domingo, 29 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Qualquer um - Trechos do conto



Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.


“Qualquer um entrou no apartamento, após um dia de trabalho estafante e repetitivo, sem acesso à rede por sugestão do analista. Mal fechou a porta, sacou o celular do bolso. Acessou o Facebook e se excitou ao ver o anúncio vermelho de oito notificações. (...) eram convites para festas a que nunca iria, nem que fossem da sua prima desafinada e insistente; para shows com atrações que nunca ouviu e desprezava antes de um play sequer; para lançamentos de livros que não valiam o investimento absurdo de vinte reais numa ruma de papel encadernada que desencadearia mofo e infestação de traças.” (p. 36)


“Qualquer um (...) aplicou-se no WhatsApp. Excitou-se: várias mensagens não lidas. (...) Leu, uma por uma, de todos os grupos, as individuais também, e todas estavam direcionadas a outros membros, ou eram piadas machistas, homofóbicas, racistas, memes babacas e tacanhos, vídeos de putaria, fofoca, intriga política, e dezenas e dezenas de flyers e convites para shows e lançamentos de discos e de livros, num âmbito em que todo mundo produz e ninguém é plateia, exceto por escambo. (...)” (p. 37)


“(...) Ninguém ligava para qualquer um. Ninguém pensava em qualquer um pra chamar pra sair, dar uma volta, comprar um sorvete, jogar conversa fora, ver a rua e as pessoas, sorrir, sentir a brisa, fumar um, tomar uma. Qualquer coisa serviria para qualquer um, desde que, à noite, ou no final de semana, qualquer um pudesse existir além da estafante e repetitiva rotina de sua mísera existência banal.” (p. 37)





Trechos do conto Qualquer um, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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