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Olhos abertos no escuro - Vingança - Trechos do conto



O cadeirante espreita o gigante, munido de pólvora e chumbo, degustando pacientemente o prato cruel da vingança.


“O gigante está na minha frente. De cabeça em riste pra cima, paraliso o impulso e tento não compreender os olhos mais cândidos que o sol já ilustrou. Com a arma em mãos, aponta pra mim, um pouco afobado; nunca fez isso antes. Quer devolver o que não lhe pertence. Não movo uma pálpebra. Próximo, o serviçal se espanta, levanta-se — como se nada o estivesse aleijando — e pica a mula, não o fumo, veloz e satisfeito pela heroica sobrevivência de si mesmo. Em mim, a inércia, entediada, me exige alguma ação. Balbucio, apontando para o revólver: — É meu! (...) Ele me suspende do chão como se eu fosse um graveto. Sua mão é um alicate hidráulico, comprimindo a minha deficiência contra as leis da mecânica. O gigante me põe de pé, sustentando-me por baixo do sovaco esquerdo. E a candura se transforma numa indagação símia; estou brinquedo. Ele me devolve a arma. Encaro a besta ogro e sorrio. (...)” (p. 157 e 158)


“A maloca é mofada e quebradiça, mas é bem próxima ao cafofo do algoz. Por volta das seis, espio pela fresta e avisto uma sombra noir. Em contraluz, é ele que acorda e se arremessa à vida vazante; o som estapafúrdio dos latidos vira-latas confirma. Que comece mais uma andança! (...) Ordeno a minha camisa e a cadeira. Quero estar perto do epicentro, de qualquer jeito. Hoje, muito mais próximo. Esse brinquedo dos habitantes será meu também. A grande escultura dos seres não pensantes, que atira brutalmente a sua vida à parte dos julgamentos, esbagaçando as noções pré-concebidas do que é a liberdade do outro. Um poeta inato, montanha sem nome. E eu, prosseguindo atrás. Dessa vez, munido de pólvora e chumbo.” (p. 154)


“Será que ele viveria bem com ordens? Ou era, quem sabe, um 8 ou 80, como eu? Não. O gigante é direto, compacto e uníssono. Para o mundo, este sim, uma dubiedade impactante. O existir tão cândido atiça um misto de ódio e encantamento. Às vezes, dão-lhe pães. E, por vezes, tapas, paus e pedras. Ser imenso, troncho, feio e deveras desengonçado não amedronta o bairro. Ao contrário; acolheram o monstrengo a serviço de bater e assoprar, síndrome da animalesca infância tardia. O maldito homem não identificado, sem nome, desce a rua. São dois, na verdade. O que anda e o que segue. O gigante e eu.” (p. 153)


“Vaso’eu frágil. Preso em uma cadeira com rodas. Essa doença não preexistente, que os meus genes nunca predispuseram ou codificaram. Antes, era um homem único ser eu. Arrotava poder, sabia os métodos de machomer a mulher, era descolado e rico, ator de fama internacional, no auge. E, para atiçar a adoração, ficava nu, na praia, a ser fotografado, exposto e idolatrado. (...) Tudo o que eu preparava tinha aquilo de bonito e popular, o ego e o encanto: romances e aventuras, amores meus. Antes de tudo, sempre o eu soou. Desembestada hemorragia em prol de mim mesmo, a solidariedade única ao espelho. Até que o improvável e inconcebível aconteceu.” (p. 155)





Trechos do conto Vingança, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

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