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Livro O grito do mar na noite (2ª edição, 2026), de Emmanuel Mirdad

“O grito do mar na noite” (Sansevieria Livros, 2 ª edição, 2026) Emmanuel Mirdad ISBN: 978-65-977385-1-9 10 contos | 212 pg Capa: Jorge Barreto Um bisavô é abandonado pela filha e tem de viver em um asilo contra a sua vontade, até que surge a chance de retribuir a covardia. Opressores que são oprimidos e oprimidos que praticam a opressão, todos a devorar e serem devorados num ritmo frenético e cinematográfico de um farto banquete. Um autodestrutível Casanova às avessas recebe uma série tragicômica de foras das mais variadas mulheres. Uma sanfoneira caolha & cabocla encanta o sertão com a sua arte singular enquanto a vida trágica não cega o olho que resta e o coração que sente [uma homenagem à canção “Assum Preto”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga]. Um colecionador de bonecas e a derrocada ou a libertação de um macho alfa, encantado e repleto de desejo por uma travesti. A descartabilidade das relações afetivas e os seus inúmeros desencontros. O dilema de uma mulher que nunca goz...
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Chá de boldo (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Chá de boldo Emmanuel Mirdad           O velho é bisavô e ajuda a preparar o café da manhã. A filha emite o bom dia num timbre grave, de quem ainda se acostuma ao raiar da rotina. As duas bisnetas estalam vários beijinhos no rosto enrugado, mas atento aos carinhos ainda intactos, antes que a pressa os esmague.           — Te amo, meu bisa...           — Eu te amo mais!           — Eu amo mais e mais!           Nessa competição, não há perdedoras.           — Eu amo todas vocês, minhas preciosidades!           No quarto dos seus cinquenta anos, a filha sorri, de boca fechada; o cafuné do velho é uma volta para o quintal da infância. Deixa escapulir, quase um sussurro:           — Também te amo, painho.           O velho tenta ligar a tev...

O banquete (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O banquete Emmanuel Mirdad           Um homem corre. Um bando corre atrás, com pedaços de pau, soqueiras, canivetes e rojões. A camisa dele é de cores frias, diferente das cores quentes da turba uniforme. Ele tem um nome: Carlito Alarcón. Tem um rosto, preferências, trabalho. Parentes, mulher, amigos, mãe. É moreno, um chapaco da cidade de Tarija, sul da Bolívia. O bando, não; é apenas impulso, vômito, ação assassina. Sem rosto, sem indivíduos, inimputável.           Um homem e o seu erro: desgarrou-se da sua turba para telefonar. Individualizou-se. Tornou-se um alvo. Agora, corre. E acaba encurralado, por não conhecer a área dos até então adversários; agora, inimigos. Enquanto os times começam o embate da final do campeonato, dentro do estádio ali próximo, Carlito é surrado num beco, longe da interferência da polícia. Ele perde dentes, tem ossos quebrados, sangue no chão, traumatismo múltiplo. Antes do fim,...

Receba (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Receba Emmanuel Mirdad           Pedro Henrique namora uma moça doze anos mais nova do que ele. Primeiro, ostenta as curvas da jovem, mas logo ela se cansa da atuação em segundo plano e assume o controle, a ponto de isolar PH dos amigos. E o namorado vai ter de acompanhá-la em uma festa de verão em Sergipe, bate e volta com ônibus de excursão. Seis horas de viagem a boiar em cachaça e baderna, todos a encher a cara e a paquerar, pirraçando o único casal monogâmico no ambiente: Pedro Henrique e a “dona encrenca” — apelido que ele passa a usar para se referir a ela, quando está chateado; só não tem a coragem de chamá-la assim quando estão juntos. Três horas de festa gastas apenas na função de segurança, cravado num abraço por trás na sua namorada, para que nenhum homem passe o dedo ou a toque. Duas horas a esperar os quarenta bêbados e bêbadas aparecerem no local combinado pela excursão — e PH relembra que havia parado de beber por re...

Sol de abril (O grito do mar na noite, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Sol de abril Emmanuel Mirdad           À volta de tudo, só beleza. Começo da manhã, primavera, friozinho de pleno céu azul, sem nuvens. No centro da cidade serrana de Canela, Rio Grande do Sul, Lourdes contempla a fachada da Catedral de Pedra, de arquitetura gótica, a considerá-la imponente e muito bonita; sempre do lado de fora, longe da liturgia, frui o sublime apenas a olhar, até perder de vista a sua única vista. De um olho fechado, reza. A aparição mariana que lhe originou o nome pode até escutar, mas não deve responder. A paz brota do silêncio. E a cidade em flor começa o percurso dos fluidos do seu organismo.           — Bom dia, caolha!           — Dia.           Quase sempre abre o fole da sanfona com o sol. Talvez seja uma mania, ou um gesto de breve escape, munido da delicadeza, a afrontar as asperezas da rua. Que seja. Para Lourdes, a junção das n...