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Olhos abertos no escuro - Play it again, Sam e Farfalla Solar - Trechos dos contos



Um pequenino exemplo da diferença no tratamento da opinião pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto do matador de aluguel Claudinho Tamagotchi.

A borboleta da carne e cor do sol é uma musa que flutua e embasbaca o pobre homem da carne e cor do sol.


“Ela nunca foi maníaca. Odiava parques. Um dia, o seu marido, tão belo, fogoso e atrevido, que não lhe era, comeu mais do que deveria — na avaliação do povo, nunca é demais a quantidade de traições que um marido pode acumular. Restou o facão. Ela retalhou, na sua cama de casal, o marido que traçava a cunhada, a sua irmã, Art. 121 do Código Penal, cadeia nela, a considerar o §1º. O problema é: criam-se ícones do pop, consumo de idiotias. Embolada de microfones e trancos, respondeu: ‘Lavei a minha honra’. (...) Houve uma bradação histérica coletiva, o povo xingando e odiando com ênfase e gula, efeitos da implacável agenda setting. E se a esposa que lavou a honra com sangue fosse branca? Seria habitualmente considerada doente, quem sabe até distorcida ao nível de uma impoluta senhora traída, oh, coitadinha, perdoem-na (...)” (p. 202)


“A borboleta da carne e cor do sol flutua, numa leveza minuciosa, bem próxima a mim. Discreta e decidida, ausente de dúvidas, contrariando a gravidade que nos reduz, ela é capaz de seguir pra onde quiser, num piscar de olhos, fluindo ao menu de um querer mágico só seu, soberana de si, encantadora e profundamente imortal ao fascínio que, definitivamente, gravara em mim — enquanto vida me houver, recordarei do deleite de contemplar o triunfo da beleza feminina da borboleta da carne e cor do sol.” (p. 208)


“Intuição. Primeiro, o sorriso, depois, as cores que ilustram cada espaço, formando a matéria tangível. Os olhos marejam, e ele, o sorriso, arrisca brotar o inevitável. Da face dos lábios da borboleta da carne e cor do sol, modela-se o enigma: ‘Qual de vocês é você?’ Sugiro o sentido ao que dele, o sorriso, intuo: ‘O que a casca comporta é o que se sustenta’. A torrente e o gozo. (...) O silêncio é meu por escancarada perturbação. Você não é muito mais do que já sei, moça. Mas eu quero. (...) Tento. Mesmo. Com a intuição do fracasso. Pois os olhos são rios. Eu sorrio. Ela também. Da face do seu mistério, desfaz-se o meu segredo: ‘Você me interessa’. O silêncio é seu por incontestável investigação da minha personalidade. Mesmo assim, eu arrisco: ‘Sou muito menos de tudo que você não sabe de mim’.” (p. 208 e 209)


“Um dia, a Farfalla Solar me revelou a oferta: ‘Meu impulso maior é doar-me ao amor. Acolha-me!’ Acolhi. E ela pariu a fuga, anos más tristes, outro dia: ‘Não!’ Disse-me assim, três palavras, um fim. Foi melhor? Sim. Outra dose de três palavras, a compreender o fim. Mas eu queria ter dito: ‘Sim!’ Não seria o mesmo que ter dito ‘Não!’? Não há como evitar o fim. Nunca — o futuro. Eu, dono deste bode, torcia para que ela voltasse, talvez milagrosamente resgatada, trancada numa manhã a reconstruir o coração de açúcar mascavo.” (p. 210)





Trechos dos contos Play it again, Sam e Farfalla Solar, presentes no livro Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016), de Emmanuel Mirdad,
que será lançado aqui.

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