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Trinta e nove passagens de Emmanuel Mirdad no livro de contos O grito do mar na noite

Emmanuel Mirdad - Foto: Léo Monteiro


“A senhora, séria, reconhece o apelido como se fosse de batismo; parece que o tapa-olho, preto como o de um pirata de fábula, a cara fechada, de raras expressões e nenhum sorriso e a perda de um olho de forma trágica rendem uma aura de valentia e o espaço suficiente para ser respeitada como uma sobrevivente, quiçá temida. Sapiência? Quase como um bluesman da Louisiana, a sanfoneira deixou o tom maior, infantil e inócuo, para emocionar melodias em tom menor, a cor e a textura do idioma do coração. Instrumentaliza um forró em ré menor, mas é um blues, um lamento, sertanejo, sincronicamente ligado aos cânticos do banzo, da melancolia dos escravos, de qualquer tempo, raça e sofrimento.”


“Carnaval de Salvador, Bahia, fevereiro de 2010. Fernando, carioca, estava de abadá, dentro do bloco, segmentado pelas cordas, atrás do trio, no asfalto da Avenida Oceânica. Carine, soteropolitana, estava de camisa colorida e salto alto, dentro de uma estrutura confortável, à frente da grade, rodeada por gente “diferenciada”, no alto do camarote. Quando ele a viu, sumiu dos amigos e das rodinhas de xibiatagem. Quando ela o viu, já tinha sumido do seu companheiro de enfeite e das amigas previsíveis. A ponte foi construída no exato instante em que ambos se entreolharam em magnetismo não-aleatório (...) Ele fixou o olhar. Ela desviou, mas voltou e desviou umas três vezes, até fixá-lo definitivamente. O tempo não parou, mas foi como se. E o sorriso veio cúmplice, só de boca, sem dentes. Ali e assim, compartilharam a longínqua possibilidade de um grande amor, de filhos, família, viagens e aquele maravilhoso pacote de felicidade a dois, que a comédia romântica já tanto explorou e delegou ao limbo dos clichês imperdoáveis (...) O bloco seguiu o caminho da massa, e Fernando foi junto, na confusão alegre da diversão escancarada, amparado nos abraços e garganteios dos amigos cariocas sarados a bater recordes de pegação. O camarote continuou onde fixamente se sustenta; Carine suspirou a inércia e se voltou ao mundo confortável e corretinho, sorrindo amarelo ao namorado Gusmão e dizendo amenidades às amigas, em tom anasalado.”


“Francesco não foi para o enterro de sua recém-amada. Ainda no Aeroporto Internacional de Guarulhos, no limite de 5h10 para fazer check-in, puxou a fita do disciplinador e saiu da fila apressado, carregando sua pequena mala de mão. De táxi, foi direto para a casa da ex, que, cúmplice, por amor, sumiu com ele serra abaixo, rumo a Ilhabela, SP. Conhecer a família da namorada falecida, de outro lugar, com outra cultura, reunida na dor, em pleno enterro, era uma fatalidade que Francesco não suportaria encarar. Fez o melhor para um covarde: o silêncio total, a ausência de quem não foi, de quem se compromete apenas “na saúde”; “na doença”, não estou aqui. E hoje, 8 de outubro de 2012, uma segunda, passou no mercado e comprou quatro garrafas de água mineral e um pacote de absorvente (...) Oitavo dia de outubro, à noite, a cidade de Chicago (EUA) começa a pegar fogo, o que veio a se tornar um incêndio de proporções catastróficas, que só foi completamente apagado na manhã do dia dez; quase 200 mil dólares de prejuízo, 100 mil pessoas ficaram desabrigadas e trezentas morreram. Cento e quinze anos depois, ocorreu um vazamento de cerca de 20 a 25 mil litros de água radioativa na Usina Angra I, no Rio de Janeiro, que pode ter exposto ao menos 50 mil pessoas à contaminação, evento até hoje não muito explicado ou repercutido, pois, como cantou Renato Russo, ‘deixa pra lá, a Angra é dos Reis’.”


“Um homem corre. Um bando corre atrás, com pedaços de pau, soqueiras, canivetes e rojões. A camisa dele é de cores frias, diferente das cores quentes da turba uniforme. Ele tem um nome: Carlito Alarcón. Tem um rosto, preferências, trabalho. Parentes, mulher, amigos, mãe. É moreno, um chapaco da cidade de Tarija, sul da Bolívia. A massa, não; é apenas impulso, vômito, ação assassina. Sem rosto, sem indivíduos, inimputável – relativa e absurdamente pode até ser considerada mais vítima que a vítima que está sendo caçada, caso a análise parta de algum fascinado que presuma a onipresença de um opressor hipotético: o sistema (...) Um homem e seu erro: desgarrou-se da sua turba para telefonar. Individualizou-se. Tornou-se um alvo e só pode correr, desesperado. Encurralou-se, por não conhecer a área dos até então adversários; agora, inimigos. Enquanto os times começavam o embate no primeiro tempo, dentro do estádio ali próximo, a surra foi visceral, num beco, longe da interferência da polícia. (...) Milagrosamente alguém, do alto de um prédio no fundo de um beco, se comove e decide agir: atira em direção à massa, para salvar o boliviano. Um covarde sem face cai morto. Vítima? (...) Carlito agoniza, mas está vivo e salvo da humilhação final, graças ao desconhecido, que se tornou o seu herói. Um herói que mata. É herói quem mata? (...) A polícia, montada, chega no momento em que ninguém mais necessita, exceto o fotógrafo do jornal.”


