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Mostrando postagens de outubro, 2026

Depende (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Depende Emmanuel Mirdad Antes de ser brasileiro, eu sou nordestino, mas sirvo à pátria o papel de primogênito, oriundo do leste mar, fincado em paisagens áridas e heranças que compreendo e compartilho. Antes de ser brasileiro, eu sou terráqueo a girar neste balão frágil, a forjar que o horizonte é plano, e os sonhos a circular em uma pertença múltipla glocalizada; o Mali, no mar da Grécia, deságua em São Salvador. Antes de ser brasileiro, eu sou uma incógnita da Matrix, apenas mais um, a fruir o enigma, conectado à engrenagem, disposto a acreditar no que me mantém vivo e respirar um pouco mais, a sustentar o sentido que entretém Deus.   Antes de ser brasileiro, eu sou você.

Construção (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Construção Emmanuel Mirdad Acredito em fórmulas do meu próprio dicionário e me mantenho distante de todos que eu fui — a secreta mensagem do silêncio. Não construo mais falsos devaneios; agora, eu sangro, imerso na pura razão de quem aprendeu a se equilibrar. Cataliso os sonhos na substância que almejo. Ontem à noite, dissequei charadas como um herói. Quem nunca quis ser um herói? Não espalho mais a minha muda agonia. Vivo em uma outra surrealidade. A minha dor teve fim.

O sorriso (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O sorriso Emmanuel Mirdad I Se, algum dia, eu estiver na profunda noite escura, dentro de um bote, sem remo nem rumo, sobrevivente de um naufrágio de mim, acossado na quina por um tigre atento, mas adormecido, e o medo esmorecer o último vestígio da permanência, a romper a comunicação com o sagrado, ainda assim, não estarei só; fecharei os meus olhos e trarei a imagem do sorriso da mulher que eu amo, que é parte do melhor que vivenciei, e surgirá, na química transcendental da transmutação, como um farol em raios de luz, fincado ao chão safo, a traduzir a charada do enigma em um caminho iluminado; é por aí que eu seguirei, abastecido de esperança, a expressão da felicidade a inundar a noite escura, a raiar o parto do sol, o reencontro do encanto, sem quina, remo, tigre, livre do bote, vou deslizar, por cima da água, suavemente salvo. II O sorriso da mulher que eu amo é uma potência, uma supernova, o design da matéria humana que coincide com a álgebra do di...

Iemanjá (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Iemanjá Emmanuel Mirdad Ela manja de mim, salga os meus dissabores, enruga as pontas e as dobras, esfolia e me impregna de areia, para firmar a certeza de que, ali, o mar é só de passagem, e o chão é por onde devo prosseguir. Por mais que eu queira ser enfeitiçado e deitar com ela, no fim, devolve-me, cuspido de ondas, salgado e morgado. É na vida que devo insistir.

Antes tocava Gonzaga (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Antes tocava Gonzaga Emmanuel Mirdad A alisar a testa suada, cheia de marcas, ela limpa os olhos, comprometidos pela vertigem. O calor intenso quase quebra a coragem, mas os passos continuam firmes. Há muitas lágrimas, forçadas pelo calafrio soturno do adeus sem planejamento nem alternativa; lágrimas que não escorrem nos rostos dos pequenos — as crianças, sem água para beberem, não querem perder as gotas pelos olhos. Os ossos estão magros. Na época da escassez braba no sertão, de tempo em tempo, vinham as cestas e um dinheirinho, mas os políticos locais roubaram demais, e a notícia passou a ser outra nas capitais; os caridosos de plantão esqueceram que a seca não é moda, e a morte é sempre certa. A paciência acabara com os roncos do estômago; para não plantar maconha, ela parte com o marido e a família rumo ao litoral — e os jatos dos deputados “singram” o céu de azul implacável. A esperança, zombeteira descabida, alimentada pela fé dos mais sofridos, torn...

Cuscuz (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Cuscuz Emmanuel Mirdad Todo dia, de manhã, eu como; quente ou requentado, seco, farelado, quase a panela toda no prato fundo, amarelo, cimentado por duas fatias de mussarela, e a boca apressada de não saborear; tal qual escovar os dentes, é só para ocupar espaço, entupir o bucho — sem café, manhã. Comedor de cuscuz e inhame, participo do Nordeste que me situa e enraíza; aqui é o lugar a que eu pretensamente pertenço, o pêndulo que me badala cangaço e trabalho, lar e gene da gente do sol e salitre — mas é por mim que nunca cesso e prossigo, avexado e alumiado, cabra macho.

