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Olhos abertos no escuro - Absoluto - Trechos do conto



A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.


“É impressionante a forma como o ser humano se desfigura, se degrada, se arrebenta por conta de uma possessão, erroneamente classificada como ‘amor possessivo’ — que, de amor, não há nada. Quando o outro determina o fim, a vítima de si mesma está presa a uma armadilha cruel, definitiva. Não há cura, só remendo, que pode ser de dois tipos: a) conseguir ser ‘amado’ de novo, sabe-se lá como, pela mesma criatura que a sua projeção construiu e se submeteu aos caprichos — uma opção quase impossível de ser realizada; b) assassinar o ‘amado’ e suicidar-se em seguida, para que a morte os una, ao menos, na mesma condição de defunto — a opção bastante provável, mais fácil e de rápido reenlace no cemitério. E foi pelas vias do impossível que Madá não se rachou por completo: graças ao acaso, que, supostamente, interfere no óbvio — sendo que, na tragédia da existência, não há o que não seja óbvio.” (p. 28)


“Durante o intervalo, sempre às quartas-feiras, havia uma apresentação artística, no centro da praça. Alunos de várias séries, idades, gostos e medos se revezavam no círculo central para assistir à encenação do mímico, acomodados pela sombra generosa da grande amendoeira. O artista transmutava os elementos do imaginário em gestos delicados, movimentos sutis, inspiradores, hipnotizantes. (...) O tamanho e a variedade de peças apresentadas faziam o pocket-show do mímico funcionar para os estudantes. Um dia, o mundo urgente, descartável e eletrônico irá catapultá-lo da praça. Tal sina não preocupa o artista. Sempre há espaço, em outras paragens, para quem é fluido e safo. E, mesmo na versão reduzida, da dose aos estudantes, para extrair o sumo da sua arte, era preciso a paciência da contemplação. Parar para ver. Parar para sentir. Parar para ser envolto pela aura do inefável. Parar. Foi isso que Madá fez.” (p. 19 e 20)


“O mímico usava um chapéu desbotado, portava uma velha mala marrom e se vestia com um macacão escuro, rajado por uma camisa amarela de listas, calça remendada e sapato gasto. Trapos, mas limpos, perfumados. Humildes, sim, molambos, não. E os seus olhos brilhavam. Muito. Eram castanhos, mais claros que os seus cabelos cacheados, e comportavam mundos estranhos e sonhos do além. Gostava de dançar. Ah, como bailava... Recriava os fatos em lendas, suaves, fluidas, impossíveis de se tornarem livros, por serem tão etéreas, brisas fugazes. Uma breve passagem, paisagem do que não se engarrafa, tragada pela respiração da cidade, quando desaparecia ao final das apresentações, deixando Madá a suspirar profundamente, apaixonada, feliz, uma bola de fogo, radiante, linda.” (p. 24 e 25)


“A praça de médio porte, em frente à entrada principal do colégio, foi reformada recentemente e ficou aconchegante, arborizada, com espaço infantil, bancos de madeira, equipamentos esportivos e banca de revista. Na hora do intervalo, os alunos têm permissão para frequentar o espaço. Para atender à demanda de segurança por parte dos pais, funcionários ficam de olho nos jovens, e uma empresa realiza a ronda, armada e motorizada. Entretanto, quem quisesse fumar um baseado, comprar entorpecentes e matar aula, conseguia. Afinal, é inerente aos jovens burlar qualquer geração supostamente preparada para contê-los.” (p. 19)


“O trânsito é ótimo para equilibrar as diferenças sociais: todos xingam e se agridem da mesma forma, furiosa e imbecil. Ontem, Madá levou uma tapa de uma senhora, na esquina da sorveteria elegante. Sonolenta pelo efeito do domingo à tarde, a assessora arranhou, com o seu carro de luxo, um nobre sedan estacionado. De que adiantou o sobrenome famoso? A senhora foi lá e estapeou. E ficou por isso mesmo. Sem a agressora saber, o revide não foi dado, porque a maldita era mãe do melhor cliente da cidade.” (p. 15 e 16)


“Ao surgir, o absoluto era um vulto surreal. Na praça, vestiu-se da personificação exímia de virtudes de um ídolo querido do passado — Bonorico — já enterrado, que veio à tona novamente, por capricho do acaso. Nos encontros casuais, atendeu às carências maternais por um ser a ser cuidado. Na rotina, tornou-se o exímio divã, silencioso, que só se manifestava em palhaçadas, combustível das risadas tão necessárias ao entorpecimento diário das dificuldades. Num ocasional arroubo incontido, correspondeu às súplicas carnais de uma mulher a redescobrir a sua força sexual, que estava amortecida pela repetição de um casamento de tarefas e acordos. Por fim, respirava apenas para se manter pulsante e gostoso, endurecido e predisposto, uma foda atrás da outra, o atraso de uma década inteira.” (p. 25)





Trechos do conto Absoluto, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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