“O pequenino tem os cabelos ralados pela quimioterapia agressiva, e a cabecinha começa a doer muito na escada rolante de um shopping. Chora silenciosamente, sente a dor aguda, mas as lágrimas, quando escorrem, costumam agredir a quase microscópica e incipiente paciência do intolerante. A babá vocifera cuidadosamente ao ouvido do pequenino, com os maquiavélicos bons modos de quem não desperta a curiosa atenção alheia: – Se você chorar, te levo ali na farmácia pra tomar injeção. Não chore! Quer tomar injeção?!”


“Dois amigos velhos e viúvos passeiam na rede mundial, cada qual com o avatar que menos se associa à carne que naturalmente os comporta, deteriorados pelo tempo. O interregno é breve, via gtalk (...) – Não há o que fazer. O que faço, então? (...) – Respire (...) – Tomei metade. Preciso da outra metade. Eu sou um covarde corajoso. Ou um corajoso covarde? (...) – Não faça (...) O que tomou os comprimidos minimiza a tela, para buscar a música My way, na voz de A Voz. O software é novo, não consegue encontrar. Mesmo com a demora, continua o silêncio. Maximiza: – Não há nada além de mim aqui. Estou só, e mal acompanhado de mim mesmo (...) – Faça (...) – É impossível”


“Futebol, buceta e cerveja. Apenas três assuntos na conversa e em poucos segundos os homens são iguais, melhores amigos há décadas, inseparáveis. Na convivência da academia, falar da bola seduz, atrai, induz o outro a comentar, a dividir suas opiniões e explorar o humor, a provocação sadia, moleque, que ambienta a fraternidade inicial entre homens. Para se afirmar num grupo, a buceta é necessária: é preciso ejacular em algo com peitos e vida, de preferência da espécie humana, e mais que ejacular, é preciso comentar, detalhar as façanhas secretamente manipuladas ou mentirosas, o uso da buceta como troféu, posse, título que diferencia o garganteador dos outros machos não tão comedores assim (mesmo que na prática todos não passem de meros expulsórios de esperma), sedimentando a intimidade entre os homens; recupera-se assim a contabilidade das traquinagens que tanto serviu para consumir o tempo na infância, que nunca termina. E, numa vida superficial e retilínea, imune à trágica consciência de que há diversos conflitos complexos na existência humana, a cerveja é a única sinuosidade dentro do óbvio, o alívio da rota mecânica dos dias. Todos bebem, vibram e se tornam felizes, permitindo a abstração (...) Homem é quase tudo igual: quer estar entre outros homens, ejacular e contar vantagem quantificada e não qualificada, e encher a cara até o fim. Eu não. Gosto de comprar bonecas, de preferência Barbie, nas Lojas Americanas espalhadas pela cidade.”


“O velho tava sossegado. A filha pediu: ‘É tipo endoscopia, não posso ir sozinha, e ele não pode ir’. O marido, sempre imprestável, desses que remexem suas coisas porque você mora de favor na casa dele, arrumou um serviço de ontem pra hoje. E saiu antes do pão ficar pronto; da torradeira para o lixo – ninguém mais lidava com o glúten. O pai velho respondeu que sim, antes que a filha terminasse o pedido, desses que te amam com a disposição imediata, independente, sem custo, critério, condição.”


“Monique não era virgem. Teve alguns namoros, de curta duração, até quando estourava o saco de transar por ficção – às vezes nem isso. O melhor namorado dessa época foi um gay não assumido que também precisava do disfarce, embora não soubesse – nunca soube – da real situação da assexuada; achava que era frígida e só. Engano. Monique não era frígida. Para ser, é preciso querer sentir, mas não sente e até cansa de tentar, negando o ato sexual. Mas teve vontade. E muitas vezes continua, amortecida, a frustração. Latente. A frígida é sempre uma mulher que quis ou quer sentir prazer, mas não consegue. A assexuada é diferente; nunca sentirá prazer, porque não quer, não se interessa por sexo, não tem necessidade (...) Três meses, e ele conseguiu o que ninguém tinha feito em mais de vinte anos de falsa vida relacional. De repente, pimba! Monique ficou propensa ao amor, despertar tardio (...) Três meses após o cineminha, e o primeiro beijo, o primeiro e inesquecível ‘eu te amo’, dito de sua própria vontade – tudo bem que foi um ‘eu também’, mas está implícito! Pronto! (...) O assexuado é um ser que pode amar sim, que vibra, se apaixona e quer o bem do ser amado, e quer e dá carinho, se diverte, sintoniza-se, gruda em chamego e apertos, mas só não tem nenhum interesse em trepar (...) Como assim? É possível amar sem transar?”


