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Mostrando postagens de agosto, 2024

Quinze passagens do romance Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Paulina Chiziane (foto: Nuno Ferreira Santos) “Os corpos mergulham na dança imemorial e sem idade. Até as crianças, anjos humanos, se requebram nas costas das mães batendo palmas, abrindo e fechando as boquinhas de fome no compasso da melodia. Os gritos dos tambores despertam a terra que adormece, o povo anestesia-se com o lenitivo das suas vozes, as vibrações sonoras atingem o além-túmulo e o coração da selva que é a residência dos deuses, e estes, compreendendo os gritos e lamentos dos seus protegidos, respondem numa voz única que é o tumulto do seu sangue: Presente. E encarnam-se nos corpos dos seus protegidos, que entram em transe, uivam, gritam, rugem e falam numa língua que não se entende, linguagem dos deuses de Mananga e de todos os heróis adormecidos no Império de Gaza. As vozes continuam crescentes na música quente. (...) A embriaguez e o êxtase conduzem ao despudor. As mulheres de mãos na cintura agitam os vestígios de ancas para frente para trás num exorcismo erótico, balan...

Dez poemas de Tiago D. Oliveira no livro Caramelo quer ver o mar

E se eu fosse você? Tiago D. Oliveira tentaria descrever sem palavras esta fome Ou com apenas uma delas, sentiria o mundo Ou recomeçaria a andar dentro da água [a mesma que mataria a sede Ou trocaria de lugar com os pombos da praça — quando alguém perguntou de onde tinha vindo o tir... Ou pararia o tempo que foi usado dos 30 aos 40 [incluindo as noites todas elas noites todas Ou esconderia dentro do fim todas as armas sobre os   armários Ou tentaria parar de insistir em aprender a voar Ou de fingir que gosta de todo mundo Ou desistiria de imaginar ou tentar lembrar [de como era antes do celular, da internet, do viagra,                                                                              do fogo Ou venderia todos os sonhos para o silêncio de uma caixa [o medo sempre é um bom amigo O...

Quinze passagens do romance Sobrevidas, de Abdulrazak Gurnah

Abdulrazak Gurnah (foto: Facundo Arrizabalaga) “Mesmo com a Schutztruppe perdendo soldados e carregadores em batalha, por doença ou deserção, seus oficiais seguiam lutando com uma obstinação e uma persistência loucas. Os askaris deixaram a região devastada, as pessoas passando fome e morrendo às centenas de milhares, enquanto eles lutavam com sua aceitação cega e assassina de uma causa cujas origens desconheciam e cujas ambições era fúteis e destinadas no fim a dominá-los. Um grande número de carregadores morreu de malária e disenteria e exaustão, e ninguém se deu ao trabalho de contá-los. Eles desertavam de puro medo, para morrer naquelas regiões rurais esgotadas. Depois esses acontecimentos seriam transformados em histórias de um heroísmo absurdo e desinteressado, um assunto secundário diante das grandes tragédias da Europa, mas para os que viveram tudo aquilo foi um tempo em que sua terra se encharcou de sangue e se cobriu de cadáveres.”           “Muitos ask...