Pular para o conteúdo principal

Julio Cortázar, preciso.

Julio Cortázar, interferido por Mirdad

"Acho ridículo que um romancista tenha úlcera no estômago porque seus livros não são suficientemente famosos e organize minunciosas políticas de autopromoção para que os editores ou a crítica não o esqueçam; diante do que nos mostra a primeira página dos jornais quando acordamos diariamente, não será grotesco imaginar esses esperneios espamódicos visando a uma "duração" cada vez mais improvável frente a uma história em que os gostos e suas formas de expressão terão mudado vertiginosamente em pouco tempo?"

"Quando a Life me pergunta o que penso do futuro do romance, respondo que não dou a mínima; só o que importa é o futuro do homem."

"O futuro dos meus livros ou dos livros alheios me é absolutamente indiferente; esse entesouramento tão ansioso me faz pensar nesses doidos que guardam suas aparas de unhas ou de cabelo; no terreno da literatura também é preciso acabar com o sentimento de propriedade privada, porque a literatura só pode servir para ser um bem comum."

"Um escritor de verdade é aquele que tensiona o arco a fundo enquanto escreve e depois o pendura num prego e vai tomar vinho com os amigos. A flecha já está no ar, e se fincará ou não no alvo; só os imbecis podem pretender modificar sua trajetória ou correr atrás dela para dar-lhe empurrõezinhos suplementares rumo à eternidade e às edições internacionais."



Trechos de Julio Cortázar, extraídos do livro Papéis inesperados (Civilização Brasileira, 2010).

Comentários

Anônimo disse…
Ah Cortázar é uma pedrada mesmo! Dele eu li "Divertimento" e o "Jogo", este último daqueles livros que mudam alguma coisa na gente. Bom saber que não estamos sós, tem sempre gente lendo essa escrita vigorosa. O arco pode estar suspenso, mas ainda assim ele fica pairando sobre nossas vidas. Não escrevo, mas creio ser uma atitude em relação à vida, esse trato, respeito e a maneira de desnaturalizar o mundo através da palavra que os escritores de verdade possuem. É muita perplexidade saber que um ser que faz a guerra ao mesmo tempo é capaz de contar a vida em palavras e às vezes exprimir tanto sentimento e reflexão em linguagem escrita. Cheguei no teu blog procurando Alan Lobo no Google meio despretensiosamente. Na época em que o encontrei em Aracaju e Olinda ele ainda estudava Comunicação na UFBA. De vez em quando, vasculhando umas memórias adolescentes, me lembro da figura dele com aquela cabeleira cacheada (rs). Pensei: por onde anda aquele cara? Mande lembranças a ele caso você o encontre. Nessa brincadeira acabei descobrindo o trabalho que vocês vêm fazendo, fiquei contente. Felicidades e vida longa a tudo isso.

Lia Presgrave
Emmanuel Mirdad disse…
Obrigado pelo comentário, Lia! Darei o recado a Alan sim! Abs

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinhei...

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...