“Domingo de Carnaval, único dia saindo em bloco, PH se perdeu dos sócios. Sozinho, preferiu ‘casar’ com alguma gatinha. Sintonizou com uma linda negra, elegante e esguia, pescoço nobre, tal qual uma rainha. Carioca, usava umas tranças coloridas e tinha um sorriso do tamanho do mundo (...) Casaram pelo trecho final do bloco, com muita dança, pulos, alegria, e PH de rei, com sua rainha e as princesas do Rio, todas babando com seu jeito engraçado, solto, feliz. Maravilha! (...) A segunda-feira de Carnaval passou, e o camarote foi um tédio. Os sócios reclamaram, e quando a gauchada voltou pra mais uma orgia, PH preferiu dormir trancado no quarto menor do apê. Macambúzio, adolescente tardio e apaixonado, orou diante do espelho: ‘Quero reencontrá-la, me ajuda, Senhor!’ (...) No dia seguinte, último do Carnaval, o acerto era curtir na pipoca. Os dois sócios estavam pendurados na corda de um bloco elitista pra pescar gatinhas ricas, mas só vinha tribufu se oferecer aos pipoqueiros. PH olhava perdido pra dentro do bloco, na esperança de encontrar sua bela imperial. E não é que o Senhor ouviu suas preces? Ele foi visto por uma das amigas cariocas, a mais gordinha, que celebrou o encontro com euforia e foi buscar a tão querida e desejada carioca. Lá no meio do bloco, as outras amigas ficaram emocionadas, pulando e apontando para onde estava o apaixonado da vez. Quando a gata imperial avistou de longe PH na pipoca, deu um tchauzinho e só. Ele se enfureceu, não entendendo porque ela não veio até a corda. Nem as amigas, que logo fecharam a cara ou se espalharam, fingindo pular e curtir o mais do mesmo da música eletrizada. Do amor ao ódio em segundos, PH revoltou-se e quase invadiu o bloco; foi contido pelos cordeiros. Berrava e balançava com força sua camisa regata: – É só de abadá, é?! É?! (...) A gata respondeu com um sorrisinho desdenhoso, à Mona Lisa, emoldurado com seus lábios do tamanho do mundo: – É. (...) #receba”


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite - Foto: Yomã Ferreira Mattiello 


“Aproveitando o descanso das horas “túmulo-sofá” do marido de férias em casa, a esposa se trancou no quarto do casal. Quatro mensagens de número desconhecido no celular e uma da filha única, Carine, que voltara do Rio, curada de uma ressaca de fim de namoro. Ansiosa, telefonou para o número estrategicamente não reconhecido pela agenda (...) – Venha. A gente se encontra no estacionamento do Bompreço. Seja rápido, porque só temos duas horas e eu ainda tenho que comprar coentro.”


“Ducentésimo septuagésimo sexto dia do ano no calendário gregoriano (no caso de anos bissextos), restando três meses para terminar o ciclo (sem ser bissexto), 2 de outubro, desde 2007, é o Dia Internacional da Não-Violência, instituído pela ONU em homenagem ao pacifista mais reconhecido do mundo, o indiano Mahatma Gandhi, nascido nesse dia em 1869. Quinze anos antes dessa nomeação, o segundo dia do mês de outubro foi marcante para a história da violência no Brasil, pela eclosão de um massacre terrível: pela tarde, após uma desastrosa operação policial, 111 detentos foram assassinados no Pavilhão 9 da penitenciária do Carandiru, em São Paulo (no noticiário do horário nobre, o destaque foi para a posse interina de Itamar Franco, após o Senado afastar por 180 dias o então Presidente Fernando Collor, que afirmou ser “vítima de um massacre jamais visto na República”) (...) Dois de outubro de 2012, seis horas e quarenta e três minutos da manhã, terça-feira. Na academia, Fábio termina sua sessão de esteira e, gotejando de suor, se apoia no bebedor para aplacar o cansaço antes de tomar água. Theo oferece, com a garrafa na mão: – Tome essa água não, beba essa aqui (...) – Que nada, valeu, man, vou beber dessa mermo (...) O suor continua pingando sobre o bebedor, mais ainda quando Fábio se inclina pra absorver o esguicho fraquinho da máquina, quase beirando o bico com sua boca (...) – Sabe, Fabão, se eu pudesse voltar atrás, mudaria muita coisa que fiz (...) Um silêncio breve, repressor, até Fábio conseguir engolir o tanto de água que pôs na boca. Retrucou, mais uma vez: – Grande merda! Você ia mudar essas coisas aí, mas, mesmo fazendo outras coisas, continuaria falando essa mesma besteira, de novo.”


“Quase sempre abria o fole da sanfona com o sol. Talvez fosse uma mania, ou um gesto ingênuo – o breve escape, munido da delicadeza, a afrontar as asperezas da rua. Que fosse. Para Lourdes, a junção das notas sol, si e ré no acorde de sol maior representava a luz do teu sertão, lá no povoado de Caboclo, em Afrânio, extremo oeste de Pernambuco, divisa com o Piauí. Nordeste brasileiro, onde o pássaro assum preto, se estiver cego, canta de dor. Aquele pássaro preto, de tantos outros nomes, como graúna, arranca-milho ou chupão, o gnorimopsar chopi – o tio Chico, certa feita, chegou da estrada com um monte preso, de vez. Chamou a menina para lhe dar o melhor. Feliz, numa brincadeira de quintal com os primos, campou-se no espinho da cerca de quiabento: ela perdeu a vista de um olho, sem volta. Sem ver a luz pelo direito, Lourdes ficou macambúzia, mas não chorou pelo esquerdo. Na flor dos seus dez anos, com uma boniteza que chegava doer, surpreendeu a todos: ‘Só tein um agora; se chorá, pode estragá o ôto. Deus é mais!’”


