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Olhos abertos no escuro - Botox - Trechos do conto



A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida, dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.


“(...) Na ampla e climatizada loja que ergueu, a venda é camuflada. O que importa é a satisfação das consumidoras, que precisam se sentir confortáveis para que possam falar muito, desabafar as suas angústias e vontades, como se estivessem na casa da melhor amiga, a confidente secreta e leal. (...) Para cada cliente, uma vendedora específica, que possui um detalhado banco de dados sobre a sua intimidade e as suas necessidades, previamente analisado por um terapeuta — a bula é construída desde o primeiro encontro. Cada frase, gesto e postura são calculados antecipadamente, visando à sedução emblemática. (...) As clientes confiam de forma plena, entregue, total. Além das cartadas certeiras, Marília atende em sala reservada, a oferecer exclusividade, importância, simulando uma sessão de análise. Acomoda as clientes em um confortável e fashion sofá, e permite que elas despachem as mais variadas angústias e insatisfações: dúvidas existenciais, reclamações cotidianas, relatos de traição e impotência dos maridos, drogas e vagabundagem dos filhos, sessões secretas de sexo com amigas e empregados, entre outros segredinhos que precisam ser contados, mas nunca se sabe em quem confiar. Ela? ‘Sim, desabafe, eu garanto o sigilo...’ E a cliente aproveita para conferir as tendências da estação. (...) Ao final do processo, todas pagam o preço que for. (...)” (p. 83 e 84)


“(...) No material que expõe, com brilho e afetação, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos no sul do País, e em outras liquidações baratas, nos confins das fronteiras e até em outras terras latinas. Então, o balaio de gato cai nas hábeis mãos de poucas funcionárias, de extrema confiança, que costuram, com muita delicadeza, a preciosidade da coleção: a etiqueta. (...) É a marca que faz o material chinfrim custar tanto. O que interessa à cliente é comprar, possuir e ostentar o ícone referendado que assina a coleção, do vestido de gala ao chaveiro personalizado. (...) A cliente paga, propaga e é certificada a transitar pela sociedade compartilhando o mesmo código de conduta e consumo que as demais mulheres ricas, as mesmas regras de etiqueta e comportamento do seu meio social, amparada e legitimada pelas peças que Marília vende (...)” (p. 80 e 81)


“Marília desliga o som do carro. Enxuga as maçãs do rosto e olha para a entrada da sua loja, de rua, uma maison. Bem vigiada, segurança privada armada e atenta, apoiada por viaturas da polícia militar a rondar pelo tradicional bairro nobre, permite-se ao luxo de estampar diversas ricaças na sua porta e nenhum assalto. Entretanto, há um burburinho maldoso. A empresária analisa que o deboche é sobre o seu sumiço. Mais: estavam a avacalhar a sua pessoa, algo impensável meses atrás. Só que as clientes têm razão. Afinal, faria o mesmo, caso fosse uma das fofoqueiras. A mulher, em equívoco ancestral e absurdo, é algoz da mulher.” (p. 85 e 86)


“Antes do envelope-tormenta, era cúmplice da cisão familiar. A regra da existência contemporânea é cada um por si, o meu primeiro. O egoísmo impera e regula, o recurso financeiro entra e a felicidade é ágil, fugidia. Não se engane: Marília vivia bem consigo mesma. Bastava-se. Da família, queria os garotos sadios e estudando. Do ex-marido, que continuasse a pagar em dia a pensão e demais despesas eventuais, requisitadas pelos filhos. Sexo? Trocou pelo glamour e chocolates. (...) Saudável engano; o corpo humano destroça as fantasias. E é cruel, revelando as mazelas de repente, num pedaço de papel com letrinhas impressas. Exame de rotina. Resultado incomum. Suspeita estranha, novo exame, específico. Marília abriu-o, assim que saiu do laboratório. Choque. Profundo. (...) desaba na cama king size. Quer romper o pacto, ligar para o ex-marido, que é médico. Não pode, mas precisa. Disputa difícil, entre o mito poderoso e a carne frágil. E se acionasse os filhos? Não dá; há muito o cordão foi podado pelo elo do comércio ‘notas altas = dinheiro extra vs. notas baixas = corte na mesada’. Pensa: ‘Quanto será que eles cobrariam por um apoio sempre ruim de dar?’ — para a empresária, não há quem segure a barra da doença alheia sem levar alguma vantagem com isso.” (p. 88 e 89)


“O poder está intrinsecamente ligado à quantidade de contatos e à qualidade das informações que o poderoso acumula e mantém. E a rede precisa ser vasta, abrangente, plural, corporativista. Faz parte do bom jogo colaborar, compartilhar, trocar, intercambiar os interesses constantemente. Além disso, para sobreviver às tempestades ocasionais que a frágil carne humana impõe, é fundamental estar no topo da hierarquia e ter um longo dossiê sobre os deslizes de cada peça dessa engrenagem corrupta e vital. Não importa o que aconteça, quando e quanto tempo irá passar até que se volte à ativa. Se ainda tiver as provas muito bem resguardadas, e se a habilidade de escapar das ameaças for maleável e sutil, nem precisará de dinheiro para se reerguer. Ofertarão.” (p. 106)


“(...) antes de apagar, pede para que a acompanhante se aproxime. Fala, bem baixo, ao ouvido: (...) — Vou colocar o seu nome no meu testamento. (...) — Qué isso! Vai ficar tudo bem... (...) É uma falha dos românticos cogitar a moral mesmo em momentos extremos. (...) — Não precisa me agradar, sei da lama em que habito.” (p. 92)


“Muitas vezes, quem se classifica como preparado, não está. É na dificuldade que surge a real competência do posto em xeque. E os novatos no comando costumam se estrepar com frequência, decaídos pela prepotência inflada do poder recém-adquirido, e se desesperam: tomam decisões desastrosas e se tornam acuados e imprudentes, a demitir o primeiro funcionário que questionar e expor os seus equívocos; a absorver para si toda a responsabilidade, afundando o grupo no confuso redemoinho das metas insanas, pretensiosas e mirabolantes, criadas no afã por soluções imediatistas. (...) Érica chorou, escandalosa, no banheiro. A polícia prendeu quatro grandes fornecedores, ferrando com o comércio de muita gente. A nova chefe foi cortar verbas justo da segurança... É a regra: deve-se pagar, com assiduidade, para os agentes da Lei permitirem o funcionamento da operação clandestina e ilegal. O sistema ficou comprometido, justo agora, quando as mulheres ricas estão mais arredias; o casamento está próximo.” (p. 96 e 97)





Trechos do conto Botox, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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