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Quinze passagens do livro de contos e crônicas Dor de facão & brevidades, de roã

          “Amor! Por que você existiu, onde existe? De que é feita sua natureza jacarta, desconhecida, como terras em que nunca estive? Por que me é tão difícil lançar-me ao mar, à aventura de enfrentar baleias e monstros marinhos no percurso até avistar sua praia, marcar o pé em sua areia depois de tempestade e calmaria, dobrados cabos do medo e da boa esperança, tendo-os atravessado avariada mas destemida, movida pela cãibra insone do meu vazio?           Por que, como Colombo, como Cabral, como espanhóis e portugueses e ingleses ou americanos, como uma mulher de ação, não conquistá-lo, não explorá-lo, não lhe arrancar as riquezas? Não escravizá-lo, não foder com o seu time, não lhe trazer uma nova civilização? Não recuperar a porção onde mora a falta que você me faz desde que nos beijamos e ouvi silencioso o meu baço prescindível?           Este é um mero pretexto para declarar meu amor por você, inesquecível ...
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Orelha de Hélio Pólvora para o livro “Pés quentes nas noites frias”, de Mayrant Gallo

Pés quentes nas noites frias           Neste volume de contos saudamos o advento — ou a confirmação, quem sabe? — de um escritor de verdade, desses que revelam o seu grau de consciência e madureza literária numa única frase. Observador impiedoso, contundente, da realidade urbana dos nossos dias, o autor lembra João Antônio, a quem, aliás, cita em epígrafe: os contos brotam sem artifícios de criação, como se ele apenas os captasse em estado rudimentar e depois os polisse pelo manejo da língua e linguagem. O autor casa bem o instantâneo da reportagem jornalística com a investigação em nível literário de estados existenciais agudos. Os contos desenvolvem-se à beira do precipício, com os personagens sempre em situações limite.           O autor vai mais além das aparências. Quando trata de pessoas que assaltam, matam, roubam, praticam incesto e outros atos criminosos ou amorais, ele transcende a transcrição, parte em busca do porquê, que dei...

Dez passagens do livro de contos Minhas meninas, de Mariana Paiva

          “(...) do fundo do poço: aquele momento talvez até fosse um pouco além do fundo do poço. O pós-poço. (...) Continuava telefonando em vão de dentro do táxi, o taxista comentando qualquer coisa que ela não ouvia sobre a violência na cidade. Um olho na janela e outro no taxímetro correndo. Nenhuma alma penada nas ruas, nenhum carro parado no semáforo fechado naquela madrugada de meio de semana. No ouvido, a mesma voz de sempre pedindo um recado.           Íris também foi apresentada ao autonojo naquele momento. Aquele homem fedia, e era por ele que ela atravessava toda a cidade, ela e aquele taxista, coitado, que já podia estar em casa se não fosse aquele telefonema. Ou talvez transportando alguém feliz, recém-saído de uma festa ou de uma foda. E aquele telefone na caixa. Não explicou muito bem o destino: disse o bairro e complementou com ‘é perto do posto de gasolina, ali na principal’. Foram. E a surpresa que nem havia mais: o b...

Seleta: Jewel

Foto: Dana Trippe A “Seleta: Jewel” destaca as 144 músicas que mais gosto da cantora e compositora norte-americana, presentes em 14 álbuns, 01 EP e 03 singles da sua discografia (os prediletos são “ Pieces of You ”, “ Spirit ”, “ Sweet and Wild ”, “ Perfectly Clear ” e “ Picking Up the Pieces ”). Ouça no Spotify aqui Ouça no YouTube aqui  [faltam 02 músicas] Os 14 álbuns, 01 EP e 03 singles participantes desta Seleta 01) Innocence Maintained [Spirit, 1998] 02) Who Will Save Your Soul [Pieces of You, 1994] 03) Down So Long [Spirit, 1998] 04) Life Uncommon [Spirit, 1998] 05) I'm Sensitive [Pieces of You, 1994] 06) Morning Song [Pieces of You, 1994] 07) Hands [Spirit, 1998] 08) Foolish Games [Pieces of You, 1994] 09) Daddy [Pieces of You, 1994] 10) Don't [Pieces of You, 1994] 11) Emily [Pieces of You (25th Anniversary Edition), 2020] 12) Kiss the Flame [Spirit, 1998] 13) Deep Water [Spirit, 1998] 14) Two Hearts Breaking [Greatest Hits, 2013] 15) One True Thing [...

60 verbetes do livro satírico Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce

amizade ( friendship ), s.f. Um navio grande o suficiente para carregar duas pessoas quando há bom tempo, mas apenas uma na tormenta. futuro ( future ), s.m. Aquele período de tempo em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade está assegurada. hábito ( habit ), s.m. Algema para os livres. fantasma ( ghost ), s.m. O sinal exterior e visível de um medo interior. costas ( back ), s.f.pl. A parte de seu amigo que você tem o privilégio de contemplar quando passa por problemas. mendigo ( beggar ), s.m. Aquele que confiou na ajuda dos amigos. chato ( bore ), s.m. Aquele que fala quando você quer que ele ouça. telefone ( telephone ), s.m. Uma invenção do Diabo que anula algumas das vantagens de manter a distância uma pessoa desagradável. velhice ( age ), s.f. Aquele período da vida em que agravamos os vícios que ainda nos agradam amaldiçoando aqueles que não temos mais a iniciativa de cometer. fidelidade ( fidelity ), s.f. Virtude peculiar àqueles que estã...

Trinta passagens do livro de ensaios deus não é grande — Como a religião envenena tudo, de Christopher Hitchens

“(...) Deus não criou o homem à sua imagem. Evidentemente foi o contrário, e essa é a explicação indolor para a profusão de deuses e religiões e o fratricídio entre religiões e no interior delas que vemos ao nosso redor e que tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização.” “Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância.” “(...) Nossa crença não é uma crença. Nossos prin...