quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Como uma pedra - Trechos do conto



O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade enquanto homem na obsessiva pergunta, a única que lhe interessa: "Vocês transaram?" 


“Louise gosta de despejar os pés na cadeira mais próxima; lagarteia a sua preguiça, às vezes esticada, sorrindo sozinha a malícia que recheava, lupinamente, os seus automáticos de sempre. E, com os celulares no silencioso, curte os últimos instantes de solidão, antes que o marido volte. Álbuns de fotos foram revirados em sua gaveta, sem nenhuma pretensão em disfarçar a invasão. Louise ouve uma canção chamada Meu norte, do cantor e compositor Kalu, que suplica: ‘Eu não tô nada bem’. Kaluniana, ela recorda a sua paciência com a morena, que se mudara pra Roraima e diz até hoje que não quer mais ninguém.” (p. 146)


“— Como é o nome dela?! (...) — Cristiane. (...) — Nome de piranha! (...) — Sua mãe. (...) Kadir quer rebater, chamá-la de puta, traíra, vadia, vagabunda. Até bater. Mas se lembra de que a sua mãe se chama Cristiane. (...)” (p. 149)


“— Moravam no mesmo bairro, inclusive próximo àquela lojinha charmosa de produtos naturais. Que você detesta — meio marota, Louise risca nos lábios um sorriso de charada. (...) Kadir resmunga alto e cruza os braços, com a foto entre os dedos. Sente que, dentro dessa loja, deve ter sido humilhado muitas vezes; um lugar reservado o suficiente para ser o esquente perfeito à alcova. (...) — Nessa mesma época, Bruno me demitiu. Fiquei arrasada, você se lembra, é claro. (...) Greve de sexo. Sim, ele se lembra. Tempos difíceis, quase perdeu também o seu emprego.” (p. 148)


“Uma ambulância passa na quadra vizinha. O som propaga sala adentro; não há comércio por perto. É um bairro de casas e plantas, morno de mais um final de tarde, no meio da semana. Louise recupera a perna e segue firme numa posição de cotovelos. Em silêncio. Finalmente, alcança os olhos petrificados do companheiro em xeque. Deixa escapar um expiro denso e revela, num relato saqueado: — Foi estranho. Éramos amigas, mas ela insistiu em me amar. Oferecia carona e, quando eu entrava no carro, tocava as suas obviedades, como Eu preciso dizer que te amo, de Cazuza, sempre nessa insuportável sugestão adolescente. E havia flores também. Flores... Flores! Imagina? Logo eu, que detesto! Se ela me conhecesse bem, saberia disso. Você bem que sabe. Aquelas orquídeas importadas, lembra?” (p. 147)





Trechos do conto Como uma pedra, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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