quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Maestro - Trechos do conto



O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.


“Escorado na parede da velha padaria, encostava o pé em forma de quatro e fazia perguntas, óbvias, sobre o que é claro e inerente. Não tinha freguês que não fosse interpelado por tal voz branda. Vinha de cantinho, murmúrio sutil, cativante. Alguém sempre parava o seu percurso e o ouvia. E era nesse sempre que alguma migalha surgia, seja alimento ou fomento. (...) De tanto ele perguntar, certa vez, brotou dum ouvinte uma questão intrigante: — Por que você não pergunta sobre algo que não é real? (...) Maestro respondeu: ‘O nosso engano surge ao questionar para além do tato. É inválido o saber do que nunca se pode tocar’. O mendigo era contra a busca e, contra os tolos, perguntava o que era óbvio.” (p. 126)


“Pregar. Mas como, se pregado estava? O crente vinha com uma baboseira de fé encartilhada, metodologia da salvação e expurgo. E falava, mas como falava! Maestro ouvia, humildemente, dando o espaço necessário à peça programada, com a cabeça afirmando as pausas e a mente, distante, num equilibrado cinismo social. Métodos e fórmulas mil eram gastos. De tanto clamar pelo o que não existia, o evangelizador gastava muita saliva e se cansava. Então, com uma risadinha marota, sem mostrar os dentes, e a mesma postura firme e clara de quem opta pela razão a cada experiência vivenciada, Maestro, o infiel, despedaçava aquela argumentação desprezível, sustentada por um credo vendado, sempre correto e dono de uma hipotética verdade única, que rejeitava as demais possibilidades de conexão com o divino. Simples e genial, o mendigo negava a oferta e desconcertava a mendicância da pregação. O que nunca poderia ser tocado era ilusão, apenas — o tato sentencia as bordas, o pulso, as carnes e a morte. (...)” (p. 127 e 128)


“(...) Desnudados, os crentes se irritavam. Viravam o diabo e o mandavam tanto ao inferno que o chifrudo cobrava aluguel antecipadamente. Pobre coitado do Maestro, transformado em turista dos quintos, desde já endividado com a besta, sem querer. Como arderia quando juntasse os pés! Esperto ser, ajeitava as madeixas imundas e crespava as vistas dos outros coçando o saco e berrando amizade ao cão: — Meu parente, deixe bem quente a fornalha, que eu quero fumar um tarugo nervoso e beber o meu sangue ardido! (...) Mas o inferno não era sua origem, apenas fazia chacota com o medo que transborda da ignorância. O humor, a sua marca sacra, seduzia as crianças, e, pelo carinho que as tocava com (eu)stórias, notava-se bondade. Isso o mantinha vivo, protegido pelo bruto que vendia carne, o padrinho, dono da calçada esbagaçada do açougue onde se aleijava.” (p. 128)


“(...) Coitado do mendigo. Nunca quis ser fantoche e, por isso, teve que resistir à hipnose que vinha à tarde, de terno, munida de leis e quadrados. Palavreado difícil, impossível de aplicar o mesmo cinismo que se defendia dos crentes. Era gente letrada, ladina, escolada nas fábricas de coiotes. (...) Finalmente, Maestro tremeu. Não conseguia mais dominar a situação. O dinheiro, bicho-verme, era oferecido em gordos maços. Possuíam sabor. Possuíam cheiro. Possuíam. E o mendigo, há tempos, não possuía. Nada além da sua simpatia. Sobrevivia do seu teatro. Dilacerava a piedade alheia e usufruía da caridade, o necessário para não morrer.” (p. 130 e 131)





Trechos do conto Maestro, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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