Mafuá (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Mafuá Emmanuel Mirdad Eu sou negro, eu sou branco, eu não estou acromático. Eu sou pardo, amarelo, multicor. Nordestino, litorâneo, de São Salvador. Glocalizado, sertãopolita, provocador. Autoafirmo a raça humana no meu diagnóstico; a cor de pele é só um mero detalhe genético. A minha identidade é um bagunçaço estrambólico: ajaiô, anarriê, bundalelê. No fim, qualquer um escorre num fio vermelho de sangue. Eu toco samba- rock , faço groove e danço xote; psicodelia em Carnaval, miscigenado caos. Incorporo tendências, transito em simbiose; multifacetado delírio tropical. O que me incomoda é o padronizar da casca. Branco, negro, pardo, e você, é o quê? Tem certeza de que é isso mesmo? É preciso suprir as reais carências. No fim, qualquer um escorre num fio vermelho de sangue.

O milagre (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O milagre Emmanuel Mirdad Eu sou um cego, mas enxergo os segredos; a dissimulação não ultrapassa as minhas pálpebras. Na escuridão, o que vibra desfaz o enigma. Não me importo se a dúvida me desafia por todo o caminho. Na minha tela tênue, desenho garranchos bêbados; não sei o que é um traço, mas posso suspirá-lo. Adivinho formas que não se encontram na matéria; é o brincar de Deus, criando algo que não serve de nada — audácia. Eu toco a pele e sinto a máscara; conheço quem nunca diz a verdade — estão com olhos de medo procurando a saída. Eu vejo com as mãos o cheiro de um gosto podre, o suor quente do mentiroso. Mas o que é belo transparece, humildemente. O silêncio das cores me traz paz e graça, quando eu sinto a manhã quebrando as minhas pálpebras, quando o calor do dia insiste que eu sobreviva. Eu verei o sol por entre as nuvens densas. Eu verei o sol perfurando os olhos num milagre de um voo cego, o canto de um assum preto.

El’eu (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui El’eu Emmanuel Mirdad O mal que há em mim não me deixa, não me trai, não me fascina, mas se faz necessário. É o vigor, o que sustenta a cobiça, o que raciocina, interage e negocia, o que violenta e não desperdiça. O mal que há em mim é o disfarce volátil, razão e método que mascaram o engano. É o que arrebata, arregaça e anoitece; o alimento que impulsiona o equilíbrio, entre o caos e a abonança. O mal que há em mim tenta me convencer a ser o que for, para ter sempre o controle. Mas não consegue; o seu lugar é o subterrâneo, subalterno, escondido e camuflado, dosado na medida em que preciso. Há, em mim, um ele-eu; além de mim, o mal e Deus. Há, em mim, a luz e o breu; além de mim, só eu.

Entre a forca e a pólvora (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Entre a forca e a pólvora Emmanuel Mirdad Eu sou um ser definido e frágil, preciso dos meus sonhos a cada instante e as minhas escolhas são únicas e letais: se falho, despedaço; se ganho, desobedeço. Vou às festas e me sinto agulha; ninguém pode se aproximar de mim — o meu humor é cáustico, e eu sou discreto e perigoso. Apenas não quero ser mais um idiota e conversar bobagens, futricas, outra hiena a lascar seda e a lamber botas. As minhas palavras são curtas e poesias. “O que foi que aconteceu de tão medonho?” — alguém quer me vasculhar. Penso, mas não respondo: “Tentarei existir muito longe daqui. Tentarei existir, apenas”. Vou viver longe — existir, insistir. Viverei lá bem longe — resistir, persistir. Eu tive um amigo que me trouxe o suicídio; estava tão ausente, que me pareceu gênio. Disse-me que tinha bebido veneno e que a sua carne tremia, ansiosa, por descanso. Ingênuo... Aprisionado, com a chave nas mãos, conheceu a podridão do fracasso e da glóri...

