Pular para o conteúdo principal

Olhos abertos no escuro - Amante - Trechos do conto



As peripécias de um ser que atende às
necessidades sexuais de diversas mulheres,
cada uma com um motivo distinto
que justifica a traição.


“Um dia, fui pra cama com uma mulher que amava fazer sexo, mas estava numa abstinência forçada de cinco meses, por causa do novo amor, que era evangélico e não cedia aos apelos de corromper a maldita convicção de que sexo só depois do casamento. Ajudei e a fiz esquecer o impasse por três horas; ela gozou muitas vezes na calada de uma noite em que, supostamente, já estaria dormindo, e, entre os descansos das retomadas de fôlego, na cama do motel, apoiei o namorado, arrumando argumentos bonitinhos para ela continuar acreditando no romance, mesmo com a diferença de credo. (...)” (p. 226)


“(...) O marido havia sido diagnosticado com uma doença grave, dilacerante, terminal. Cuidou dele com afinco nos dois primeiros meses — a validade do amor contratado (e até mesmo a validade do seu sentimento numa relação que, contando também o namoro e o noivado, chegara aos vinte anos). Perto do fim, ela sumiu, abandonando-o aos cuidados do pai idoso e quase senil. Precisava de um tempo pra si. Viajou para outro país: o meu. Não era altruísta. Nem deveria ser, por inaptidão natural: era um espetáculo de mulher, formas exuberantes, elegante, feminina, uma grande artista. Essas coisas de compaixão e esforço deveriam ser proibidas para ela. Eu bem soube explorar os seus dotes, aos poucos, engordando a sua vaidade, consumindo a sua arte, divulgando a sua genialidade aos meus, e, dos seus fluidos, bebi, dias seguidos, um gozo que era um berro de libertação, um expurgo da maldita culpa cristã. (...)” (p. 227 e 228)


“Certa vez, fui pra cama com uma mulher que estava noiva de um milionário, mas que foi comigo à alcova de ônibus, topou a aventura de transar dentro de um apartamento em reforma, sem piso, com sacos de entulho, poeira, chão cru e colchão fubambento emprestado pelo porteiro. Descobrira uma traição do noivo e quis descontar, para equivaler os direitos na relação. Justo. Ao final de muitas gozadas histéricas, escandalosas, seduziu ao telefone, carinhosamente, o noivo, que foi buscá-la, mesmo em horário de trabalho, na porta do prédio em que o traiu. (...)” (p. 226)


“Outro dia, fui pra cama com uma mulher que me revelou o motivo do seu tédio constante: ‘Ele é perfeito demais’. Tantas mulheres buscando o homem perfeito e, esse, por ser perfeito, era demais. Ela chegou a atendê-lo ao celular enquanto estava sendo chupada por mim. Não parou de se mexer, contorcer, e o desafio de manter a mínima aparência na conversa telefônica a fez gozar logo após ter desligado; mesmo que a minha fosse outra língua e técnica, a voz do namorado de cinco anos a fez relembrar o percurso do estímulo acostumado. (...)”  (p. 227)





Trechos do conto Amante, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…