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Olhos abertos no escuro - Cinzas - Trechos do conto



Os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas, entre a arrochada de camisola no corredor do hotel para um strip-tease via Skype a uma fossa regrada ao brilhante esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã. 


“Domingo. Ela lagarteou até o meio-dia, quando o pai, o seu ex-marido, devolveu as duas meninas e foi curtir o feriado em Itacaré com a nova namorada, uma linda e exótica bichinho da floresta praticante de cross yoga fit zouk — ou qualquer outra mixagem de conceitos que deixam o corpo sarado à base de muito suor e diversas tatuagens. Duas. Filhas. Pequenas. Pela tarde, ela pagou R$ 40,00 para o mesmo estacionamento em que pagaria dez reais, no máximo, nos dias sem assalto. Ao menos, as ruas históricas do Pelourinho estavam repletas de outras famílias; quase todas, na mesma sintonia de aproveitar as crianças antes que elas cresçam e magoem, maltratem ou afrontem os pais com inevitáveis escolhas erradas na profissão e nas relações amorosas. (...)” (p. 177 e 178)


“(...) A dentista ligou para o ex-namorado, que não atendeu. Só foi receber de volta um emoticon de sorriso amarelo na manhã do dia seguinte. Insistiu. O símbolo de uma mão com o polegar levantado foi suficiente para que ela entendesse que a consideração já era; a indiferença é tamanha que nem o tempo de digitar um ‘ok’ no celular vale a pena de ser gasto. Perdeu a primeira noite de Carnaval esperando por uma resposta, e ficou na fossa, assistindo ao belíssimo esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, preguiçosamente baixado da internet. Sentiu-se esmagada, também. Vai torcer por ele no Oscar.” (p. 176)


“(...) À noite, via site patrocinado pelo Governo no seu MacBook, ela curtiu um pouco do show do BaianaSystem, dando-se ao luxo de arrochar de camisola no corredor do hotel, só na terapia de cumprir uma das exigências do seu personal Christian Grey (via Skype no tablet das meninas), que estava achando o Camarote Salvador um porre e assumiu, descaradamente, que deveria ter levado a dentista pra testar a cápsula suspensa da Durex, ao invés da atriz global, que não resistiu ao seu plantão etílico e foi testar a qualidade do posto médico do templo coxinha. Perdeu, playboy! E ela, numa inversão de masô pra sádica, enlouquecendo o bofe a distância, ficou nua em frente ao quarto 404, suingando um strip-tease enquanto gemia os versos de Russo Passapusso na canção Playsom, a melhor do Carnaval 2015: ‘Tem que ter amor na manha/ Tem que ter oh mon amour/ Seja onde for, na manha/ Se não for, apanha’.” (p. 178 e 179)





Trechos do conto Cinzas, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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