O rangido (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O rangido Emmanuel Mirdad Mal fiz trinta, mas já carrego a solidão dos sessenta a dobrar o meu não-pertencimento, a duplicar as negativas apressadas às soluções, a alternar, falsamente, a armadilha implícita do herói e o fascínio panaca do mártir pelo pedestal, que faz dos passos desfile de uma alegoria de gente pretensamente à parte do lugar comum, sendo que saída não há, e a realidade é limítrofe ao oxigênio que define, a entoar “My Way”, anos-luz da autoridade para, incapaz de compreender que, primeiro, são os bois; depois, o carro — rangido minimalista que materializa a ilusória marcação contínua do extinguir-se.

Fantoche (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Fantoche Emmanuel Mirdad Se a vida me fosse conto de fadas, qual dos meus sapos daria o beijo de plástico? Se a vida me fosse cinema de Hollywood, que raciocínio escaparia de tal narrativa e estrutura imbecil? Se a vida me fosse apocalipse, a quem eu apontaria o dedo à besta da peste? Se a vida me fosse sem Picasso, quem teria outros traços a refletir a podridão degenerativa da frágil forma humana? Se a vida me fosse drogas e farras, que relevância haveria em mais um suicida? Se a vida me fosse dinheiro e poder, que destino teria o meu ego, ridicularizado pela fragilidade do preço de qualquer um? Se a vida não fosse tão explicada, o que seria de mim sem os alvos das minhas críticas inúteis e necessárias apenas para gastar a saliva que me sufoca? Eu não tenho dúvidas de que, se a vida me fosse, eu seria porra nenhuma. E é por isso que canto e faço sexo; é para fingir que controlo a força que me domina e me faz de peão, another brick in the wall . Se a vida ...

Nu, tempestade (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Nu, tempestade Emmanuel Mirdad Nunca estive tão nu; desmonto-me em pedaços desconexos do quebra-cabeça que eu não montei — a autopiedade agora me esfacela. Há um cão no chão que me acolhe; meu fiel me fez feliz e morreu — sempre ouço os seus suplícios nas noites em que berro ingratidão. Quem sou eu, assim, sem a sede que fortalece, sem a audácia destemida do idiota, sem a frágil sensação de que tudo está bem? O saber que construí se transformou. A humildade empobreceu os títulos. A minha glória me envergonha e me cala, e fez uma cratera no rim. Quem sou eu, assim, sem os grilhões e a gravidade da incerteza, sem as fugas que tanto forjei? Como faz falta o ego que cala. Atordoado por estar em tempestade, destruí as lembranças que me ensinavam a não subtrair os erros que equilibram a tendência de se achar estupidamente sábio. Quem sou eu, assim, imundo pela descoberta de que não há sentido? Não estou fixo nem pássaro — e agora, o que irei concretar? Nu, sem c...

Homem-formiga (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Homem-formiga Emmanuel Mirdad Desde pequeno, resolvo as tarefas dos outros. O último a apagar a luz. Lembro-me de um slogan que criei para a primeira produtora que tive: “A gente resolve”. E não é nenhum bicho de sete cabeças resolver, nem lida para especiais. Não tenho, absolutamente, nenhum dom especial que seja o responsável pela minha gana em resolver; é apenas compromisso, a profissão à frente do ego, o trabalho acima da vaidade, a engrenagem primeiro do que a dor. A responsabilidade tem que vencer a preguiça. A coragem tem de assumir o que deve ser feito acima do que você deseja. O método, o planejamento, o império da razão tem de vencer a artimanha, o comodismo, o corporativismo, a corrupção. Simples: você é uma formiga. Trabalhe. Cumpra a sua função. É o único sentido; o resto é distração. Desnecessária.

Livrai-nos do Botox, Matusalém! (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Livrai-nos do Botox, Matusalém! Emmanuel Mirdad Comprar e usar drogas para manipular a idade, grampear a face em um molde plástico despersonalizado [ou de produção em série] — demonização facial, a falácia que carneira os tontos. Socorro! Livrai-nos do Botox, Matusalém! Escolho ficar com as pelancas e as rugas que o tempo me premiou, as olheiras de roxo profundo, o nariz bola de sinuca, as demais marcas que fazem de mim eu mesmo, sobrevivente marcado por histórias impagáveis, como deve ser o humano — humildemente disposto à rotina biológica do apodrecer. Íntegro.

