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Olhos abertos no escuro - Deserto poema - Trechos do conto



As decepções do professor Belizário com a literatura e o encontro de um zumbi telepático, que oferece lições filosóficas a anjos e transeuntes carnais, com a empresária Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses.


“Nalgum recôndito abafado da cidade que não dorme, um certo zumbi, que maltrapilha a avenida por vontade própria, filosófica e estética, aponta para Aisha. Com o dedo firme, sem emitir som algum, alerta, por empatia, os seus cães pensamentos: ‘Nunca se relacione com o suposto amor da sua vida. A liberdade é a maior farsa compartilhada historicamente, pois esta vida não é sua — quem opera são as coincidências e as armadilhas. Não se relacione, porque a carne é frágil e qualquer objeto pontiagudo pode cessá-la, a vida que se esvai fácil pelos vasos partidos das feridas. Nada, absolutamente nada, se sustenta à soberana decadência do extinguir-se’. (...) Aisha esfrega o antebraço esquerdo e sente o calafrio. Pensa: ‘Eu estou aqui e não quero escapar’. O zumbi rebate, ainda na fábula do fluir em cacos e adesivos telepáticos, o alerta de si, das têmporas ao chão: ‘Por mais que rodeie, não há destino ou sina. É tudo pó! E não há água que aplaque a sede eterna em significar o algo, que nunca deixará de ser uma pretensa ilusão’.” (p. 134)


“(...) Belizário se frustra com a fala da sua autora portuguesa predileta e resolve sair, aos quarenta minutos, desvalorizando à mesa a sua ilustre presença na plateia. Fora da moderna tenda climatizada, evita o assédio da imprensa especializada e dos escritores inéditos com os seus originais risíveis, e vai passear sozinho pelo centro histórico, de preferência, longe da badalação da festa literária. O casario lhe inspira olhar para cima, sem amor. Numa noite profundamente escura do céu de Paraty, pidão, ele conclama: ‘Cadê as estrelas?’ Enfadado, supõe que não estejam salivando palavras, estas que sempre embaçam o brilho dos astros pelo pó das suposições do discurso. (...)” (p. 135)


“(...) Bateu foi em gente, humilhou, esculachou nos jornais, em comissões julgadoras, bancas, à frente e às costas, limou talentos desconhecidos ao primeiro brotar no deserto. (...) O profeta que zurra é chamado de ‘asno eu’ por Belizário. Conviveu com muitos; a maioria, alunos da universidade onde se aposentou. Um desses ‘asno eu’, que se vitimizava numa autoproclamada depressão, certa vez, propagandeou que a vaidade, o poder e o consumo estavam certos, ao fim; o seu mundo, de supostas integridade, coerência e responsabilidade, é que era o distorcido. Mas não é que era mesmo? Para o professor, esse idealismo tolo, projeção infantil, resumia-se a mais uma página gasta, valoração equivocada de um profissional pateta, fadado ao fracasso, pois, ao resto dos seres normais, vaidosos, poderosos e consumistas, não interessa o processo, e o que importa é o resultado. Pois o ‘asno eu’ deprê irá se apresentar amanhã, ironicamente, em Paraty, incensado pelos progressistas, escritor referendado pelo resto que sobrou do jornalismo cultural no Brasil. Vende? Não. (...)” (p. 137 e 138)


“O céu da cidade que não dorme também não tem estrelas. Contudo, para o zumbi telepático, a lua continua lá, incomodando-o, porcaria que não serve, povoada de fábulas, lendas, projeções e suposições, ilusoriamente pregada no veludo negro da noite, a manchar o que seria o mar de estrelas com uma forma excessiva, a comprimir o ser na sua pequenez mortal e sem asas — desamparo ancestral de estar a sós e desprotegido na escuridão da ausência solar. (...)” (p. 140)





Trechos do conto Deserto poema, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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