“Dentro do carro, a sensação entre os três assassinos era de dever cumprido. Chacotas. O celular passou de mão em mão. Miseravelmente um deles apagou uma por uma as fotos da viagem que a gordinha fizera com a namorada para o litoral, como se pudesse excluir da existência a opção que tanto odiava. Como se fosse possível, apenas com o seu grave distúrbio mental e atitudes criminosas passíveis de punição, exterminar bilhões de seres humanos.”


“O velho parou de ouvir. Deixou a assistente social, amparada pelo segurança desnecessário, falando sozinha e saiu sem rumo do hospital, sem fome, sem sede, sem a dignidade que possuía horas atrás, numa manhã que começou normal, como todas as outras nesses quase oitenta anos. Teve medo. Na carteira, documentos, pouco dinheiro, cartão do banco. Todos os irmãos e amigos mais próximos mortos – costuma contar vantagem que é o último, o sobrevivente. A sobrinhada e seus descendentes se disseminaram pelo norte, e nunca mais teve notícias ou uma mísera ligação. Por insistência do neto, embora a mulher dele não permitisse acolhê-lo, deixou o interior. A filha pareceu não se importar; sempre foi carrancuda, de mal com o simples, o comum. O normal é estar de mal com algo.”


“O menino estalou sua pequena coluna em formação e se cansou de ficar sentado em frente a centenas de amiguinhos virtuais. Apagou o monitor e ricocheteou pela casa, sem encontrar nada que pudesse aplacar a tão bem firmada ansiedade pós-moderna de agora. O tédio veio forte, e ele se atirou no sofá, folheando o porta-retratos digital de mais de mil fotos. Passando a esmo, sem passar o tempo, parou numa. Era o pai, com sua idade, rodeado de uma muvuca de moleques descalços e lotados de barro, unidos e sorridentes do baba recém-batido (...) – Que tosco! – riu. (...) Pela janela dos fundos, avistou a grande área verde que diferenciava o condomínio dos demais. Deserta, como sempre. Pensou em descer e só passear, para passar o tempo. Só pensou e rapidamente voltou a atenção para outra coisa. No quarto, de novo, acendeu o monitor (...) – :( ”


“Desconcentrada, parou. Foi longe, lá na adolescência. Quando as amigas despertaram para o sexo, ela não. Ouviu de uma coleguinha sardenta, que parecia o Dennis, o pimentinha, que a mão na xoxota dava maior onda – mais gostoso que chocolate, pode? Pois tocou a sua até doer e nada sentiu. Tentou muitas vezes. Por dias. Nada. Desistiu. Pediu ajuda até para a coleguinha, que fez com gosto e curtiu só, descendo na onda até a praia. Monique, nada. E, no círculo das confidências, ao se entregar revelando que não sentia nada, virou piada, esculhambação perigosa. Conseguiu reverter a situação, alegando que era uma brincadeira – a sardenta se mudou semanas depois, por sorte –, e nunca mais parou de mentir. Aparentar ser normal passou a ser uma obsessão, psicótica, mantida a qualquer custo. Tentar se compreender e se respeitar nem foi cogitado; é preciso o padrão avassalador da invisibilidade do ser comum.”


“A dor era tão forte, que o pequenino nem conseguia gemer, só escorrer lágrimas e contrações no rosto, e a mãozinha esquerda roçando o cocuruto ralo de fios como numa prece pelo fim da dor aguda, certeira e impiedosa. E, ao ouvir a palavra injeção, o terror disparou a mãozinha a enxugar freneticamente as lágrimas, o que só fazia jorrar mais e mais. Dessa vez, a sutileza deu lugar a um tranco, sacudido: – Você tá teimando, é? Vai agora mesmo tomar injeção! Vai parar ou não?!”


“Pedro Henrique encerrou sua conta no Facebook. Soube que a sua ex tinha ficado noiva, foi fuçar a página dela e encontrou as fotos do noivado, todas devidamente publicadas em um álbum de livre acesso no seu perfil, tiradas em Bali, Indonésia, em mais uma viagem pelas praias paradisíacas do mundo, acompanhada pelo engenheiro bonitão e rico. Pra arrematar o alvoroço adolescente do ‘facecídio’ de PH, a gata paranaense, sua ex-estagiária e ex-paquera, atualizou seu status de relacionamento; passou de solteira para mulher do chefe (...) Não se deve brincar com o ressentimento da mulher. Bastaram poucos dias no cargo de primeira dama do maior escritório de advocacia do Estado, e PH passou a ser perseguido pelo chefe, escanteado até pelo Amaro, maltratado pelos clientes e descartado das principais reuniões. Ainda lascado psicologicamente pela ex, perdeu feio em dois processos importantes do escritório e foi demitido.”


“De volta da balada frustrada, dessa que só rende a cruel e explícita evidência do buraco da ausência de si mesmo, que nada ou ninguém tapa, o fortão fez o possante andar bem devagar. E, ao invés de virar para a sua rua, no hábito de cantar pneu e assustar as saudosas velhinhas do bairro, Bodão reduziu a marcha, pisou no freio, fez a curva e parou. Um tronco obstruía a passagem. Um tronco que não estava caído na rua e, de pé na calçada da esquina, cantou: – E aí, bonitão, tudo bem? (...) O travesti é quase da mesma altura de Bodão, um tronco de suposta mulher. A diferença é que tem cintura, bunda saliente e coxas torneadas, silicone pra mais de 300ml. Quando aqueles peitos enormes pularam pra dentro do possante, e a boca carnuda, especialista em boquete supremo, ficou bem perto da sua, Bodão tomou uma futucada do macho alfa interior e, brusco, retrucou: – Sai daí, desgraça, se pique! – arrancou o carro violentamente, quase despencando o tronco no chão. Detalhe: de pau duro.”


