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Mostrando postagens de 2026

Livro Nostalgia da lama (2ª edição, 2026), de Emmanuel Mirdad

“ Nostalgia da lama ” (Sansevieria Livros, 2ª edição, 2026) Emmanuel Mirdad ISBN: 978-65-977385-0-2 100 poemas | 192 pg Capa: Jorge Barreto A expressão “ nostalgia da lama ” vem do francês “ nostalgie de la boue ”. O poeta e dramaturgo francês Émile Augier (1820-1899) apresentou-a na peça “ Le Mariage d'Olympe ” (1855) que, segundo o professor e crítico John Gledson , “mostra a maldade da heroína, Olympe Taverny , ex-cortesã que se casa com o Marquês de Puygiron , mas, por tédio (ou por nostalgia da lama ), acaba voltando a seus antigos hábitos”. A “ nostalgia da lama ” de Emmanuel Mirdad contém 100 poemas e traz acidez, frustração, alegria, a festa do amô, angústia, sexo, ironia, fossa, sentimentos complexos, crônicas, reflexões, figurações, enquadros e espetos de um feroz nômade contemporâneo. Estreando em livro de poemas (e desistindo de fazer outro), embora os escreva desde 1996 , o poeta laranja apresenta o seu mafuá de farpas psicodélicas, agridoces, cruéis & apaixonan...

Depende (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Depende Emmanuel Mirdad Antes de ser brasileiro, eu sou nordestino, mas sirvo à pátria o papel de primogênito, oriundo do leste mar, fincado em paisagens áridas e heranças que compreendo e compartilho. Antes de ser brasileiro, eu sou terráqueo a girar neste balão frágil, a forjar que o horizonte é plano, e os sonhos a circular em uma pertença múltipla glocalizada; o Mali, no mar da Grécia, deságua em São Salvador. Antes de ser brasileiro, eu sou uma incógnita da Matrix, apenas mais um, a fruir o enigma, conectado à engrenagem, disposto a acreditar no que me mantém vivo e respirar um pouco mais, a sustentar o sentido que entretém Deus.   Antes de ser brasileiro, eu sou você.

Construção (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Construção Emmanuel Mirdad Acredito em fórmulas do meu próprio dicionário e me mantenho distante de todos que eu fui — a secreta mensagem do silêncio. Não construo mais falsos devaneios; agora, eu sangro, imerso na pura razão de quem aprendeu a se equilibrar. Cataliso os sonhos na substância que almejo. Ontem à noite, dissequei charadas como um herói. Quem nunca quis ser um herói? Não espalho mais a minha muda agonia. Vivo em uma outra surrealidade. A minha dor teve fim.

O sorriso (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O sorriso Emmanuel Mirdad I Se, algum dia, eu estiver na profunda noite escura, dentro de um bote, sem remo nem rumo, sobrevivente de um naufrágio de mim, acossado na quina por um tigre atento, mas adormecido, e o medo esmorecer o último vestígio da permanência, a romper a comunicação com o sagrado, ainda assim, não estarei só; fecharei os meus olhos e trarei a imagem do sorriso da mulher que eu amo, que é parte do melhor que vivenciei, e surgirá, na química transcendental da transmutação, como um farol em raios de luz, fincado ao chão safo, a traduzir a charada do enigma em um caminho iluminado; é por aí que eu seguirei, abastecido de esperança, a expressão da felicidade a inundar a noite escura, a raiar o parto do sol, o reencontro do encanto, sem quina, remo, tigre, livre do bote, vou deslizar, por cima da água, suavemente salvo. II O sorriso da mulher que eu amo é uma potência, uma supernova, o design da matéria humana que coincide com a álgebra do di...

Iemanjá (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Iemanjá Emmanuel Mirdad Ela manja de mim, salga os meus dissabores, enruga as pontas e as dobras, esfolia e me impregna de areia, para firmar a certeza de que, ali, o mar é só de passagem, e o chão é por onde devo prosseguir. Por mais que eu queira ser enfeitiçado e deitar com ela, no fim, devolve-me, cuspido de ondas, salgado e morgado. É na vida que devo insistir.

