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Olhos abertos no escuro - Brutalistas - Trechos do conto



Para-raios de malucos brutalistas: Cristal, Thiago, Andrômeda, Tavinho, Moloko Veloz, Mestre Ganja, Fuça-fuça, Peripinho, Xica, Virussapiens, Fantasma Comparsa, Carrapatos Suspensos, Mendigos Cheirosos e I’m tired, todos girando no balão frágil.


“O precipício alucina, as pernas vagam, o raciocínio falha. A percepção de que o êxtase já se foi, ordena que a depressão se instale. Nenhum ser de luz consegue alumiar, porque tudo isso é mais fundo do que a luz da oração de alguém — a fim do abono ‘fiz minha parte’ da caridade programada. As mãos de Cristal, ávidas por garrafas, não conseguem alcançar o gatilho do salvador. E a mesa da sala foi quebrada desde ontem; foi Thiago, amigo de pó e álcool, que também se jogou da ponte quando soube do filho que morreu de fome.” (p. 162)


“Por que é tão complicado? A previsão é sempre dor? O ego de Fuça-fuça infla, a testar portas, descrevendo a si mesmo em overdose, sem ter destino do lugar comum — cinco milhões por uma pista. O intruso. O difícil eu de mim. É muito animal ambular testando portas, imitar os pais, amordaçado. Esperar a prova aprovar-se. O desafio: mais um obstáculo novo nascido. Pular a trave, ultrapassar a linha na posição que lhe ponha a respirar, arregalar a sua cabeça para fora da matéria. Vingar-se. O nome teu: indivíduo fadado ao esquecimento.” (p. 163)


“Sinuoso ser que se molda e foge. De quê? Por onde ir, se entorta a seta em cálculo medusa? Tentáculos e gracejos, apodera e abandona, ser de muitos truques, fruto e consequência. Como calcular se, das possibilidades, o incerto infunda o seu veneno confuso, repleto de saídas obscuras? Virussapiens quase não tem cor, olhos de prata; da noite, um sobretudo, trunfos e lábia, a poderosa vaidade que conforta. Sorrateiro e pé de valsa. No chão, desliza; no céu, encanta. Músculos finos, mente talhada — troféus de uma vida carrapato. Assim, Virussapiens perfuma e perfura, invade e destrona, ocupa o que pulsa e, fatal, degenera!” (p. 164 e 165)


“(...) presos aos meus inúmeros pelos, reconheço também os Carrapatos Suspensos, aquelas criações paranoicas de supostos predadores, que avaliam constantemente as condições da minha engrenagem — deixo que suguem. E os Mendigos Cheirosos estão na minha porta; sofrem de lepra virtual, despedaçando os pedaços podres dos nossos desamores no Facebook. Matéria morta, invadem a minha sala, de cabeça baixa, cravados no celular, monossilábicos. Calam o meu piano com fotos de tudo que veem. Sorrisos tecnicamente escravos, sem sexo, sem alimento, o jpeg infantilmente prostrado. Os Mendigos Cheirosos dissecam a minh’alma em poucos caracteres. Estou pobre, gordo e fedido. (...)” (p. 165)





Trechos do conto Brutalistas, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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