Escrever é doloroso demais (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Escrever é doloroso demais Emmanuel Mirdad Exausto, define. Três horas para uma página. Agora, compreendo o motivo do escritor Mayrant Gallo ressaltar o mérito do escritor tartaruga. Desacelerar é preciso. Envelhecer a trama em barris de carvalho. Lapidar até a última aresta das palavras. Encontrar, sem acaso, o fio de ouro da concisão ante o caos do palheiro das ideias possíveis. Respeitar a tradição e se curvar, consciente da mediocridade evidente, de que nunca, nunca, nunca poderá ser comparado a um gigante. Nem é preciso, pois o que interessa é tentar não falhar, seguindo o rumo que foi traçado pelos cânones. Agora, é a sua vez de continuar a estrada de terra, no ermo, sozinho. Escrever é doloroso demais.

Gado bom é no meu prato (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Gado bom é no meu prato Emmanuel Mirdad Para essa poesia dos homens de barro, ordeno que chova, derreta e desfigure todos os encantamentos baratos de uma atmosfera farsante. O urbano impera e, há tempos, digeriu a inércia de quem saúda o passado transposto. Já era, já foi, acabou. E que as mãos cerrem as páginas inúteis que emporcalham as prateleiras quase ausentes. Eu escrevo para mim e enterro você, que nunca me lerá.

Quando escrevo, é assim (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Quando escrevo, é assim Emmanuel Mirdad Sozinho, no menor cômodo do apartamento 703-B, com o som do computador ligado à frente; atrás, a estante com os livros do meu apreço. Ao pé da cadeira, a garrafa de água mineral cheia de água do filtro de barro. Sem café, cigarros ou álcool, escrevo por parágrafos e pauso. Viro a cadeira e toco nos meus livros: Nelson Rodrigues, Hélio Pólvora, Mayrant Gallo, Pepetela, Tchekhov, Machado, Clarice e os outros — o tato me faz refletir sobre o que devo cortar ou acrescentar. Volto-me ao monitor, viro a cabeça à esquerda, e vejo o Shopping Itaigara pela janela; mas os olhos seguem pelo horizonte, até avistar, bem longe, o que acredito ser as majestosas palmeiras da Fazenda Grande do Retiro. Daí, o som do Sigur Rós ou Hammock, Pink Floyd, Radiohead, ou de algum grupo de post-rock , vibra-me de volta ao texto, de volta à lápide. Quando escrevo, é assim.

Não partam as minhas pulseiras (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Não partam as minhas pulseiras Emmanuel Mirdad Nada do que produzi por aqui, em papéis digitais ou impressos, é destinado à fala ou ao teatro. Quero apenas o silêncio dos olhos cravados em digestão, perpassados por um soco no estômago, a cada sílaba, e uma cruel ducha fria de espinhos pontiagudos, a passear por cada fluxo de sensações, em busca do raro choque da reflexão — ou não. Portanto, caro palhaço ou poeta ou bêbado ou chato, não amplie a sua audácia por aplausos, em cima do que trato por aqui, os meus enquadros. Que você fique bem distante dos meus escárnios — dedicados, apenas, a quem se empanturra no estático êxtase do contemplar na solidão.

Enquanto (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Enquanto Emmanuel Mirdad Seja modesto e destoe assim, a se limitar apenas em cuidar da sua vida, sem cuspir no prato em que comeu. Tente dizer “eu me amo” calado, o que é anormal. E ninguém precisa saber do que obviamente já se sabe: você vai passar, em breve, e eu ficarei aqui, por enquanto.

Espreita (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Espreita Emmanuel Mirdad A TV está desligada. Na sala, o escuro. Duas janelas acesas lá fora, vinte para as quatro da manhã, que é hoje, ainda, porque não dormi — nem posso. O peito ardeu estranho. Só, tenho medo de fechar os olhos e não abrir mais como Emmanuel Mirdad. Aliás, quando morto, quem será eu? — o meu lar é aqui; ademais, não interessa. Ferreira Gullar na cabeceira, que ainda me diz tudo, mesmo sem luz. Os meus ossos estão arrepiados; não quero dormir à espreita do desconhecido.

Chora, guitarra (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Chora, guitarra Emmanuel Mirdad                                  Para David Gilmour,                                     o único guitarrista                                      que me fez chorar. O fluido rosa escorre tímpanos adentro, dissoluto em vibrações hipnóticas; derrete a matéria compactada pela equação e frita as conexões, confortavelmente enigmático. Eu vou e choro, ao me desprender. Ali, do lado de fora, há alguém que eu sou apenas quando chapo de som e olhos cerrados. David Gilmour finaliza o solo. Mas cadê o solo? Não autorize o meu pouso, estou às avessas, de volta da volta à vida, repleto de esperanças contra o muro.

