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Olhos abertos no escuro - Formigas - Trechos do conto



O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.


“O amor é tudo na vida, mas quase perfeito, eu cobri um lar que nunca revelei. Desde o início, enfurnei-me no banco, cursos, faculdade, viagens, negócios, acúmulo financeiro, extremos. O bate-estaca métrico e soturno: trabalho – trabalho – trabalho. Venci pelo esforço, construí um pequeno império de cifras, de gozos poucos. Nada faltou ao lar. Apenas eu. (...) De babá em babá, a minha filha aprendeu a ausência, a distância e os contornos superficiais das relações humanas. E venceu. Mas não teve filhos, não se floresceu enquanto mãe e não se apaixonou. Doce por fora, ventre seco por dentro. E o que eu quis dela, ficou em algum outro extremo, longínquo.” (p. 50)


“(...) São vinte e cinco anos de uma carreira invejável, sem filhos, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, maquete viva da glória acadêmica, nobre e ilustre. Começou cedo, aos dezesseis, na gaiola das loucas do curso de Psicologia. Hoje, é a senhora de duas teorias: superlativos de páginas duma célebre pesquisa, ao revés de um best-seller chinfrim de autoajuda. Contraditória senhora de si, é esperta e funcional, trapezista de tendências. Contudo, agachada desse jeito, como dói nos olhos meus, transmuta-se na Clarinha do picolé e boneca, dos ingênuos anos de nada fazer.” (p. 48)


“Ela está silenciosa, à beira do riacho. No passado, arremessava pedras, escutava o vento, mordia o braço; queria poder enxergar os seus ossos, entender das carnes. Agora, mantém-se imóvel, esquisita, inalcançável. Do fundo, um grito represa o menino que buscava. Sempre no fundo, um boto perdido e falante. Imagens, apenas. E eu estou descrente demais para concretizar até mesmo as fábulas redundantes; a velhice rende pílulas, a piada inesperada, a linha final. Desfechos que a mente constrói e assassina. Quem sabe um empurrão às mochilas e cajados, para salvar o corpo de ninguém? Apenas imagens.” (p. 48)


“O que será de mim, assim, sem a última compensação da velhice? Não posso me expirar do apodrecer progressivo sem a ilusão do continuísmo na prole. Minha filha, a única, tem que compensar o meu último suspiro, alívio do serviço bem feito. Teria, mas ela não pode.” (p. 50)


“(...) Minha filha, venerada por milhares de famintos, senhora de tantos poderes ilustrados, está prostrada em uma posição frágil, minúscula como as formigas que piso com o que resta do meu sadismo. Merda! Não é só a posição do seu corpo que insinua o suicídio. É o seu conteúdo, todo o recheio oco de uma vida de autômatos. Contraditória, vivera, até então, embebida de ‘faça o que eu mando, não faça o que eu faço’. Tanto esforço e tanto tempo empregados à cura dos pacientes transtornados, enquanto o transtorno de si mesma evoluía, sorrateiramente, incólume.” (p. 49 e 50)





Trechos do conto Formigas, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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