segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Pássaros deliram - Trechos do conto



O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável, prolífico em sua matança desenfreada, e uma esfinge extremista: não deixa pistas, impressões digitais e o intento de exterminar a humanidade.


“Levanta-se no arroubo, excitado e viril, e escolhe, das quatro armas à disposição, o trabuco que mais esburaca as carnes, filha predileta, para as ocasiões especiais. É preciso ser um bom anfitrião, receber os indesejados com balaços na barriga e na cabeça. Armado, de cartucheira e pijama, está digno do besteirol cinematográfico norte-americano. Dentre as várias opções, abandona a espreita e segue de peito aberto mesmo, passando do quarto à sala, pelo corredor e escada. Pensa na fragilidade da cozinha. Lança-se ao quintal. Aguça a temperatura da escuridão e filtra as sombras. A ansiedade molda alguns cálculos errôneos. Avança, desguarnecido, e tem a sorte que, lá fora, só se apresenta o inimigo ancestral: o silêncio noturno, sempre recheado de vultos suspeitos, pirraça do medo. Ele retém o faro de tenso caçador à direção do espaço vazio, alagado pela madrugada. E nada acontece. Resmunga. Deve ser a idade, que dizem ser do lobo. Do bobo, na verdade. (...)” (p. 187)


“(...) Volta-se à cozinha. Fica ouvindo a noite de dentro. Nada anormal para o horário. Sem estampidos, passos, viaturas. Alucinação? Rompe a insatisfação na porta principal. Quer sentir a vibração do crime, fora de casa, empossado do metal que o faz temível. Fareja sangue, por perto. Desce a rua, orientado pela memória auditiva, mesmo a se alfinetar da possibilidade de que o motivo que originou os disparos fora um vagabundo, e que ele poderia abusar da sua mulher, na sua ausência. Entretanto, a intuição de raposa velha é mais forte. E ela se cumpre.” (p. 187)


“A imprensa o batizou de Monstro. Um psicopata abominável, surgido meses atrás, prolífico em sua matança desenfreada. Qualquer um poderia ser a sua vítima, e nunca se viu uma sensação de pânico tão grande na cidade, acostumada à violência já amortecida do tráfico, sequestro e latrocínio. Monstro atacava, preferencialmente, à noite, em qualquer lugar, e sempre conseguia fugir, matando policiais e seguranças também. Era uma esfinge; não deixava pistas e impressões digitais, mesmo com a barbárie que aplicava, numa longa lista de atrocidades. As mais recentes: decepou uma turma inteira de uma universidade tradicional; ateou fogo em uma recepção de casamento, trancafiando mais de trezentos convidados dentro; destroçou alunos de duas escolas municipais com ácido, marreta e machado; invadiu uma galeria de lojas e mutilou com facões, indiscriminadamente, quem passava na sua frente. A única similaridade entre os crimes era o bárbaro ato de matar o máximo de pessoas possível, sem nunca deixar sobreviventes.” (p. 189 e 190)


“No final de uma das ruas esburacadas do labirinto de muitas ruelas, o carro para. Terrenos baldios, casarões desmoronados, casas abandonadas e apenas umas três construções funcionando. Em frente ao último estabelecimento, um enorme canal de esgoto, perfumando o ambiente com os dejetos do consumo humano. Letreiro? Apenas o tapete sujo da entrada. Motel Miranda, aberto nos anos 1930. Salve Vô Tomé! Quem diria que, aquele pardieiro aos pedaços, refúgio de insetos, fora o aconchego de tantos casais excitados? Mal sabemos do muito que cada ruína e ruga contêm. Hoje, desmorona, cercado por desolação, escorado por tábuas e algum milagre, entupido de junkies fedorentos, viciados em crack — o sexo é o último dos prazeres na decadência do Mirandinha.” (p. 196)


“O quarto é todo branco, de pintura impecável. Não há móvel algum, só o espaço vazio, límpido, as janelas lacradas por tábuas, pintadas de branco também, e uma caixa de metal no chão, branca, encostada na parede. Matanza, que, de carne, gritos e sangue entende muito bem, e de coisas do sobrenatural, treme feito vara verde, emenda um safo: ‘Ei, pivete, fique com o chefe que eu vou dar cobertura lá embaixo’. O enfermeiro, ainda esbaforido, se intriga. Como é que, naquele lugar, alguém investe paciência e dinheiro para enfeitar o quarto e mantê-lo limpo e impecável? A esfinge de Monstro persiste.” (p. 197)





Trechos do conto Pássaros deliram, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Nenhum comentário: