem da insônia, inédito). Porém, desistimos, porque sou um autor iniciante e é muita audácia lançar, agora, uma trilogia no formato de caixa, como se fosse uma coleção. Ainda não é o momento para isso. E, o primeiro livro de contos, Abrupta sede, de 2010, está sendo refeito e não será lançado mais. Descartei muitos contos e os melhores estão sendo revisados, com várias partes sendo refeitas, e serão incorporados no terceiro livro de contos, que será lançado em breve. É um reboot, pois só me tornei um escritor profissional no ano passado.

O novo livro será dedicado ao amigo, escritor e professor Mayrant Gallo. Por conta dessa homenagem, terei de mudar o nome Paisagem da insônia, como foi anunciado anteriormente, porque o título terá de ser em relação a Mayrant, e Paisagem... foi retirado de uma crônica de Clarice Lispector. É uma repetição do que fiz em O grito do mar na noite, que dediquei ao saudoso mestre Hélio Pólvora (1928-2015), e o título é um anagrama para títulos do grande contista: O grito da perdiz, Mar de Azov e Noites vivas.

Entre O grito do mar na noite e o próximo e último livro de contos, não há diferenças substanciais. Em ambos, apresento histórias distintas entre si, com personagens complexos em situações-limite. Brinco com o meu editor que todos os contos poderiam ser reunidos em um livro só (risos).


Mirdad mostra uma epígrafe do mestre Hélio Pólvora (1928-2015) para a sua viúva Maria, 
que honrosamente prestigiou o lançamento do livro (foto: Yomã Ferreira Mattiello)


3 - Em entrevista, você disse que Hélio Pólvora é fonte de inspiração. Em quais aspectos Hélio Pólvora é inspiração na sua escrita?

Hélio Pólvora foi um gigante da nossa cultura, um gentleman, generoso e amigável, um intelectual e tradutor valioso, e um dos nossos melhores escritores de todos os tempos, gênio do estilo. A Coleção Hélio Pólvora (contendo cinco livros de contos, essenciais na bibliografia do mestre), lançada em 2013 pela editora Casarão do Verbo, é sagrada, para mim. Sempre volto aos seus contos, principalmente para ter respeito à palavra, ser preciso e claro, rebuscar poeticamente a ficção, ser implacável e denunciar as misérias e contradições humanas, e honrar o compromisso com o leitor: não enganá-lo com autoelogios desnecessários, livrar-se das armadilhas da história que fracassa no fim, e surpreendê-lo com uma boa história. Carregarei Hélio sempre comigo, um busto de seu fantasma a aparecer durante o meu processo de criação, e dizer: “Menos, Mirdad”, ironizando o enigma do resultado com o seu sorriso comedido de um homem que bem viveu.


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


4 - Você tem um conto preferido no livro?

Tenho! Sol de abril é o meu conto predileto no livro O grito do mar na noite, uma homenagem ao Nordeste que faço parte, de onde nasci, mesmo no litoral, e das heranças que o meu saudoso pai, o filósofo e poeta sergipano Ildegardo Rosa (1931-2011), fã de Luiz Gonzaga e do sertão, me fez reconhecer, cultuar e celebrar. Acho tocante e bela a triste história da sanfoneira caolha Lourdes, que tocava como ninguém. Homenagear a canção Assum preto, nosso maior blues sertanejo, no ano do centenário do poeta cearense Humberto Teixeira, letrista da canção, foi um imenso prazer.

Gosto também de Chá de boldo, O banquete, No palheiro e Receba. E não posso deixar de ter carinho por Quase onze dias, pela trabalheira que a sua pesquisa histórica me deu (risos).


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


5 - O que esperar do próximo livro?

Como revelei, de primeira mão, o título não será mais Paisagem da insônia. Esse novo livro terá os melhores contos do meu primeiro livro, revisados e refeitos, e mais diversos contos pequenos, inspirados pelas leituras de Anton Tchekhov, Dino Buzzati e Mayrant Gallo. Aproveito para esclarecer que será o último livro de contos porque a partir de 2016 me dedicarei exclusivamente à escrita de romances.

Prefiro que os leitores do CultVerso conheçam O grito do mar na noite. Vamos, agucem os seus ouvidos e deixem que o mar lhes berre, à noite, as histórias com tipos interessantes, como o sedutor barato Pedro Henrique, a assexuada Monique, o macho alfa Bodão, o bisavô abandonado e, claro, a sanfoneira caolha Lourdes, entre outros. Boa leitura!



Trechos do livro aqui

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