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


“Cinco de outubro, 87 dias para acabar o ano, 1988. É promulgada a nova Constituição Brasileira, concluindo-se de fato a transição entre a Ditadura e a democracia, após 21 anos de regime militar. Noventa e um anos antes, na Bahia, é o fim de Canudos; a resistência sertaneja cai, e o arraial é destruído, num massacre descomunal, assim avalizado pelo primeiro político civil a ser eleito Presidente da República de forma direta, o advogado paulista Prudente de Moraes: ‘Em Canudos não ficará pedra sobre pedra, para que não mais se possa reproduzir aquela cidadela maldita’. Na França de 1789, por pressão popular e da Assembleia Nacional, o rei Luís XVI ratifica a Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen [Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão], que, num trecho célebre do Artigo 1º, reza: ‘Os homens nascem e são livres e iguais em direitos’. Teoricamente (...) Cinco de outubro de 2012, 11 horas em ponto. Entretido pelo ócio das sextas-feiras, Theo está no Facebook. Acaba de fazer uma postagem contra a patrulha do politicamente correto e está orgulhoso pela rápida quantidade de ‘curtições’, todas feitas por mulheres que o paqueram via inbox. Fábio curtiu também, e comentou: ‘Gênio’. O narrador de histórias até estava on-line, viu a postagem compartilhada por uma de suas paqueras baianas e também curtiu, mas sem gerar estatística – vulgo ‘não apertou o botão pra informar que curtiu’ –, ainda mais por ser declaradamente eleitor de partidos nanicos, politicamente corretos.”


“A fama da sanfoneira caolha correu o Nordeste profundo, no começo dos anos 1970. Tocava bem demais a moça. ‘Ô, sanfona arretada, sinhô!’ À parte dos empresários, que não quiseram investir numa estética troncha para a época – mulher com tapa-olho era vista como feiticeira, gente ruim, de mau agouro –, das rádios e dos grandes circuitos e festas, Lourdes fez muito show em tudo que é bodega, pardieiro mequetrefe, cafundó após cafundó, vida circense, rodando num pequeno caminhão pau de arara, com um agente xibungo, improvisado: seu tio Chico (...) Completando a equipe da turnê, um zabumbeiro esquálido e um triangueiro capenga. Uma caolha, um faquir e um cotó. Praticamente um circo dos horrores. Mas quando a bela cabocla abria o fole...”


“A senhora se ajeitou para descer num ponto e recebeu um pisão no dedo, acidental. Esquentada, esbravejou vários palavrões antes de olhar a cara do algoz. Quando viu que era um homem com feição e forma do clichê de um nordestino – cabeça grande e chata, pequeno, atarracado –, descarregou toda a sua frustração acumulada pela perda de poder num repertório bizarro de frases feitas, elitistas (...) E ela bateu todos os recordes de acúmulo de culpabilidades por segundo, enumerando uma porrada de misérias humanas na conta do êxodo, enquanto fazia seu lento percurso do ônibus para a rua. O homem, que era mesmo nordestino – de Catolé do Rocha, na Paraíba –, surpreendeu a todos, inclusive o motorista, filho de maranhenses, com a sua elegante calma; não revidou nem disse uma só palavra, escutando todas as bravatas em completo silêncio, inexpressivo. O seu carro estava na oficina, e a bela morena suburbana, com quem ia se encontrar logo mais, não pode esperar até terça-feira, intimando-o. Sereno. O único gesto foi coçar a ponta da pistola em sua cintura, só isso. Por um breve assovio na mente, pensou em matar. Ou prender. Preferiu o anonimato e aturou; tinha método: antes de cumprir um mandato, era preciso ter paciência”


“Ela acendeu um baseado e prendeu os longos cabelos pela última vez; não havia ninguém para decifrar os sussurros que sempre escapavam. Da sala, ouvia o CD promocional de uma banda de reggae hypada, mas já estava cheia de soldados norte-americanos. Tinha coragem e muito cabelo, mas nunca foi rasta por lhe faltar fé (...) Terminou o baseado muito lentamente, acendendo-o diversas vezes, sempre com aquele movimento sinuoso que era só seu. De tacar fogo sabia, desde pequena, a queimar pontas dos cabelos das outras gurias. E ficava olhando a chama fixamente, bailando suas pupilas no inferno paralelo que tanto lhe sugeria a salvação (...) Tacou no próprio. Tacava e apagava, pelas pontinhas. E não se incomodou com o fedor de palha queimada; subiu mais rápido que a prudência e virou imolação. Girou as chamas como uma mula sem cabeça à frente do espelho e finalmente berrou a dor que vinha de dentro. Tacou a cabeça com tudo na privada. E, cravejada de tufos chamuscados, foi para a tesoura e gilete. Rapou, cada pedacinho, tirando umas lascas do cocuruto (...) Ficou uma linda Joãozinho. Asseada depois pelo iodado, preparou e acendeu um novo baseado, sozinha, na sala. Pensou nos irmãos; era Natal, e estavam todos no norte.”