Antes tocava Gonzaga (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Antes tocava Gonzaga Emmanuel Mirdad A alisar a testa suada, cheia de marcas, ela limpa os olhos, comprometidos pela vertigem. O calor intenso quase quebra a coragem, mas os passos continuam firmes. Há muitas lágrimas, forçadas pelo calafrio soturno do adeus sem planejamento nem alternativa; lágrimas que não escorrem nos rostos dos pequenos — as crianças, sem água para beberem, não querem perder as gotas pelos olhos. Os ossos estão magros. Na época da escassez braba no sertão, de tempo em tempo, vinham as cestas e um dinheirinho, mas os políticos locais roubaram demais, e a notícia passou a ser outra nas capitais; os caridosos de plantão esqueceram que a seca não é moda, e a morte é sempre certa. A paciência acabara com os roncos do estômago; para não plantar maconha, ela parte com o marido e a família rumo ao litoral — e os jatos dos deputados “singram” o céu de azul implacável. A esperança, zombeteira descabida, alimentada pela fé dos mais sofridos, torn...

Cuscuz (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Cuscuz Emmanuel Mirdad Todo dia, de manhã, eu como; quente ou requentado, seco, farelado, quase a panela toda no prato fundo, amarelo, cimentado por duas fatias de mussarela, e a boca apressada de não saborear; tal qual escovar os dentes, é só para ocupar espaço, entupir o bucho — sem café, manhã. Comedor de cuscuz e inhame, participo do Nordeste que me situa e enraíza; aqui é o lugar a que eu pretensamente pertenço, o pêndulo que me badala cangaço e trabalho, lar e gene da gente do sol e salitre — mas é por mim que nunca cesso e prossigo, avexado e alumiado, cabra macho.

Mafuá (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Mafuá Emmanuel Mirdad Eu sou negro, eu sou branco, eu não estou acromático. Eu sou pardo, amarelo, multicor. Nordestino, litorâneo, de São Salvador. Glocalizado, sertãopolita, provocador. Autoafirmo a raça humana no meu diagnóstico; a cor de pele é só um mero detalhe genético. A minha identidade é um bagunçaço estrambólico: ajaiô, anarriê, bundalelê. No fim, qualquer um escorre num fio vermelho de sangue. Eu toco samba- rock , faço groove e danço xote; psicodelia em Carnaval, miscigenado caos. Incorporo tendências, transito em simbiose; multifacetado delírio tropical. O que me incomoda é o padronizar da casca. Branco, negro, pardo, e você, é o quê? Tem certeza de que é isso mesmo? É preciso suprir as reais carências. No fim, qualquer um escorre num fio vermelho de sangue.

O milagre (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O milagre Emmanuel Mirdad Eu sou um cego, mas enxergo os segredos; a dissimulação não ultrapassa as minhas pálpebras. Na escuridão, o que vibra desfaz o enigma. Não me importo se a dúvida me desafia por todo o caminho. Na minha tela tênue, desenho garranchos bêbados; não sei o que é um traço, mas posso suspirá-lo. Adivinho formas que não se encontram na matéria; é o brincar de Deus, criando algo que não serve de nada — audácia. Eu toco a pele e sinto a máscara; conheço quem nunca diz a verdade — estão com olhos de medo procurando a saída. Eu vejo com as mãos o cheiro de um gosto podre, o suor quente do mentiroso. Mas o que é belo transparece, humildemente. O silêncio das cores me traz paz e graça, quando eu sinto a manhã quebrando as minhas pálpebras, quando o calor do dia insiste que eu sobreviva. Eu verei o sol por entre as nuvens densas. Eu verei o sol perfurando os olhos num milagre de um voo cego, o canto de um assum preto.

