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Olhos abertos no escuro - O barão do cagaço - Trechos do conto



Um medíocre solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais. E, na noite da revelação, vai da euforia incontrolável à paranoia suprema. O que fazer? Quem procurar? Em quem confiar? Onde guardar o papelzinho de merda, única prova que dará acesso à vida de luxo e ostentação?


“Quarenta e sete milhões de reais. Quatro sete, seis zeros. M-I-N-H-A-G-R-A-N-A! Só minha. Rico, barão, milionário, rei da cocada preta, o maioral, playboy, futuro jogador de polo a ostentar ‘matéria’ na revista Caras. Alguém me pergunta, de dentro da cachola: ‘Você vai fazer o quê primeiro?’ Posso comprar o que eu quiser. Posso ir aonde eu quiser. Posso comer quem eu quiser. Posso. É tanta coisa (PQP!), que eu nem sei por onde começar... Chega! Tenho que dormir. Não consigo... Impossível... (...) O telefone não toca mais. Arranquei. O som não funciona. Quebrei sem querer, nos pulos tresloucados. O aparelho de TV foi junto. Ô, sina! Queria ver as especulações. ‘Quem será? Quem será?’ (...) Sou eu. Eu. O barão do cagaço.” (p. 170)


“O bilhete é tão frágil, um reles papelzinho, que não dura e não é resistente. Sinto que qualquer coisa pode estragá-lo. Suor? Resolvi, colocando-o no bolso. De calça, ninguém dorme. Amassa. Ai, meu Deus! Boto na carteira. Ladrão pode roubar. É verdade. Na mesa não dá; pode bater vento e flutuar. Nos livros, pode mofar e a tinta sair. Na pasta, pode se misturar, e, na agonia, parar no lixo, enrolado a algum outro papelote supérfluo. Já sei! A caixa dos óculos escuros. Que nada... Ladrão rouba. Na pochete, o ‘dono’ pode levar também. Vai na cueca? E o suor? E o sebo? E o medo? Se eu me borrar de novo? Eles vão receber o bilhete cagado?” (p. 171)


“Parente, nem pensar. São especialistas em aparecer nas horas em que precisam de algo e desaparecer quando é a sua vez de cobrar ou pedir. Malditos inúteis, escusos interesseiros por essência. Ao saberem da grana, irão se reproduzir como micróbios, parindo uma dezena de subparentes desconhecidos, amasiados e similares, todos às custas de uma maldita ética sanguínea. (...)” (p. 173)


“Já é tarde da noite. Finalmente, o silêncio se arrisca. Com o bilhete na mão esquerda, manuseio o mouse com a direita, apertando o botão de desligar. Satisfiz as dúvidas. Conferi, por horas seguidas, o mesmo resultado. Quase depredei o meu apê. Alguns vizinhos interfonaram, o síndico bateu à minha porta, mas eu não abri nem respondi. Como Maluf, não estou nem aqui! Não reconheço ninguém. Não tenho parentes. Não fiz amigos. Nunca trabalhei. Não saio de casa há anos! Não sei mais quem eu sou.” (p. 169 e 170)


“Merda! Olho para o bilhete, de novo. Confiro: 08, 17, 18... Estão todos ali, os seis, com a tinta firme. Um papelzinho que vale uma cifra milionária. Como a vida engana... Ontem, esse quadradinho numerado era só uma suposição, um desejo, um risco. Agora, a aposta materializará a alforria para uma vida de prega, de renda, torrando em tudo que é porcaria. Herança? Jamais! Não tenho filhos nem quero. Se tivesse, não deixaria nada. Quem conseguiu a cagada não fui eu? Não saí riscando os números aleatoriamente e aleatoriamente a sorte me escolheu? Não deixei de comprar pão pra jogar no vício? (...)” (p. 171)





Trechos do conto O barão do cagaço, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


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