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Mostrando postagens de 2019

Trinta passagens de Ângela Vilma no blog Aeronauta em 2011

“Devia ser essa a ambição de todo homem, em toda e qualquer instância: sair do senso comum. Tentar não se repetir, tentar dizer e fazer coisas diferentes, livrar-se de uma vez por todas desse legado medíocre e estúpido que é o convencionalismo humano; livrar-se, enfim, de uma certa voz de comando que sempre ecoa nas nossas costas. Uma voz de comando que se diz individual (‘a voz do povo... etc’), mas que de individual não tem nada. Aliás, há algo individual no mundo? Existe algo individual em mim? Estou contaminada pelo discurso alheio, não há nada de novo em mim a não ser a repetida estupidez. É preciso ser vigilante de si, em extrema e lúcida clarividência. Vigiar a si para só depois vigiar a dita e conclamada ‘sociedade’, e não o contrário. Vigiar a tal ‘sociedade’ sem se vigiar é a repetição da estupidez, é ser boneco de engonço, balançando a cabeça e marchando — porque todos marcham.”


“(...) ao finalmente livrar-me do engarrafamento e botar os pés no chão, o que vi não tinha a m…

Vinte poemas de Carlos Barbosa no blog Minicontos

O menino e eu
Carlos Barbosa

eu tenho dor, obrigações e conta bancária
ele tem fantasia e histórias pra contar

por isso me consumo em fortalecê-lo

quando eu partir, ele continuará

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Dez anos hoje
Carlos Barbosa

seus miúdos olhos ainda buscam os meus
que se desesperam
por entender aquele pouco brilho

quanta dor se pode suportar em silêncio?

garanti a meu pai minha companhia
até o último momento

meu pai apreciava o cumprimento de compromisso

hoje penso que se divertia
ao me ouvir murmurar:
— não tenha medo, estou aqui

pois era aquela frase que seus olhos me diziam

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Estação morte
Carlos Barbosa

Como não crer em Destino, se nos destinamos à morte?
Sabemos disso e agimos costumeiramente como se imortais fôssemos.
Empinamos o nariz, e outras partes, e arrostamos o tempo, heróis de porra nenhuma.
Alimentamos rancores e ódios, cultivamos inimizades, ampliamos distâncias.
Fabricamos couraças de arrogância e medo, crentes numa força que não possuímos.
Fazemos de conta que não há esqui…

Cinco poemas e três passagens de Otto Leopoldo Winck no livro Cosmogonias

Otto Leopoldo Winck - Foto daqui
Memorabilia
Otto Leopoldo Winck

Olhar o rio e compreender que o tempo
é um rio que flui e não retorna, e, se retorna,
será, num tempo outro, um outro rio.
Olhar o rio e compreender também
que, se as suas águas as nossas mágoas
levam, é nesse rio, além da foz,
além do mar, além da noite extrema,
que as nossas lágrimas se transfiguram,
iluminadas não das mágoas mortas,
que destas já não há nenhum remédio,
mas daquelas que ainda surgirão,
pois se há fluir, se há correr, se há viver,
sempre haverá sofrer, e pena, e mágoa.

Olhar o rio e compreender que o tempo
é o rio sem fim em que nos batizamos,
irremediavelmente naufragados,
todo dia, toda hora, a todo instante.
Olhar o rio e aceitar que não podemos
nos agarrar aos ramos e às raízes
da encosta — e que os barrancos nem sequer
a fantasia da estabilidade
nos podem, despencando, transmitir.

Olhar o rio e compreender enfim
que, se a sina de todo rio é o mar,
o fim de toda gente é navegar,
ai, sem cartas, sem fe…

Trinta e cinco passagens de Ângela Vilma no blog Aeronauta em 2010

“(...) você não sabe nada sobre seu próprio nascimento assim como também nada saberá sobre sua morte, já a caminho. Tudo o que você é, a ficção que você escolheu criar, pertence aos outros, à memória alheia. Sobre o momento que você nasceu, apenas sua mãe e os que estavam presentes ‘disseram’; de sua morte que vem aí, já já, apenas os possíveis espectadores farão o posterior relato. O que resta pensar? Se você não tem a memória dos dois grandes marcos de sua própria existência, a pergunta é insistente: não é uma imensa solidão essa, existir? (...) Ora, ora, você sequer existe, e a solidão é tudo que há. Sinta-a agora, antes de ir atravessar o imenso corredor que lhe espera. Não se agarre ao braço de seu namorado, afinal ele não poderá atravessar o corredor com você. Ele também, na sua hora, atravessará o corredor. Sozinho. É assim que a lei maior, a burocracia, manda: sozinho, marchando sempre, sem se deter. (...) É engraçada essa tragédia (...) porque pensando bem será meu corpo, si…