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Olhos abertos no escuro - Sereno aceitar - Trechos do conto



Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medíocre  embora que ambos sejam ordinários, ao fim.


“Metralharam alguém. Como é estranho o silêncio que rege o fluir da pólvora pelo ar! O espanto zelou os suspiros atônitos da vizinhança. Mesmo a sentir o receio basilar dos mais previdentes, a curiosidade faminta por tragédias o impeliu a sair para averiguar, típica imprudência dos que são condicionados pela mídia policialesca. Ele pensou: ‘Quem sabe não sobra uma ponta pra mim?’ Sempre sobra. O defunto, um desconhecido de uns trinta e poucos anos, perfurado com tirambaços na fuça, peito e barriga, portava sapatos luxuosos e vermelhos, dignos de Bento XVI. Enquanto as tripas e fluidos internos borbulhavam pelos buracos para fora do corpo, ele vislumbrou o solado, novinho, ainda com uma marca italiana aparente. Deduziu ser grã-fina. Na carteira da vítima, à mostra pela queda, havia muita grana. Não deve ter sido levada por causa da pressa do serviço. E, em vez de pegar a dinheirama, ele preferiu os sapatos. A bufunfa, os comparsas investigariam. O calçado, ninguém cobraria.” (p. 61 e 62)


“A fome roncou em chiliques. Ir até o último andar custou um suor extra, escadas acima, ofegante. Durou pouco. A alma caridosa foi ágil: sem muito perrengue, a Temerária deu-lhe algumas bananas amassadas e só. Solidariedade. Estômago tapado, boa noite, boa sorte. De volta ao apê, os pelos fartos do corpo fediam mais ainda. Teve que improvisar a higiene. De balde e cara de pau armada, foi até o único ponto de água, fora dos apartamentos, do surrado edifício. À vista do espaço comum, sem cerimônia alguma — e nada disposto a subir um lance de escada com o balde cheio —, lavou apenas as axilas e o rosto e o pescoço. Era o necessário para um homem solitário.” (p. 60 e 61)


“Quando o ônibus conseguiu atravessar a marcha do MST, o ar voltou a circular. As pessoas deixaram de suar e se acalmaram; logo estariam imersas na rotina mecânica de sempre. Esqueceriam os protestos e rompantes pelo sereno aceitar da normalidade, sobrevivência. Quanto mais quieto, menos perigo, mais vida. Assim, o mundo gira e a máquina continua a produzir. Nessa equação, uma incógnita se deturpou: ele.” (p. 64)


“Raras vezes se permitia algum lazer. Costumava não sorrir nem alimentar esperanças. Rabugento, sobrevivia, como todos, sem perspectiva, só ação, repetida e exaustiva. Porém, o acaso do assassinato e o inesperado surrupio dos sapatos distorceram o rumo da programação. O que era apenas um objeto de calçar — mais vistoso que outros, é claro, mas servia apenas para pisar, como todos —, foi remodelado num ícone em combustão. Subitamente, na inevitável virada da noite para o dia, um porteiro obeso e bigodudo, solitário e fedorento, inchou-se progressivamente com o vírus da ostentação burguesa. Portando o tal objeto caro, de valor, belo, enobreceu-se pela frágil e farsante via da autoproclamação, sem uma cifra a mais na carteira.” (p. 64)


“Em vez de ônibus, seguiu a pé, na dilaceração final dos tornozelos. A cada passada, um passeio. Exibido. E bem que tentou atravessar a cidade de vales e contrastes. Velho e gordo, foi forçado a parar. Precisou descansar, mesmo alucinado; o mundo real o estapeou. Como tinha pouco para se bastar, estagnou-se em silêncio por duas horas, numa praça confortável, recém-inaugurada. Tempo bastante para sonhar, contemplado. Tomou, bem devagar, umas três cervejinhas, saboreando a espuma quente pelo atraso do gole como se fosse vinho. Imaginou o que faria com o salário do novo emprego, fantasiando que era uma dinheirama. Equipado por sapatos vermelhos e importados — caríssimos, na sua dedução ingênua —, curtiu a possibilidade de ser milionário. (...)” (p. 68)





Trechos do conto Sereno aceitar, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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