Microtons de sóis (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Microtons de sóis Emmanuel Mirdad                                          ouvindo Smetak   Dois mil e onze. Ando sobre os pedregulhos do Pelourinho, a ouvir, ao longe, a vibração prenha de um samba reggae tocado por jovens — que é o nosso blues , célebre por não inovar o que já é consagrado e novo —, arrodeado da gente nossa e dos outros, panos, cores e a miséria dos invisíveis zumbis da paisagem. Aclimatado pela xerox apastelada dos clichês de outrora, quero me sentir inserido e partícipe da baianidade complô, mas não; o que me finca na baía de todos é a fração do legado de um genial suíço pluralista que, avançando em mim, além da sua obra expansiva, microtoniza o meu coração, indiretamente e cúmplice. Eu sou baiano e passo a dialogar os sentimentos em microtons, para desafinar o padrão ocidental do amor e sintonizar a paleta univ...

Caraíva em Cachoeira (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Caraíva em Cachoeira Emmanuel Mirdad Caraíva surge como assunto numa mesa de bar em Cachoeira. O calendário tenta registrar, e a sincronia dispensa a formalidade frágil das convenções, para anunciar a conexão entre dois supostos estranhos que estranhamente concordam que o melhor de Caraíva é a Praia do Espelho. Como se a traquinagem fosse antecipar a felicidade que virá, quando ambos mergulharem um no reflexo do outro, meses após, meses antes, meses agora olham-se pela primeira vez com a liberdade da senha: “Praia do Espelho”. A espelhar o caminho que zera o mundo, pois tudo é cenário, só há o xote e o abraço, o toque, os corpos juntos como o encontro havia previsto, desde sempre. A respiração desse casal é parte da dança de Deus, corporificada com todas as raízes necessárias à fluidez do amor. Pois as casinhas coloridas, o pôr do sol na foz do rio, a vibe das pessoas e da natureza, bem como a história viva dos casarões, a energia das gerações de negras e...

O baobá como trevo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui O baobá como trevo Emmanuel Mirdad A porta azul de um casarão em Cachoeira hoje dá acesso a um restaurante que serve aos turistas da festa literária: gente que degusta a permanência desse espaço na história, a saga de uma cidade-monumento; há vida, e vibra como ontem, o casarão acessado por outros nomes e o mesmo sonho de experimentar o que impele o pulso e justifica o oxigênio: quereres, afeto, esperança; há sempre o desejo e as circunstâncias dos obstáculos a impedir alguém que quer ser livre, alguém que quer ser amado, e a dor, que constrói paredes e contém o salto, continua a cercear, limitar, iludir o sofrimento que persiste por gerações, atravessa os séculos e alcança o degrau na entrada da porta azul; a mulher do sorriso de esgrima está de pé, em frente ao homem do tamanho de um baobá, a revelar o desconforto no polegar da canhota que escreve o seu nome tão prenhe de si, uma nova mulher em aclamação e a dor, que irradia do dedo ao braço e nenhum méd...

A festa do coração (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A festa do coração Emmanuel Mirdad Milhares de pessoas pelas ruas de Cachoeira, a oitava edição da festa literária movimenta o Recôncavo Baiano. Turistas, estudantes, trabalhadores, uma multidão de desejos; a fila imensa, com os olhos cheios d’água, para encontrar a autora homenageada, imortal da literatura negra — e a tevê só quer saber do maior nome português da atualidade. O evento, fundamental para a economia da cidade e para a cultura do país, atinge o máximo de público, o pico de popularidade, a ponto de estrear no Jornal Nacional uma matéria com minutos preciosos e as marcas expostas dos patrocinadores (e da produtora, também). A imprensa, presente; os autores, contentes — imagine o tamanho da responsabilidade e o cântico da satisfação do homem que é o coordenador geral e sócio criador dessa farra? Por quatro dias, ele está no topo. Estaria, visto de fora. Contudo, o homem do tamanho de um baobá está com os pés firmados no massapê; ele toma uma deci...