“Pois não há parafilia comparável, nem distorção e desvio de conduta mais agressivos, do que um ser se afirmar perante a sociedade como assexuado. É imediatamente censurado com o maior escárnio possível, tachado de um ser improvável, alienígena, desprovido de sentimentos, gana, paixão e atitudes nobres relacionadas à emoção (...) É impossível estabelecer relações e vivenciar o amor sem sexo? Talvez sim, caso o outro também seja assexuado – mas como encontrá-los, se o mais fácil é esconder e aplicar uma vida virtual, como muitos experimentam nos meios digitais? Mas há opções, como relações sexuais consentidas com profissionais, para suprir a necessidade do parceiro sexuado, entre outras possibilidades. Pelo amor, adapta-se a tudo?”


“Trinta de setembro de 2012, 10 horas e vinte e um minutos, domingo de sol forte em Salvador, Bahia. Theo está numa barraca da Praia do Flamengo, bebericando, de fossa. Na cadeira ao lado, Fábio, seu melhor amigo, tosta ao sol e tenta enxergar o visor do celular. Theo, vestido com uma sunga branca, reclama: – Quem eu quero me diz que me quer também, mas que não pode continuar comigo (...) – Muito coerente! – Fábio retruca rápido, após curtir uma foto de uma saradona midiática indicando onde comprar produtos orgânicos (...) – Como assim? (...) – Manter-se safo da tragédia de uma paixão e confortavelmente protegido no padrão do estar por conveniência. Coerente, man! O processo de correção do amor está entranhado na nossa convivência de descartabilidades frequentes. O que queremos é novidade, outra e outra e outra, e que seja estéril, higiênica e com prazo de validade explícito.”


“Uma vez por mês, uma violonista, já senhora, ia tocar para os velhinhos de um asilo privado. Não tinha objeção em tocar para os mais ricos; é mais comum encontrar rancor, traumas e tendências suicidas na riqueza. O abandono de quem teve ou ainda tem muitas posses costuma ser empreendido na ausência quase completa de amor – muitas vezes, um reflexo do que o velho rico praticou em sua vida estritamente dedicada ao trabalho, ao acúmulo de bens, ou à futilidade, distorcendo os vínculos com os filhos e netos a meras relações de consumo. A senhora também tocava no asilo público e servia a todos com igual entusiasmo. Era a sua terapia. Um fazer o bem por outro. Afeta-se que isso é incondicional, mas nunca o é.”


“Pedro Henrique namorou uma moça bonita, doze anos mais nova que ele. No começo, ostentou a silhueta de carne dura e boca fechada da beldade, mas ela se cansou rapidamente da atuação em segundo plano e assumiu o controle, isolando PH dos amigos, recorrendo à birra insofismável. A inversão do domínio estreou na crueldade: o namorado teve de acompanhá-la a uma badalada festa – ou micareta – de verão em outro Estado, no raçudo esquema bate-e-volta em ônibus de excursão. Seis horas de viagem boiando em cachaça e esculhambação, todos enchendo a cara e paquerando adoidado, exceto o único casal no microespaço: Pedro Henrique e a sua dona encrenca. Três horas de festa – ou micareta – gastas apenas na função de pitbull-segurança, cravado num abraço por trás em sua namorada para que nenhum playboy pudesse sequer passar o dedo. Duas horas de mofo aguardando os quarenta e dois bêbados e bebaças aparecerem no local combinado pela excursão. Seis horas de estrada na madrugada, de volta ao Estado de todos os santos, motorista sem dormir, porque foi visitar a família durante a festa – ou micareta –, único ônibus na estrada insegura, banquete de vômitos e mijo batizando os pés. O irremediável não aconteceu, mas PH não encontrou seu carro no maldito ponto de desembarque, porque foi alterado de última hora sem qualquer explicação. Não havia responsáveis pela excursão, nem táxi por perto, mais celular descarregado e namorada de porre a base de cravinho e enjoo de sono. Teve de aceitar carona do pai bebum da amiga bebum de sua gatinha, que coincidentemente era o seu cliente mais insuportável, pior ainda de pileque de final de domingo. Sua namorada não sabia o motivo, mas PH parou de beber por recomendação médica e preferiu continuar sem mencionar o assunto, mal resolvido.”


“Foi a primeira vez que Gusmão se apaixonou. Ela era explicitamente uma piriguete, mignon, siliconada, toda carne pra fora de um vestido curtíssimo em fiapos, fervendo com as amigas no Twist Pub, no Rio Vermelho. E ele fixou a voz suave, sem vícios e sussurrada; o sorriso simétrico, alvo e frágil; o olhar limpo, ingênuo e quase infantil. Foi a primeira vez que um homem a olhou assim. Chocou-se, desnudada pela possibilidade de ser uma pessoa e não um corpo. Ela lhe deu com naturalidade seu número de celular, após beijos quimicamente atiçados, e a primeira saída foi um passeio dominical de cinema e sorveteria. Michelle quis uma bola de sorvete de cajá no copinho e quase chorou, boba, ao deleitar-se com o inédito primeiro homem que trocou a sua bunda magnífica pela cara típica de uma baiana comum, redonda.”


