sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Alucinação - Trechos do conto



Mataram a Rita!
E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.


“O dominó proporcionava umas partidas bastante disputadas, com muito empate, um toma-lá-dá-cá danado, não havia favorito. Quem decidia, quase sempre, era a sorte mesmo. Com os jogadores safos, todos escolados, só o azar pra vencer os empates e os embates. E as apostas fervilhavam. Todo mundo fazia a sua fezinha. Mas a plateia era obrigada a ficar em silêncio, quase absoluto. Qualquer troço diferente, seja movimentação ou diálogo, era motivo para alguém acusar de trapaça. Dependendo do palavrão, saíam na mão, sempre respeitando o tabuleiro, sem bulir nas peças. Depois dos socos e apartações, a partida recomeçava. Ninguém comprometia o dinheiro dos apostadores por conta de tapas e murros. Que brigassem o quanto quisessem! Sangue e caras estapeadas depois, o jogo havia de recomeçar, de qualquer maneira. Eram nobres, os cavalheiros do ócio.” (p. 74)


“A vida me borbulha. Sobrevivo à vodca pirata e ao antidepressivo, e saio, compenetrada, rumo à orla. Andarilha e nostálgica, escolho morrer no mar, a promover uma batalha entre os meus germes e o sal flamejante, para desinfetar, do restritivo mundo padrão, a minha existência, à vista dos outros, monstruosa. Basta! Resignada, não choro e apenas vou, corajosa, em passos calmos. Chego bem perto da água salgada. Do calçadão, um berro agudo interrompe o vigor suicida; alguém grita o meu nome, com força e desespero. Uma mulher grande, galopante e pontilhada. Rita. (...)” (p. 72 e 73)


“Um crime terrível, hediondo, inafiançável. Um absurdo! Mataram a Rita! Irritada, clamei por justiça, mas o que os desgraçados fizeram, foi apenas virar os dados e embaralhar as peças, para o jogo recomeçar. Fiquei furiosa com tamanha impunidade. Aproveitei a mão mole do embaralhador e escapuli, tabuleiro abaixo. Deram conta da minha falta, imediatamente. Suspenderam o embate. Ninguém conseguiu me encontrar. Fugi para o mundo real. Sem mim, não houve mais partida. Dominó faltando peça é que nem infarto e derrame; fulminam, mesmo com o corpo inteiro.” (p. 75)


“Sempre fui esquisita, mas era decisiva nas vitórias. (...) não parei de pensar em minha Rita. Amor platônico. Nunca nos colaram, as malditas regras não permitiam. Nas vezes em que ficamos separadas apenas por uma peça — aproximadas pelas alcoviteiras, as minhas primas de 2º grau, com o número seis gravado em uma das pontas —, eu saboreava o cheiro dos buracos mil da minha paixão, pesada, de maior valor entre nós todas. Com sorte, durante os rodopios antes do recomeço das partidas, ocorria da gente se chocar, se bater, se roçar. Uau! Como isso me excitava! Muitos lasquinês que proporcionei, vieram depois desse rebuliço. Que saudade...” (p. 76)






Trechos do conto Alucinação, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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