sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Amante - Trechos do conto



As peripécias de um ser que atende às
necessidades sexuais de diversas mulheres,
cada uma com um motivo distinto
que justifica a traição.


“Um dia, fui pra cama com uma mulher que amava fazer sexo, mas estava numa abstinência forçada de cinco meses, por causa do novo amor, que era evangélico e não cedia aos apelos de corromper a maldita convicção de que sexo só depois do casamento. Ajudei e a fiz esquecer o impasse por três horas; ela gozou muitas vezes na calada de uma noite em que, supostamente, já estaria dormindo, e, entre os descansos das retomadas de fôlego, na cama do motel, apoiei o namorado, arrumando argumentos bonitinhos para ela continuar acreditando no romance, mesmo com a diferença de credo. (...)” (p. 226)


“(...) O marido havia sido diagnosticado com uma doença grave, dilacerante, terminal. Cuidou dele com afinco nos dois primeiros meses — a validade do amor contratado (e até mesmo a validade do seu sentimento numa relação que, contando também o namoro e o noivado, chegara aos vinte anos). Perto do fim, ela sumiu, abandonando-o aos cuidados do pai idoso e quase senil. Precisava de um tempo pra si. Viajou para outro país: o meu. Não era altruísta. Nem deveria ser, por inaptidão natural: era um espetáculo de mulher, formas exuberantes, elegante, feminina, uma grande artista. Essas coisas de compaixão e esforço deveriam ser proibidas para ela. Eu bem soube explorar os seus dotes, aos poucos, engordando a sua vaidade, consumindo a sua arte, divulgando a sua genialidade aos meus, e, dos seus fluidos, bebi, dias seguidos, um gozo que era um berro de libertação, um expurgo da maldita culpa cristã. (...)” (p. 227 e 228)


“Certa vez, fui pra cama com uma mulher que estava noiva de um milionário, mas que foi comigo à alcova de ônibus, topou a aventura de transar dentro de um apartamento em reforma, sem piso, com sacos de entulho, poeira, chão cru e colchão fubambento emprestado pelo porteiro. Descobrira uma traição do noivo e quis descontar, para equivaler os direitos na relação. Justo. Ao final de muitas gozadas histéricas, escandalosas, seduziu ao telefone, carinhosamente, o noivo, que foi buscá-la, mesmo em horário de trabalho, na porta do prédio em que o traiu. (...)” (p. 226)


“Outro dia, fui pra cama com uma mulher que me revelou o motivo do seu tédio constante: ‘Ele é perfeito demais’. Tantas mulheres buscando o homem perfeito e, esse, por ser perfeito, era demais. Ela chegou a atendê-lo ao celular enquanto estava sendo chupada por mim. Não parou de se mexer, contorcer, e o desafio de manter a mínima aparência na conversa telefônica a fez gozar logo após ter desligado; mesmo que a minha fosse outra língua e técnica, a voz do namorado de cinco anos a fez relembrar o percurso do estímulo acostumado. (...)”  (p. 227)





Trechos do conto Amante, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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