“O fortão olhava aquelas lindas mulheres com a desolação de quem já provou tanto o seu desempenho excepcional e agora todas parecem iguais, inatingíveis e cansativas. Ao ter brochado em sequência, sem uma explicação à mão (...) acabou transtornado, transformando o que antes eram apenas bucetas – para meter – em mulheres com enigmas e quereres mesquinhos, capazes de machucá-lo impiedosamente, de empenarem seu pau ao tamanho de um verme microscópico, sina de Adônis do Louvre. Ora, pois, estar brocha feito um inútil tascou-lhe na cabeça a maçã do Gênesis, que, mordida com casca e tudo, baniu o Bodão do paraíso, axioma da pura ‘metelança’ que era a sua vida até então, para o dogma do ‘inferno é aqui’, complexo, repleto de variáveis cancerígenas e canibais, que, para um homem padrão, raso, superficial e malhado, aterroriza como se você fosse largado no centro de uma metrópole chinesa, recém-cego-surdo-mudo, quase tetraplégico.”


Exemplares de O grito do mar na noite no dia do lançamento - Foto: Yomã Ferreira Mattiello


“Uma noite, quando se arrumava para sair de Lajes, no Rio Grande do Norte, Lourdes ganhou um beijo que custou a sua virgindade, de boca. Bené, um marceneiro galanteador, bonito e forte, parou de dançar ainda na primeira música e ficou a cobiçar a cabocla formosa, de um olho só, o show inteiro. Bom de conversa e bem arrumado, ganhou o tio Chico num papo de parente de coronel, duas cervejas pro esquálido, que pagava de xereta, até se achegar na sanfoneira, ressabiada; o capenga, que jamais tinha voz, não incomodava. Divertiu-a muito, boas risadas, tirou do chão a vergonha da moça em olhar diretamente para um moço, ainda mais um charmoso que não ligava para a sua deficiência. Antes do pequeno caminhão partir, Bené segurou a mão de Lourdes, tirou o tapa-olho com a outra, e delicadamente beijou o olho direito, cego e fechado, demorando-se no carinho, um pouco. Ela abriu os dois olhos, um da cor de mel, outro da cor de nuvem, e abriu as pernas de seus lábios, pedindo. Ele a beijou. O romance aconteceu.”


“Suíte com mezanino, odor acre de desinfetante chinfrim, preliminares extensas, dedicação minuciosa. Ele a desnudou feito um colecionador de pedaços femininos; para cada parte, um beijo, uma carícia, uma lambida, uma dedicação exclusiva. E ela, tal qual uma lagartixa morta, ficou inerte. Há anos que não praticava a farsa das reboladas, caras e bocas. Esqueceu tudo, eficientemente. E bateu um nervoso extremo, de não poder satisfazer o seu amante, que, somado à natural vergonha do nu pela primeira vez – momento crucial em que o amor já estabelecido acolhe as imperfeições com ternura e aceita o corpo do outro como seu lar e parque de diversões –, travou-a por completo. Simbolicamente mais dura que ele, em silêncio, imóvel e seca. Ele, que começou como um bom amante, foi se reduzindo aos poucos e deixou que a realidade do macho acuado aflorasse, enfiando-se à força na amada – coisas de menino mimado e criado por mãe machista. Afobado, estocou forte, menos de cinco vezes. Gozou sozinho, frouxo, covarde. Eis que o tal especialista dedicado ficou nu: era nada mais que um pixote ejaculador. Mais um homem, com sua desgraça tão comum.”


“Quando se chega aqui, restam 91 dias para o ano acabar, mas ninguém se dá conta disso (nem é preciso, o irremediável segue além de números e símbolos). Quarenta e um anos separam o lançamento do Ford T, o primeiro carro a ser fabricado em série com o intento de torná-lo popular e acessível, pelo norte-americano Henry Ford, e a proclamação da República Popular da China em Pequim, pelo chinês Mao Tse-Tung, então líder do Partido Comunista, fatos ironicamente ocorridos em 1º de outubro (...) Às dez da noite, Liz paga a conta, presente de aniversário para Francesco, seu novo namorado. O primeiro dia do mês de outubro não terminou após o maravilhoso jantar romântico, cantina tradicional de São Paulo, elegante. Mais tarde, o aniversariante convida o narrador de histórias para um ménage à trois.”


“Orgia chique (...) alguns ricos, bem inseridos e farristas da elite baiana que se encontravam de quando em quando, para algum deles pagar a noitada, sempre com lotação bem restrita, com as melhores profissionais de luxo da cidade, até de outros Estados. Tudo para ostentar (...) Mesmo com a orgia disseminada nos cômodos e salas, o sexo era comportado, meio higiênico, sem histeria, com um som jazz fusion pop lounge house merda de elevador rolando ao longe (...) Bodão ficou no canto. Pegou uma Heineken, bebericou aos poucos, naqueles longos goles da frustração. Pica a valer não o apetecia mais. A impotência o estragara de vez. Mesmo com toda a sua ignorância e seu mau gosto, talvez não fosse um putão. Talvez só tivesse comido todas essas mulheres por hábito e ostentação. Talvez fosse um romântico de família, esse tipo de homem frouxo propenso à cornitude, masoquista não-assumido, fadado a amar a puta e se divorciar da mulher honrada – como se atualmente ainda existisse tal distinção. Mais ainda: talvez fosse gay. E ali, naquele paraíso da sacanagem, estava tão ausente e arrasado, que se tornou invisível.”


