“Amor! Por que você existiu, onde existe? De que é feita sua natureza jacarta, desconhecida, como terras em que nunca estive? Por que me é tão difícil lançar-me ao mar, à aventura de enfrentar baleias e monstros marinhos no percurso até avistar sua praia, marcar o pé em sua areia depois de tempestade e calmaria, dobrados cabos do medo e da boa esperança, tendo-os atravessado avariada mas destemida, movida pela cãibra insone do meu vazio? Por que, como Colombo, como Cabral, como espanhóis e portugueses e ingleses ou americanos, como uma mulher de ação, não conquistá-lo, não explorá-lo, não lhe arrancar as riquezas? Não escravizá-lo, não foder com o seu time, não lhe trazer uma nova civilização? Não recuperar a porção onde mora a falta que você me faz desde que nos beijamos e ouvi silencioso o meu baço prescindível? Este é um mero pretexto para declarar meu amor por você, inesquecível ...
Pés quentes nas noites frias Neste volume de contos saudamos o advento — ou a confirmação, quem sabe? — de um escritor de verdade, desses que revelam o seu grau de consciência e madureza literária numa única frase. Observador impiedoso, contundente, da realidade urbana dos nossos dias, o autor lembra João Antônio, a quem, aliás, cita em epígrafe: os contos brotam sem artifícios de criação, como se ele apenas os captasse em estado rudimentar e depois os polisse pelo manejo da língua e linguagem. O autor casa bem o instantâneo da reportagem jornalística com a investigação em nível literário de estados existenciais agudos. Os contos desenvolvem-se à beira do precipício, com os personagens sempre em situações limite. O autor vai mais além das aparências. Quando trata de pessoas que assaltam, matam, roubam, praticam incesto e outros atos criminosos ou amorais, ele transcende a transcrição, parte em busca do porquê, que dei...