El’eu (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui El’eu Emmanuel Mirdad O mal que há em mim não me deixa, não me trai, não me fascina, mas se faz necessário. É o vigor, o que sustenta a cobiça, o que raciocina, interage e negocia, o que violenta e não desperdiça. O mal que há em mim é o disfarce volátil, razão e método que mascaram o engano. É o que arrebata, arregaça e anoitece; o alimento que impulsiona o equilíbrio, entre o caos e a abonança. O mal que há em mim tenta me convencer a ser o que for, para ter sempre o controle. Mas não consegue; o seu lugar é o subterrâneo, subalterno, escondido e camuflado, dosado na medida em que preciso. Há, em mim, um ele-eu; além de mim, o mal e Deus. Há, em mim, a luz e o breu; além de mim, só eu.

Entre a forca e a pólvora (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Entre a forca e a pólvora Emmanuel Mirdad Eu sou um ser definido e frágil, preciso dos meus sonhos a cada instante e as minhas escolhas são únicas e letais: se falho, despedaço; se ganho, desobedeço. Vou às festas e me sinto agulha; ninguém pode se aproximar de mim — o meu humor é cáustico, e eu sou discreto e perigoso. Apenas não quero ser mais um idiota e conversar bobagens, futricas, outra hiena a lascar seda e a lamber botas. As minhas palavras são curtas e poesias. “O que foi que aconteceu de tão medonho?” — alguém quer me vasculhar. Penso, mas não respondo: “Tentarei existir muito longe daqui. Tentarei existir, apenas”. Vou viver longe — existir, insistir. Viverei lá bem longe — resistir, persistir. Eu tive um amigo que me trouxe o suicídio; estava tão ausente, que me pareceu gênio. Disse-me que tinha bebido veneno e que a sua carne tremia, ansiosa, por descanso. Ingênuo... Aprisionado, com a chave nas mãos, conheceu a podridão do fracasso e da glóri...

O rangido (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O rangido Emmanuel Mirdad Mal fiz trinta, mas já carrego a solidão dos sessenta a dobrar o meu não-pertencimento, a duplicar as negativas apressadas às soluções, a alternar, falsamente, a armadilha implícita do herói e o fascínio panaca do mártir pelo pedestal, que faz dos passos desfile de uma alegoria de gente pretensamente à parte do lugar comum, sendo que saída não há, e a realidade é limítrofe ao oxigênio que define, a entoar “My Way”, anos-luz da autoridade para, incapaz de compreender que, primeiro, são os bois; depois, o carro — rangido minimalista que materializa a ilusória marcação contínua do extinguir-se.

Fantoche (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Fantoche Emmanuel Mirdad Se a vida me fosse conto de fadas, qual dos meus sapos daria o beijo de plástico? Se a vida me fosse cinema de Hollywood, que raciocínio escaparia de tal narrativa e estrutura imbecil? Se a vida me fosse apocalipse, a quem eu apontaria o dedo à besta da peste? Se a vida me fosse sem Picasso, quem teria outros traços a refletir a podridão degenerativa da frágil forma humana? Se a vida me fosse drogas e farras, que relevância haveria em mais um suicida? Se a vida me fosse dinheiro e poder, que destino teria o meu ego, ridicularizado pela fragilidade do preço de qualquer um? Se a vida não fosse tão explicada, o que seria de mim sem os alvos das minhas críticas inúteis e necessárias apenas para gastar a saliva que me sufoca? Eu não tenho dúvidas de que, se a vida me fosse, eu seria porra nenhuma. E é por isso que canto e faço sexo; é para fingir que controlo a força que me domina e me faz de peão, another brick in the wall . Se a vida ...

Nu, tempestade (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Nu, tempestade Emmanuel Mirdad Nunca estive tão nu; desmonto-me em pedaços desconexos do quebra-cabeça que eu não montei — a autopiedade agora me esfacela. Há um cão no chão que me acolhe; meu fiel me fez feliz e morreu — sempre ouço os seus suplícios nas noites em que berro ingratidão. Quem sou eu, assim, sem a sede que fortalece, sem a audácia destemida do idiota, sem a frágil sensação de que tudo está bem? O saber que construí se transformou. A humildade empobreceu os títulos. A minha glória me envergonha e me cala, e fez uma cratera no rim. Quem sou eu, assim, sem os grilhões e a gravidade da incerteza, sem as fugas que tanto forjei? Como faz falta o ego que cala. Atordoado por estar em tempestade, destruí as lembranças que me ensinavam a não subtrair os erros que equilibram a tendência de se achar estupidamente sábio. Quem sou eu, assim, imundo pela descoberta de que não há sentido? Não estou fixo nem pássaro — e agora, o que irei concretar? Nu, sem c...

