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Olhos abertos no escuro - O Reino - Trechos do conto



O conquistador confronta um adversário mais viril
e poderoso: os falos de pedra maciça da mãe Gaia.
As "preda" encantadas do sertão-montanha do Reino!


“Com o olho esquerdo, vê-se a entrada; o direito, a saída. Vilarejo, de boteco, bêbado, dominó, roça, igrejinha, maluco, meninos barrigudos, fumo e segredos; árido, de vida morna, silêncio na sesta, cadeiras nas portas, de noite tenebrosa, que murmura histórias de medo. Cercado de morros e trilhas, incrustado na chapada turística, famosa, é o primo pobre dos destinos mais procurados, lado B dos guias, com pouco a oferecer. Final de linha, com todo o charme de se fingir um isolamento, isso das pessoas precisarem de um refúgio, ainda mais quando se acredita ter encontrado um ‘cafundó’ — como se fosse possível fugir do que sufoca. (...)” (p. 232)


“Nos fundos da roça, há um pequeno descampado. Brotados do chão, dois elevados formaram-se há tempos. Não há morro nem plantas os vestindo; estão nus, limpos, lisos, enormes e roliços. (...) Majestosas pedras singulares, dignas de culto. De certa forma, até que são dois outros seres, desagradáveis de se ver. Parecem projetar um poderoso império, singulares e paralelas, dois falos amedrontadores. A velha história de subjugar o mais fraco pelo sexo. São paus, sem ovos, sem pentelhos ou pregas, sem veias ou deformações, duros e maiores que os de quaisquer homens; nenhum macho pode combatê-los. (...) roubariam os desejos das fêmeas e as possuiriam nos sonhos, surrupiando até a sua beleza mais primorosa. (...) Deve ser por isso que o vilarejo se chama Reino. E o conquistador, até então, soberano do lugar, é destituído: não passa de um merdinha, perante a força cruel e inexorável da natureza. Quando os homens fantasiam a sua grandeza, Gaia aproveita e humilha, e, nesta forma de dois seres eretos e calados, vinga-se às gargalhadas, a implodir o orgulho dos machos.” (p. 246 e 247)


“Ele não esconde a fome quando Genisvaldina serve a buchada de bode. Engole sem paladar, na pressa para entupir o buraco estomacal. E a bomba estoura; estica-se na rede, derrotado. Dorme, largado, preguiçoso, como sempre. Arrota, peida. Sem vergonha, coça o saco assado da viagem e dá umas apalpadas no pau, duro, pelo tempero quente da comida. As mulheres? Não ligam. Mário é a primeira visita da cidade grande, que não é parente ou ex-vizinho, hospedada no seu casebre.” (p. 235)


“Um tempo bom. O espaço largo do fluxo interiorano. A vida simples que transmuta os ponteiros e a contagem ao seu saber específico, a paciência como artefato primal, a danação demorada do dia e da noite em se findar. Ilusões do silêncio, do vento, do engano. (...) Um capricho ou castigo de uma anomalia geológica, nada mais do que partículas sólidas, possivelmente formadas pelo vento e chuva, sem sentido. O azar do ser humano foi que a maldita forma do acaso se assemelhou ao falo, o ícone mastro da virilidade, do poder, do manter-se a ordem a partir da opressão machista e da repreensão paternalista, a gerar uma idolatria temerosa, fantasiosa: brotada pelo todo-poderoso, está explícito e duro o sexo da mãe-terra, digna de respeito e adoração. (...) Se até o homem mais intitulado e gabaritado pelas ciências desabaria as muralhas do ego perante o poder imagético dos paus de pedra, imagine o pobre povo do Reino, ignorante, primitivo e isolado, ligado à terra e ao animismo? (...)” (p. 251 e 252)


“O conquistador consegue a simpatia da casa aberta e rango na hora que quiser, com uma jogada canalha: a) chamou o cafuzo no canto e lhe ofereceu dinheiro — tudo o que possuía, mas Altamigusto não sabia desse detalhe —, pouco, mas que, no Reino, poderia comprar muito; b) informou-lhe que é para custear a sua estada; c) o gesto caridoso, vindo de uma pessoa que se diz sofrida, amalucada, significou para o matuto uma prova de boa índole, de amizade; d) Altamigusto recusou prontamente a grana; e) de imediato, Mário continuou a impor para que ele aceitasse; fim) impressionado pela humildade do conquistador, o cafuzo aceitou apenas um terço da grana — acabaria oferecendo muito mais em hospedagem, comida e confiança. (...) ‘Que otário...’, celebra.” (p. 236 e 237)


“A caçula empurra o conquistador e se manda, correndo, assustada. Ele reconhece essa reação. ‘Já arranquei muito cabaço na vida. Ninfetinha que age assim é porque nunca viu um antes. E, quando vê um, roliço e grande, se assusta bastante. Normal. Alguma paciência depois, senta do mesmo jeito, rebolando’, explica o imprevisto num diálogo consigo mesmo, Narciso. Mas o equívoco do especialista em cabaços é que a caçula não é mais virgem; então, supostamente, ela já conheceria um pau e os seus usos, e não fugiria daquela forma — deveria ser por outro motivo. Aliás, mesmo se ela fosse virgem, poderia ter bagagem suficiente para não se assustar ao avistar um falo. ‘Por que diabos ela se escafedeu, tão alvoroçada daquele jeito?’, intriga-se. Sem cogitar outra alternativa — do tipo ela não quis, desistiu, achou o pau grande demais, pode ter se arrependido de se expor na viela, entre outros —, o conquistador decreta: ‘Mistérios do Reino’. Coisas que voam longe no sertão-montanha.” (p. 241 e 242)





Trechos do conto O Reino, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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