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Olhos abertos no escuro - Adonias Chumbo - Trechos do conto



Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado
para vingar o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada
caô, sequestrada por quatro esfomeados canalhas.  


“O fenômeno foi tanto, que ela conseguiu o apoio das mulheres e mães das comunidades, que, tradicionalmente, poderiam tê-la rechaçado, por ser jovem, bela e gostosa. Armou-se de uma simpatia de gestos milimétricos, fala suave, mansa e muitos sorrisos, limpos e cronometrados, além da atenção de praxe dos abraços e ouvidos abertos às reclamações e pedidos mil. Não era uma rival, e sim a irmã e filha graciosa, moça do campo, simpática e atenciosa, carismática. (...) A imprensa caiu de joelhos à expressiva votação da candidata, tanto no interior quanto na capital — que foi decisiva em sua eleição. Feita deputada, a mais votada em quase todos os currais — o candidato a governador, principal apoiador, também ganhou a eleição —, logo se envolveu num tórrido romance midiático com um certo senador galã, aprofundando-se nos tortuosos caminhos da política nacional, preparando o próximo salto da promissora carreira. Não demorou muito para que o sistema a enquadrasse na hegemonia real, longe daqui. Das propostas concisas, restou apenas o esquecimento progressivo dos eleitores. Desapareceu, como todos.” (p. 215 e 216)


“Adonias Chumbo sabe onde é a residência da deputada na cidade. Meses atrás, recrutado pelo prezado Pedra 90, teve que fazer um serviço de limpeza na casa da brilhante cidadã. Um faxineiro, excluído do seu nome, mas de beleza propagandeada pelas madames, foi espancado até a morte pelo hóspede de luxo, o galante senador, uma besta bêbada e enciumada, arvorado por uma tropa de seguranças, animais. O secretário de segurança foi acionado de madrugada, que acionou o seu homem de confiança, que, por sua vez, disponibilizou o seu operário. Adonias Chumbo tocou fogo no pé rapado à estrada da desova, e o pobre homem bonitão desapareceu feito mágica do opressor. Prevendo uma tendência sensacionalista do crime, o policial ainda teve que visitar, umas duas ou três vezes, a família do faxineiro. De forma amistosa. Delicada. (...)” (p. 216 e 217)


“Dentro da viatura barreada, o policial Adonias Chumbo e o seu comparsa lamentam. (...) Eles? Apenas peças do tabuleiro, sem fantasias ou mitos, nada da mão do amor da tevê, a informar o sonho do bom salário. Dois xexelentos sem procedência, de quase quarenta anos, com ferrugens embainhadas nos coldres, e escassos de valor. De vez em quando, um saudável relapso: ‘Será que algum dia iremos chegar ao topo?’ Pra furar a cabeça pra fora do limbo, o melhor que um deles conseguiu, o Adonias, foi o contato dum amigo de infância, hoje secretário do Estado, seu patrão: uma improvável esperança de apadrinhá-lo. Promessas, vazias, rapidamente esquecidas.” (p. 212)


“Adonias Chumbo sabe agradecer. Do próximo corredor, faz uma carreira volumosa, com os melhores grãos, fragmentados em um pó de cor azulada. Quatro homens, quatro narizes aspiradores. Tecados, então, os policiais partem, com balas nas agulhas das armas enferrujadas, azucrinados, sedentos, querendo vingar a infelicidade do padrinho Pedra 90 e punir a má-conduta moral de quem atacava uma fiel do patrão Estado.” (p. 214 e 215)





Trechos do conto Adonias Chumbo, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.



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