“(...) Naquela tarde, ele lhe falou que ia embora. Disse assim, de pronto, leve, com o olhar a fitar a extensão de mar. Ela, ao seu lado, ficou em silêncio. Sabia, de antemão e por intuição, que nada permanece imutável até o fim. Que tudo é deterioração — e desastre. Que o que está não vai assim permanecer. Que o ser é enquanto , e que tudo muda com o tempo. ‘Tudo bem’, foi o que conseguiu dizer ou, de fato, preferiu dizer. Mesmo que o coração não quisesse, os lábios mentem. O menino, calado, ainda contemplava o mar, alheio à certeza que aquelas palavras sedimentavam. Ao cimento que os dias, dali por diante, imporiam àquela amizade.” “(...) As primeiras decepções chegam cedo e, se deixam marcas, não são visíveis e precisam ser arrancadas do fundo das mentes e dos olhos. Mas não aquela. O menino, ao dirigir-se à casa do amigo, ia destroçado. Jamais lhe ocorrera algo semelhante. Não sabia, portanto, lidar com a rejeição, se é que era isso mesmo. Mas era, de certo modo. Um ano inteiro mud...
“Amor! Por que você existiu, onde existe? De que é feita sua natureza jacarta, desconhecida, como terras em que nunca estive? Por que me é tão difícil lançar-me ao mar, à aventura de enfrentar baleias e monstros marinhos no percurso até avistar sua praia, marcar o pé em sua areia depois de tempestade e calmaria, dobrados cabos do medo e da boa esperança, tendo-os atravessado avariada mas destemida, movida pela cãibra insone do meu vazio? Por que, como Colombo, como Cabral, como espanhóis e portugueses e ingleses ou americanos, como uma mulher de ação, não conquistá-lo, não explorá-lo, não lhe arrancar as riquezas? Não escravizá-lo, não foder com o seu time, não lhe trazer uma nova civilização? Não recuperar a porção onde mora a falta que você me faz desde que nos beijamos e ouvi silencioso o meu baço prescindível? Este é um mero pretexto para declarar meu amor por você, inesquecível ...