Homem-formiga (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Homem-formiga Emmanuel Mirdad Desde pequeno, resolvo as tarefas dos outros. O último a apagar a luz. Lembro-me de um slogan que criei para a primeira produtora que tive: “A gente resolve”. E não é nenhum bicho de sete cabeças resolver, nem lida para especiais. Não tenho, absolutamente, nenhum dom especial que seja o responsável pela minha gana em resolver; é apenas compromisso, a profissão à frente do ego, o trabalho acima da vaidade, a engrenagem primeiro do que a dor. A responsabilidade tem que vencer a preguiça. A coragem tem de assumir o que deve ser feito acima do que você deseja. O método, o planejamento, o império da razão tem de vencer a artimanha, o comodismo, o corporativismo, a corrupção. Simples: você é uma formiga. Trabalhe. Cumpra a sua função. É o único sentido; o resto é distração. Desnecessária.

Livrai-nos do Botox, Matusalém! (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Livrai-nos do Botox, Matusalém! Emmanuel Mirdad Comprar e usar drogas para manipular a idade, grampear a face em um molde plástico despersonalizado [ou de produção em série] — demonização facial, a falácia que carneira os tontos. Socorro! Livrai-nos do Botox, Matusalém! Escolho ficar com as pelancas e as rugas que o tempo me premiou, as olheiras de roxo profundo, o nariz bola de sinuca, as demais marcas que fazem de mim eu mesmo, sobrevivente marcado por histórias impagáveis, como deve ser o humano — humildemente disposto à rotina biológica do apodrecer. Íntegro.

Escrever é doloroso demais (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Escrever é doloroso demais Emmanuel Mirdad Exausto, define. Três horas para uma página. Agora, compreendo o motivo do escritor Mayrant Gallo ressaltar o mérito do escritor tartaruga. Desacelerar é preciso. Envelhecer a trama em barris de carvalho. Lapidar até a última aresta das palavras. Encontrar, sem acaso, o fio de ouro da concisão ante o caos do palheiro das ideias possíveis. Respeitar a tradição e se curvar, consciente da mediocridade evidente, de que nunca, nunca, nunca poderá ser comparado a um gigante. Nem é preciso, pois o que interessa é tentar não falhar, seguindo o rumo que foi traçado pelos cânones. Agora, é a sua vez de continuar a estrada de terra, no ermo, sozinho. Escrever é doloroso demais.

Gado bom é no meu prato (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Gado bom é no meu prato Emmanuel Mirdad Para essa poesia dos homens de barro, ordeno que chova, derreta e desfigure todos os encantamentos baratos de uma atmosfera farsante. O urbano impera e, há tempos, digeriu a inércia de quem saúda o passado transposto. Já era, já foi, acabou. E que as mãos cerrem as páginas inúteis que emporcalham as prateleiras quase ausentes. Eu escrevo para mim e enterro você, que nunca me lerá.

Quando escrevo, é assim (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Quando escrevo, é assim Emmanuel Mirdad Sozinho, no menor cômodo do apartamento 703-B, com o som do computador ligado à frente; atrás, a estante com os livros do meu apreço. Ao pé da cadeira, a garrafa de água mineral cheia de água do filtro de barro. Sem café, cigarros ou álcool, escrevo por parágrafos e pauso. Viro a cadeira e toco nos meus livros: Nelson Rodrigues, Hélio Pólvora, Mayrant Gallo, Pepetela, Tchekhov, Machado, Clarice e os outros — o tato me faz refletir sobre o que devo cortar ou acrescentar. Volto-me ao monitor, viro a cabeça à esquerda, e vejo o Shopping Itaigara pela janela; mas os olhos seguem pelo horizonte, até avistar, bem longe, o que acredito ser as majestosas palmeiras da Fazenda Grande do Retiro. Daí, o som do Sigur Rós ou Hammock, Pink Floyd, Radiohead, ou de algum grupo de post-rock , vibra-me de volta ao texto, de volta à lápide. Quando escrevo, é assim.

Não partam as minhas pulseiras (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Não partam as minhas pulseiras Emmanuel Mirdad Nada do que produzi por aqui, em papéis digitais ou impressos, é destinado à fala ou ao teatro. Quero apenas o silêncio dos olhos cravados em digestão, perpassados por um soco no estômago, a cada sílaba, e uma cruel ducha fria de espinhos pontiagudos, a passear por cada fluxo de sensações, em busca do raro choque da reflexão — ou não. Portanto, caro palhaço ou poeta ou bêbado ou chato, não amplie a sua audácia por aplausos, em cima do que trato por aqui, os meus enquadros. Que você fique bem distante dos meus escárnios — dedicados, apenas, a quem se empanturra no estático êxtase do contemplar na solidão.

Enquanto (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Enquanto Emmanuel Mirdad Seja modesto e destoe assim, a se limitar apenas em cuidar da sua vida, sem cuspir no prato em que comeu. Tente dizer “eu me amo” calado, o que é anormal. E ninguém precisa saber do que obviamente já se sabe: você vai passar, em breve, e eu ficarei aqui, por enquanto.

Espreita (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Espreita Emmanuel Mirdad A TV está desligada. Na sala, o escuro. Duas janelas acesas lá fora, vinte para as quatro da manhã, que é hoje, ainda, porque não dormi — nem posso. O peito ardeu estranho. Só, tenho medo de fechar os olhos e não abrir mais como Emmanuel Mirdad. Aliás, quando morto, quem será eu? — o meu lar é aqui; ademais, não interessa. Ferreira Gullar na cabeceira, que ainda me diz tudo, mesmo sem luz. Os meus ossos estão arrepiados; não quero dormir à espreita do desconhecido.

Chora, guitarra (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Chora, guitarra Emmanuel Mirdad                                  Para David Gilmour,                                     o único guitarrista                                      que me fez chorar. O fluido rosa escorre tímpanos adentro, dissoluto em vibrações hipnóticas; derrete a matéria compactada pela equação e frita as conexões, confortavelmente enigmático. Eu vou e choro, ao me desprender. Ali, do lado de fora, há alguém que eu sou apenas quando chapo de som e olhos cerrados. David Gilmour finaliza o solo. Mas cadê o solo? Não autorize o meu pouso, estou às avessas, de volta da volta à vida, repleto de esperanças contra o muro.

Microtons de sóis (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Microtons de sóis Emmanuel Mirdad                                          ouvindo Smetak   Dois mil e onze. Ando sobre os pedregulhos do Pelourinho, a ouvir, ao longe, a vibração prenha de um samba reggae tocado por jovens — que é o nosso blues , célebre por não inovar o que já é consagrado e novo —, arrodeado da gente nossa e dos outros, panos, cores e a miséria dos invisíveis zumbis da paisagem. Aclimatado pela xerox apastelada dos clichês de outrora, quero me sentir inserido e partícipe da baianidade complô, mas não; o que me finca na baía de todos é a fração do legado de um genial suíço pluralista que, avançando em mim, além da sua obra expansiva, microtoniza o meu coração, indiretamente e cúmplice. Eu sou baiano e passo a dialogar os sentimentos em microtons, para desafinar o padrão ocidental do amor e sintonizar a paleta univ...

Caraíva em Cachoeira (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Caraíva em Cachoeira Emmanuel Mirdad Caraíva surge como assunto numa mesa de bar em Cachoeira. O calendário tenta registrar, e a sincronia dispensa a formalidade frágil das convenções, para anunciar a conexão entre dois supostos estranhos que estranhamente concordam que o melhor de Caraíva é a Praia do Espelho. Como se a traquinagem fosse antecipar a felicidade que virá, quando ambos mergulharem um no reflexo do outro, meses após, meses antes, meses agora olham-se pela primeira vez com a liberdade da senha: “Praia do Espelho”. A espelhar o caminho que zera o mundo, pois tudo é cenário, só há o xote e o abraço, o toque, os corpos juntos como o encontro havia previsto, desde sempre. A respiração desse casal é parte da dança de Deus, corporificada com todas as raízes necessárias à fluidez do amor. Pois as casinhas coloridas, o pôr do sol na foz do rio, a vibe das pessoas e da natureza, bem como a história viva dos casarões, a energia das gerações de negras e...

O baobá como trevo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O baobá como trevo Emmanuel Mirdad A porta azul de um casarão em Cachoeira hoje dá acesso a um restaurante que serve aos turistas da festa literária: gente que degusta a permanência desse espaço na história, a saga de uma cidade-monumento; há vida, e vibra como ontem, o casarão acessado por outros nomes e o mesmo sonho de experimentar o que impele o pulso e justifica o oxigênio: quereres, afeto, esperança; há sempre o desejo e as circunstâncias dos obstáculos a impedir alguém que quer ser livre, alguém que quer ser amado, e a dor, que constrói paredes e contém o salto, continua a cercear, limitar, iludir o sofrimento que persiste por gerações, atravessa os séculos e alcança o degrau na entrada da porta azul; a mulher do sorriso de esgrima está de pé, em frente ao homem do tamanho de um baobá, a revelar o desconforto no polegar da canhota que escreve o seu nome tão prenhe de si, uma nova mulher em aclamação e a dor, que irradia do dedo ao braço e nenhum méd...

A festa do coração (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A festa do coração Emmanuel Mirdad Milhares de pessoas pelas ruas de Cachoeira, a oitava edição da festa literária movimenta o Recôncavo Baiano. Turistas, estudantes, trabalhadores, uma multidão de desejos; a fila imensa, com os olhos cheios d’água, para encontrar a autora homenageada, imortal da literatura negra — e a tevê só quer saber do maior nome português da atualidade. O evento, fundamental para a economia da cidade e para a cultura do país, atinge o máximo de público, o pico de popularidade, a ponto de estrear no Jornal Nacional uma matéria com minutos preciosos e as marcas expostas dos patrocinadores (e da produtora, também). A imprensa, presente; os autores, contentes — imagine o tamanho da responsabilidade e o cântico da satisfação do homem que é o coordenador geral e sócio criador dessa farra? Por quatro dias, ele está no topo. Estaria, visto de fora. Contudo, o homem do tamanho de um baobá está com os pés firmados no massapê; ele toma uma deci...

Oel ngati kameie (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Oel ngati kameie Emmanuel Mirdad A ser franco e honesto, eu penso muito em você. Tenho impulsos, diversos convites que brotam ansiosos a serem feitos a você. Parece que a vida, de repente, livrou-me das amarras do automático fazer, e brota um bilhão de possibilidades. Ser feliz; agora existe e pulsa em mim uma enorme necessidade de viver o prazer, as boas coisas, risadas, gozos, abraços e carinhos entupidos de uma química voraz que preenche os buracos dos traumas, com um bem-estar viril e preparado a consumar o que os corpos estão predestinados a explodir: sede, fome, paixão, anterior ao pensamento, inerente ao desejo primal. Eu quero você, próxima e constante, a sorrir e compartilhar, interagir, aprender, compreender, colecionar piadas e segredos internos, ironizar e debochar dos pequenos erros como dois moleques. E você me quer, perto e constante, para aventurar a rotina nas alternativas do bem viver que os comuns não enxergam. Eu desejo o seu corpo simé...

