quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Derrame - Trechos do conto



O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou o seu amor libertário. De encontro em desencontro, o encanto de uma nova tentativa a livrá-lo dos desencantos da ilusão faminta, da reles possessão desesperada.


“As mulheres-muletas que arranjei, após o término da minha relação, não se comunicaram com o afeto. Para quem não é grande coisa, imprimo o silêncio da prudência. Elas telefonam, afetadas, procuram e querem mais. Eu sumo. Outro dia, me chapei, e uns rasgos de azul, no abafado céu plúmbeo, foram insuficientes ao estímulo; a lâmina do clima percebeu e decepou os pés do meu manequim, que iria flutuar nas plácidas nuvens da sugestão psicotrópica. Nessa minha saga, de quem será o próximo pouso? A tempestade se aproxima e eu preciso estar nu, novamente.” (p. 122 e 123)


“(...) O ódio se encarrega do serviço fácil: esfarelar os frágeis sentimentos que foram tão exacerbados publicamente e que não enraizaram a cumplicidade e a compreensão um tiquinho sequer, flanando nas aparências da felicidade instantânea e dos gozos supérfluos. Engulo a seco o drama-comédia da minha amada, e é agora que os porcos passeiam nas lembranças. Maçãs na estrada, nuvens, zumbidos.” (p. 122)


“(...) As desculpas que crio, favoráveis à preservação de me manter seguro, evidenciam o rápido vencimento de certos compromissos supostamente assumidos. (...) Mesmo assim, às considerações de uma lâmina, não quero perder alguém que amo por não querer amar da forma como a que muitos erram: desespero, oxigênio, não razão, ilusão faminta. (...)” (p. 122)


“Deixo a minha barba crescer. Esse é o momento crespo. Sofrido. Selvagem. É preciso primitivizar-se, tornar-se vasto, horizonte árido, dar um tempo das lâminas, permitir que os ombros bebam dos cabelos o que escorrer do peso que vai jorrar da consciência baleada, manca, rente e atabalhoada. (...) Pois elas viajaram, a minha romântica trindade, e nunca mais voltaram: uma ficou na estrada, a outra, na ponte, e a última, em mim. Eu ainda a amo. As três. Aliás, nunca deixei de amar nenhuma das que um dia declarei o meu amor, para sempre. Estão todas aqui, em mim.” (p. 123)





Trechos do conto Derrame, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Nenhum comentário: