Pular para o conteúdo principal

Olhos abertos no escuro - Maestro - Trechos do conto



O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.


“Escorado na parede da velha padaria, encostava o pé em forma de quatro e fazia perguntas, óbvias, sobre o que é claro e inerente. Não tinha freguês que não fosse interpelado por tal voz branda. Vinha de cantinho, murmúrio sutil, cativante. Alguém sempre parava o seu percurso e o ouvia. E era nesse sempre que alguma migalha surgia, seja alimento ou fomento. (...) De tanto ele perguntar, certa vez, brotou dum ouvinte uma questão intrigante: — Por que você não pergunta sobre algo que não é real? (...) Maestro respondeu: ‘O nosso engano surge ao questionar para além do tato. É inválido o saber do que nunca se pode tocar’. O mendigo era contra a busca e, contra os tolos, perguntava o que era óbvio.” (p. 126)


“Pregar. Mas como, se pregado estava? O crente vinha com uma baboseira de fé encartilhada, metodologia da salvação e expurgo. E falava, mas como falava! Maestro ouvia, humildemente, dando o espaço necessário à peça programada, com a cabeça afirmando as pausas e a mente, distante, num equilibrado cinismo social. Métodos e fórmulas mil eram gastos. De tanto clamar pelo o que não existia, o evangelizador gastava muita saliva e se cansava. Então, com uma risadinha marota, sem mostrar os dentes, e a mesma postura firme e clara de quem opta pela razão a cada experiência vivenciada, Maestro, o infiel, despedaçava aquela argumentação desprezível, sustentada por um credo vendado, sempre correto e dono de uma hipotética verdade única, que rejeitava as demais possibilidades de conexão com o divino. Simples e genial, o mendigo negava a oferta e desconcertava a mendicância da pregação. O que nunca poderia ser tocado era ilusão, apenas — o tato sentencia as bordas, o pulso, as carnes e a morte. (...)” (p. 127 e 128)


“(...) Desnudados, os crentes se irritavam. Viravam o diabo e o mandavam tanto ao inferno que o chifrudo cobrava aluguel antecipadamente. Pobre coitado do Maestro, transformado em turista dos quintos, desde já endividado com a besta, sem querer. Como arderia quando juntasse os pés! Esperto ser, ajeitava as madeixas imundas e crespava as vistas dos outros coçando o saco e berrando amizade ao cão: — Meu parente, deixe bem quente a fornalha, que eu quero fumar um tarugo nervoso e beber o meu sangue ardido! (...) Mas o inferno não era sua origem, apenas fazia chacota com o medo que transborda da ignorância. O humor, a sua marca sacra, seduzia as crianças, e, pelo carinho que as tocava com (eu)stórias, notava-se bondade. Isso o mantinha vivo, protegido pelo bruto que vendia carne, o padrinho, dono da calçada esbagaçada do açougue onde se aleijava.” (p. 128)


“(...) Coitado do mendigo. Nunca quis ser fantoche e, por isso, teve que resistir à hipnose que vinha à tarde, de terno, munida de leis e quadrados. Palavreado difícil, impossível de aplicar o mesmo cinismo que se defendia dos crentes. Era gente letrada, ladina, escolada nas fábricas de coiotes. (...) Finalmente, Maestro tremeu. Não conseguia mais dominar a situação. O dinheiro, bicho-verme, era oferecido em gordos maços. Possuíam sabor. Possuíam cheiro. Possuíam. E o mendigo, há tempos, não possuía. Nada além da sua simpatia. Sobrevivia do seu teatro. Dilacerava a piedade alheia e usufruía da caridade, o necessário para não morrer.” (p. 130 e 131)





Trechos do conto Maestro, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…