Espiando os velhos (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Espiando os velhos Emmanuel Mirdad O meu pai me ensinou os fluidos do vento; a minha mãe, a urgência dos anseios; os dois, a fusão apoteótica de antípodas, que anulam os polos e refazem o magnetismo, a subverter a lógica à origem da falha, imperando a sua unidade no perpétuo amor belíssimo. E, de tudo que observo e tento absorver, admiro a certeza que ambos compartilham, o pacto secreto, enraizado pela devoção: para onde um for, o outro ficará aqui, aguardando. O amor é o lar.

Sandálias de aço (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Sandálias de aço Emmanuel Mirdad Quero o amor para me pertencer a um lugar e deixar de pairar na existência como um fantasma de carne e bucho, a observar os demais condenados apenas para sacramentar, definir e inventar o maior balaio possível de diferenças e escárnios. Quero o amor para calçar sandálias de aço, tonelar os meus pés ao espaço, ferir a minha pele e jorrar a febre que tensiona e impele o corpo a se morder e se justificar vivo.

A rainha caramelo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A rainha caramelo Emmanuel Mirdad Ela é feita de tantas misturas, heranças, afetos e caminhos. Nos genes, o patrimônio da excelência mestiça, a criação sublime do acaso, o tesouro da exuberância das raças que formam o Brasil, o tom caramelo na pele, que adoça os meus olhos e lábios e me recorda que o sol nasce duas vezes: no céu, quando ela abre o sorriso do tamanho de cada felicidade humana; e dentro do meu coração, quando os seus olhos me iluminam com desejo e alegria. A grande ironia da vida arruma mais um jeitinho de surpreender: no Día de los Muertos , em que bilhões de terráqueos relembram os seus amores que se encantaram, eis que a sincronia põe, nesse balão frágil que é o mundo, uma mulher gigante de sentimentos & aptidões, tão bela por dentro quanto por fora, a rainha caramelo que provoca: no dia dos que se findam, a existência se impõe como célebre, pois é o aniversário da majestade; ao fim, a vida transpõe a morte — para além do desconhecido...

Não valer (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Não valer Emmanuel Mirdad O amor é para valer nada, está muito além de qualquer preço ou prêmio, nunca será objeto de troca ou intercâmbio, não há consciência de importância ou referência, absolutamente não sobrevive à dependência alguma. O amor não possui. Pode ser um sublime estado, raríssimo instante em que flutuamos, alienígenas. Impossível.

A mendiga e eu (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A mendiga e eu Emmanuel Mirdad Vestia uma regata esfarrapada, um short furado, sandálias de dedo e meias. Dois dentes na boca, cáries e brocas negras, e a baba seca de quem só bebe cachaça, da manhã à noite, cigarros e cola. Uma mulher, cicatrizes. Pediu-me dinheiro e me paquerou, sedutora; os seus olhos subitamente postos a prumo copiaram a minha biologia e me creditaram apto. Mesmo com os dois muros, Berlim e Palestina, além dos cães e grades e balas de Guantánamo a nos distanciar em galáxias longínquas, ela rompeu a neurose profunda que a define e me quis, apenas como um homem viril e lasso, que poderia lhe fecundar e gerar mais um miserável — pois quem mendiga sou eu.

Carfetal (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Carfetal Emmanuel Mirdad Vou me jogar na avenida, escorrer em bicas, berrar, riscar o asfalto, apagar-me na massa, ser o bloco de um só pulso, que cordeira atrás do grave que hipnotiza e do agudo que faz coçar os lábios, estalo de vida cumprido nos beijos que darei nas mulheres sem nome, só carne, suor e saliva. Vou ali, por quase uma semana, esquecer-me de quem represento, desmascarar o meu óbvio, largar-me ao léu, ao som, ao movimento que impele: vá para a frente, até se acabar; acabe-se, que amanhã tem mais. Como já disseram, não me conte dos problemas; quero reencontrar Moraes, retroalimentar-me no foguete, quero ser de tantas para afirmar que não sou de ninguém. E o que me importa, de fato, está vazio e longínquo. _____ “Foguetão” foi um trio elétrico comandado pela banda instrumental Retrofoguetes no carnaval de Salvador (N. do A.)