segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - A farsa - Trechos do conto



Ele é um grande canalha que finge estar só.
Ela é uma atriz que pergunta o que nunca poderá compreender. Não existe “nós” no “eu te amo”.


“Ele é um grande canalha que finge estar só, a esburacar o peito a sós, naquele lugarzinho doído, para delimitar, bem definido, o não amor. Expõe, a 360º, o vazio fabricado do seu coração e aponta como se fosse a ponta de uma luneta: ‘Deste peito só verás o horizonte’ — passe por ele e não more, porque buraco está, mas não é vazio. Cilada, o homem que possui e cumpre, mas não hospeda, alerta; tal qual um túnel, aquece e despacha — canalha de muitos nós.” (p. 182)


“— Não consigo sem você. (...) — Isso é preguiça de insistir. E medo de apanhar numa outra tentativa. (...) — Já estou espancada sem você. E a preguiça é só o cansaço interminável. (...) — Compre vitaminas. E saia da cama num dia de sol. (...) — Mas eu tô te esperando há tempos... (...) — Prefiro pagar uma puta. (...) — É mais fácil brochar quando paga?” (p. 182)


“Caetano canta, no rádio dum táxi que passa veloz e não respeita a faixa: ‘Eu quero seguir vivendo, amor’. Ela vai. Amy Winehouse morreu ontem. E, agendada pela mídia, a amiga reclama com a atriz, enquanto aguardam a entrada gordurosa chegar: — Ai, que horrível, tão cedo, é uma falta enorme, tô sentindo uma dor tão grande, tô pasmada, por que ela fez isso, tão jovem, tão genial, incrível, uma diva, que voz perfeita, gênio da música, maravilhosa, única... (...) — Engraçado... Nunca ouvi você falar dela antes...” (p. 184)





Trechos do conto A farsa, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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