“Possesso com a confusão, o âncora correu atrás, atirando contra o seu próprio carro. No cruzamento, uma viatura deixou o importado passar e fechou pra cima do atirador maluco. Por um acaso da sorte, o jornalista não levou bala de um dos policiais; a arma falhou, talvez por causa da chuva. Por ser negro e estar armado (em muitos casos, nem isso), é como se todos os seus direitos humanos fossem sumariamente cassados e ele pudesse ser imediatamente abatido – as estatísticas da violência expõem claramente a diferença de tratamento entre um branco, antecipadamente inocente, e um negro, imediatamente culpado. Foi algemado com força e enfiado no camburão, tomando vários tapas de ‘Cala boca, marginal!’, enquanto tentava se explicar quem era e que era famoso.”


“Vez ou outra, a pernambucana toca sanfona na principal praça de Canela. Não porque anseia público, mas sim pela admiração ao templo de Nossa Senhora de Lourdes. Católica por origem, deixou de ser praticante desde que enfrentou o infortúnio definidor de suas chagas vitalícias. Por isso não entra. E não rende conversa às cobranças eventuais da comunidade; sua eficiente cara fechada impõe respeito, até da guarda. Em dia de folga da lojinha, ajeita-se num dos bancos da praça e toca pela manhã inteira; nas pausas, espia a belíssima Catedral de Pedra, e os pensamentos a conduzem para longe, a recordar mais da metade da vida passada no calor, e a outra restante pousada no frio, astronauta desse destino torto que é a sincronia – compreensível apenas na linguagem do inefável.”


“Sete de outubro é o 280º dia do ano no calendário gregoriano (...) Cento e quinze anos antes, a escravidão é abolida em Cuba, penúltima nação ocidental a erradicá-la (a última foi o Brasil), no mesmo dia em que Pio II, intelectual e escritor, 210º papa, quatrocentos e vinte e quatro anos antes deste importante ato cubano, condenou a escravidão, denunciando-a como um magnum scelus [grande crime], ordenando aos bispos que proferissem censuras eclesiásticas àqueles que praticassem tal crime (...) Vinte e três anos de idade separam o bispo sul-africano Desmond Tutu do ex-ministro brasileiro Joaquim Barbosa, librianos de 7 de outubro, tal qual o militar alemão Heinrich Himmler, comandante da SS e um dos principais homens de Hitler, e o estadista russo Vladimir Putin (...) O narrador de histórias tinha encontrado o seu grande amigo baiano: o autor. Início da noite, em um café na Avenida Manoel Dias da Silva, ele foi contar as novidades do contrato assinado ontem com a editora e prosear sobre mulheres, literatura e política. Acabou cantando parabéns improvisado, acompanhado por garçons solidários por uma gorjeta.”


“O elevador fica parado, e o travesti nada fala, nem se movimenta, estudando se não seria um esparro estar ali. Confiava na gilete, dos tempos em que trabalhava no centro da cidade; era rápido no manuseio de facas, sempre afiadas, bom de tirar secreções de objetos pontiagudos, fálicos. Não era o caso agora. Talvez fosse apenas timidez (...) A morena dá uma chance, fungando mais forte, remexendo bem sutil o decote apertado, quase saltando à gula. O instinto responde, e Bodão levanta os olhos (...) Cobiça. O membro estala quase pra fora da calça. Desliga as noias. É a vez do fortão rosnar, o sangue vindo aos litros, em ondas, percorrendo o corpo sólido, as informações da potência de outrora distribuídas por cada músculo, Ares retomando o controle, banindo o Hades (...) Dentro do elevador, Bodão lasca um beijaço no travesti, que não o reprime, mesmo estando fora do “contrato”; curte a sensação lúdica do primeiro beijo gay de um heterossexual, ou do primeiro momento de saída do armário de um belo homem.”


“O escritório da LPZVK & Motta Andrade Martins Associados passou por uma reforma recentemente. Contrariando a sina comum na cidade, ficou um serviço bem feito, justo ao preço pago. Com menos paredes e divisórias, arquivos e salas fechadas, inaugurou a modernidade do ‘parece um galpão’ em seu amplo espaço, clean, asseado, branco e envidraçado. Mas, hoje, contrariando a lógica do trabalho, estava quase vazio; era mais um dos feriados não oficiais, legítimo, de acordo com as tradições baianas: Lavagem do Senhor do Bonfim. Assim como no dia de Iemanjá, por maciça e quase unânime decisão dos sócios – baianos ou amasiados da malemolência –, decretou-se ponto facultativo. E Monique facultou-se a ir trabalhar, coerente (...) É um dia diferente mesmo. Na bolsa, o caderninho, que nunca saía de casa, escondido dentro do armário. Ela e mais dois ou três no escritório. Telefone estranhamente silencioso também – a Bahia para na primeira oportunidade que tem.”




Presentes no livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), páginas 23, 74, 151 a 153, 36-37, 70, 83-84, 108-109, 12, 97 a 99, 62 a 64, 76, 133 a 135, 22-23, 39-40, 14-15, 82-83, 93-94, 70, 55-56, 112-113, 141-142, 26-27, 38-39, 82, 92-93, 131, 15-16, 50-51, 76, 118, 27-28, 100-101, 132-133, 123-124, 45-46, 24, 147 e 149-150, 125-126 e 96-97, respectivamente.

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na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


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Mar
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Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…