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Mostrando postagens de agosto, 2022

Seleta: Post-Rock

Foto: Jonatan Pie ( daqui ) Para escrever, meditar, mergulhar em si, banhar-se nas águas doces & salgadas, contemplar o horizonte de cima de uma montanha, dirigir ou pedalar à beira-mar, caminhar entre as árvores, respirar na mata, trilhar obras artísticas, construir a habitação mental para o equilíbrio e se sentir cinematográfico na existência, confira as 10 playlists de post-rock da Seleta , com Sigur Rós , MONO , Jakob , Mogwai , Explosions in the Sky ,  pg.lost ,  Imploding Stars , hubris. , If These Trees Could Talk e Paint The Sky Red . Em 2022 , selecionei 514 músicas prediletas, presentes em 76 álbuns , 04 EPs e 10 singles , a alumiar a mente e transcender além da matéria. PS1: Esse post será atualizado a cada nova Seleta Post-Rock criada. PS2: A edição especial sobre a série Música para Escrever  (músicas e álbuns) segue no final deste post e não está computada nas quantidades acima. Seleta: Sigur Rós (2022) 100 músicas | 11 álbuns, 02 EPs e 08 singles Ouça aqui Sele

Cinco poemas de Carlos Drummond de Andrade no livro Boitempo I

Primeiro conto Carlos Drummond de Andrade O menino ambicioso não de poder ou glória mas de soltar a coisa oculta no seu peito escreve no caderno e vagamente conta à maneira de sonho sem sentido nem forma aquilo que não sabe. Ficou na folha a mancha do tinteiro entornado, mas tão esmaecida que nem mancha o papel. Quem decifra por baixo a letra do menino, agora que o homem sabe dizer o que não mais se oculta no seu peito? -------- Boitempo Carlos Drummond de Andrade Entardece na roça de modo diferente. A sombra vem nos cascos, no mugido da vaca separada da cria. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal, escultura da noite. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. No gado é que dormimos e nele que acordamos. Amanhece na roça de modo diferente. A luz chega no leite, morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista. -------- Mulin

Seleta: U2

A “ Seleta: U2 ” destaca as 141 músicas que mais gosto da banda irlandesa, presentes em 20 álbuns e um EP (os prediletos são “ All That You Can't Leave Behind ”, “ Achtung Baby ”, “ The Joshua Tree ”, “ Pop ” e “ War ”). Ouça no Spotify aqui Ouça no YouTube aqui Os 20 álbuns e um EP participantes desta Seleta 01) Where the Streets Have No Name [The Joshua Tree, 1987] 02) New Year's Day [War, 1983] 03) Beautiful Day [All That You Can't Leave Behind, 2000] 04) Acrobat [Achtung Baby, 1991] 05) So Cruel [Achtung Baby, 1991] 06) Kite [All That You Can't Leave Behind, 2000] 07) In a Little While [All That You Can't Leave Behind, 2000] 08) With or Without You [The Joshua Tree, 1987] 09) Bad [The Unforgettable Fire, 1984] 10) Sunday Bloody Sunday [War, 1983] 11) Walk On [All That You Can't Leave Behind, 2000] 12) Stay (Faraway, So Close!) [Zooropa, 1993] 13) If God Will Send His Angels [Pop, 1997] 14) Stuck in a Moment You Can't Get Out Of [All That You Can't

Dez poemas de Carlos Drummond de Andrade no livro As impurezas do branco

Essas coisas Carlos Drummond de Andrade “Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas.” Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas, essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora, e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer, é porque estou morto, e morto é a idade de não sentir as coisas, essas coisas? -------- Amor e seu tempo Carlos Drummond de Andrade Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama, que se torna a mais larga e mais relvosa, roçando, em cada poro, o céu do corpo. É isto, amor: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado, nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre, salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Am

Cinco poemas e três passagens de Lívia Natália no livro Sobejos do mar

Lívia Natália (foto: Priscila Fulô) XXX Lívia Natália Dizem que, debaixo da farda, tem gente. E nem precisa escavar profundo. Dizem que há sangue, que há entranhas rubras, e uma pele negra igual à minha. Dizem que, debaixo da farda, tem gente. Ouvi falar que aqueles olhos arregalados têm medo que a gente saiba que, debaixo da farda, tem uma pessoa, que de manhã é uma pessoa boa, e sorri, enquanto veste o coturno. Dizem que a farda é como uma boca,  cheia de dentes que os desfaz em pedaços. -------- Da inutilidade da poesia Lívia Natália           Para o Prof. Hélio Santos 63 jovens negros são mortos por dia. 23 mil jovens negros são mortos por ano. Ao menos um morreu agora, enquanto você lia este poema. -------- Aguidavi Lívia Natália           “Só acredito num Deus que dance.”           Friedrich Nietzsche Se é por ela que se des/faz o invisível e a terra se preenche de gestos ancestrais. Se os atabaques se deitam silentes com seus Oris de couro saciados de Ejé. E se, quando dançam, a

Dez poemas de Carlos Drummond de Andrade no livro A falta que ama

Comunhão Carlos Drummond de Andrade Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo, eu no centro. Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis pela expressão corporal e pelo que diziam no silêncio de suas roupas além da moda e de tecidos; roupas não anunciadas nem vendidas. Nenhum tinha rosto. O que diziam escusava resposta, ficava, parado, suspenso no salão, objeto denso, tranquilo. Notei um lugar vazio na roda. Lentamente fui ocupá-lo. Surgiram todos os rostos, iluminados. -------- A torre sem degraus Carlos Drummond de Andrade No térreo se arrastam possuidores de coisas recoisificadas. No 1 º andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2 º andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3 º andar — tlás tlás — a noite cria morcegos. No 4 º , no 7 º , vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5 º , alguém semeou de pregos dentes de fera cacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No

Seleta: Placebo

A “ Seleta: Placebo ” destaca as 110 músicas que mais gosto da banda inglesa, presentes em 15 álbuns e um single (os prediletos são “ Meds ”, “ Black Market Music ”, “ Sleeping with Ghosts ” e “ Battle for the Sun ”). Ouça no Spotify aqui Ouça no YouTube aqui Os 15 álbuns e 1 single participantes desta Seleta 01) Black-Eyed [Black Market Music, 2000] 02) This Picture [Sleeping with Ghosts, 2003] 03) Drag [Meds, 2006] 04) The Bitter End [Sleeping with Ghosts, 2003] 05) Every You Every Me [Without You I'm Nothing, 1998] 06) Meds [Meds, 2006] 07) One of a Kind [Meds, 2006] 08) Battle for the Sun [Battle for the Sun, 2009] 09) Devil in the Details [Battle for the Sun, 2009] 10) Infra-Red [Meds, 2006] 11) Pure Morning [Without You I'm Nothing, 1998] 12) Blind [Meds, 2006] 13) Follow the Cops Back Home [Meds, 2006] 14) Passive Aggressive [Black Market Music, 2000] 15) Peeping Tom [Black Market Music, 2000] 16) Without You I'm Nothing [A Place for Us to Dream, 2016] 17) Happy Y

Dez poemas de Carlos Drummond de Andrade no livro Lição de coisas

Para sempre Carlos Drummond de Andrade Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra — mistério profundo — de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho -------- Carta Carlos Drummond de Andrade Há muito tempo, sim, que não te escrevo. Ficaram velhas todas as notícias. Eu mesmo envelheci. Olha, em relevo, estes sinais em mim, não das carícias (tão leves) que fazias no meu rosto: são golpes, são espinhos, são lembranças da vida a teu menino, que a sol-posto perde a sabedoria das crianças. A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir, quando dizias "Deus te abençoe",