sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Despedaço - Trechos do conto



Um profissional, por conta do acaso, se fascina pelo pôr do sol. Outro, caminha pela areia da praia, de terno, desolado. Encontram-se, desabados. O que há de comum
além da dor e da redenção?


“Equilíbrio. O horizonte e o final da tarde, essa composição harmônica do poente, são lastreados de cores em dissolução. Um preparo inebriante, conforto gratuito ao descanso dos fardos; basta parar e assistir. Caso alguém aguce a vista para além do olhar, sentirá a interferência arruinadora das inutilidades. O que você venha a interpretar da visão, nesse caso, será falho. Simples: é apenas o ciclo solar. O ópio gerado pelas informações visuais, captadas pelo nervo óptico, é uma bobagem de símbolos inventados que não deveriam ser traduzidos e interpretados — dispensável projeção dos seres que querem escapar de algo, mesmo que a eficácia da fuga, há tempos, comprovou-se nula, pois não há alternativa, só a existência a cravar a mediocridade do que há de ser feito, comprimido pela gravidade, necessitado de oxigênio e vitaminas.” (p. 114)


“A paciência profissional do homem o fez sair do acidente sem emitir um gemido sequer. Um pouco tonto, por ter batido a cabeça, afastou-se do burburinho, quis evitar curiosos e as autoridades, e foi andando pela calçada, paralela ao mar, aborrecido pelo transtorno que não previra. Entretanto, o acaso pôs para funcionar a sua armadilha, o seu turbilhão: a beleza. O sol, no processo de se despedaçar ao final da tarde, aos poucos forjara uma miríade de cores, que deixou o homem fragmentado pela revelação: nunca avistara o mar de tão perto, quiçá o estonteante pôr do sol salino, no horizonte da baía. Abandonou-se na apreciação do espetáculo, na corrosão da carapaça imbecil de operário do hábito. Sentou-se na balaustrada e ficou até anoitecer o impacto, a permitir a contemplação de tal deleite desconhecido.” (p. 115)


 “Basta distorcer um pouco o formato para que os grupos de curiosos se formem, aglomerados num bloco compacto, tribunal e plateia. Na balaustrada desse final de tarde incomum, com risadas contidas e palavras soltas, chegaram a um consenso: bêbado, demitido e traído. O martelo confortável do coletivo — ou a ausência da responsabilidade do indivíduo — fora batido, para celebrar a catástrofe alheia. O deboche malicioso e a saída impune e cúmplice dos curiosos alimentariam o escárnio, a render e ilustrar o movimento das conversas inúteis pelo resto do dia.” (p. 116)





Trechos do conto Despedaço, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


Um comentário:

Martha Anisia disse...

Fiquei encantada com esse conto!!!!
Amei!!!
O seu vislumbre do por do sol, mostrou-me o ser sensível que é você!
Não o conhecia no seu íntimo tão profundo!!!
Parabéns, meu filho, Deus o abençoe.
Foi para mim uma revelação!!!
Estou com o coração agradecido, desejando-lhe que você seja feliz na sua caminhada nesse planeta.
Sua mãe que lhe ama.
Martha