Oel ngati kameie (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Oel ngati kameie Emmanuel Mirdad A ser franco e honesto, eu penso muito em você. Tenho impulsos, diversos convites que brotam ansiosos a serem feitos a você. Parece que a vida, de repente, livrou-me das amarras do automático fazer, e brota um bilhão de possibilidades. Ser feliz; agora existe e pulsa em mim uma enorme necessidade de viver o prazer, as boas coisas, risadas, gozos, abraços e carinhos entupidos de uma química voraz que preenche os buracos dos traumas, com um bem-estar viril e preparado a consumar o que os corpos estão predestinados a explodir: sede, fome, paixão, anterior ao pensamento, inerente ao desejo primal. Eu quero você, próxima e constante, a sorrir e compartilhar, interagir, aprender, compreender, colecionar piadas e segredos internos, ironizar e debochar dos pequenos erros como dois moleques. E você me quer, perto e constante, para aventurar a rotina nas alternativas do bem viver que os comuns não enxergam. Eu desejo o seu corpo simé...

Espiando os velhos (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Espiando os velhos Emmanuel Mirdad O meu pai me ensinou os fluidos do vento; a minha mãe, a urgência dos anseios; os dois, a fusão apoteótica de antípodas, que anulam os polos e refazem o magnetismo, a subverter a lógica à origem da falha, imperando a sua unidade no perpétuo amor belíssimo. E, de tudo que observo e tento absorver, admiro a certeza que ambos compartilham, o pacto secreto, enraizado pela devoção: para onde um for, o outro ficará aqui, aguardando. O amor é o lar.

Sandálias de aço (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Sandálias de aço Emmanuel Mirdad Quero o amor para me pertencer a um lugar e deixar de pairar na existência como um fantasma de carne e bucho, a observar os demais condenados apenas para sacramentar, definir e inventar o maior balaio possível de diferenças e escárnios. Quero o amor para calçar sandálias de aço, tonelar os meus pés ao espaço, ferir a minha pele e jorrar a febre que tensiona e impele o corpo a se morder e se justificar vivo.

A rainha caramelo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A rainha caramelo Emmanuel Mirdad Ela é feita de tantas misturas, heranças, afetos e caminhos. Nos genes, o patrimônio da excelência mestiça, a criação sublime do acaso, o tesouro da exuberância das raças que formam o Brasil, o tom caramelo na pele, que adoça os meus olhos e lábios e me recorda que o sol nasce duas vezes: no céu, quando ela abre o sorriso do tamanho de cada felicidade humana; e dentro do meu coração, quando os seus olhos me iluminam com desejo e alegria. A grande ironia da vida arruma mais um jeitinho de surpreender: no Día de los Muertos , em que bilhões de terráqueos relembram os seus amores que se encantaram, eis que a sincronia põe, nesse balão frágil que é o mundo, uma mulher gigante de sentimentos & aptidões, tão bela por dentro quanto por fora, a rainha caramelo que provoca: no dia dos que se findam, a existência se impõe como célebre, pois é o aniversário da majestade; ao fim, a vida transpõe a morte — para além do desconhecido...

Não valer (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Não valer Emmanuel Mirdad O amor é para valer nada, está muito além de qualquer preço ou prêmio, nunca será objeto de troca ou intercâmbio, não há consciência de importância ou referência, absolutamente não sobrevive à dependência alguma. O amor não possui. Pode ser um sublime estado, raríssimo instante em que flutuamos, alienígenas. Impossível.

A mendiga e eu (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A mendiga e eu Emmanuel Mirdad Vestia uma regata esfarrapada, um short furado, sandálias de dedo e meias. Dois dentes na boca, cáries e brocas negras, e a baba seca de quem só bebe cachaça, da manhã à noite, cigarros e cola. Uma mulher, cicatrizes. Pediu-me dinheiro e me paquerou, sedutora; os seus olhos subitamente postos a prumo copiaram a minha biologia e me creditaram apto. Mesmo com os dois muros, Berlim e Palestina, além dos cães e grades e balas de Guantánamo a nos distanciar em galáxias longínquas, ela rompeu a neurose profunda que a define e me quis, apenas como um homem viril e lasso, que poderia lhe fecundar e gerar mais um miserável — pois quem mendiga sou eu.

Carfetal (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Carfetal Emmanuel Mirdad Vou me jogar na avenida, escorrer em bicas, berrar, riscar o asfalto, apagar-me na massa, ser o bloco de um só pulso, que cordeira atrás do grave que hipnotiza e do agudo que faz coçar os lábios, estalo de vida cumprido nos beijos que darei nas mulheres sem nome, só carne, suor e saliva. Vou ali, por quase uma semana, esquecer-me de quem represento, desmascarar o meu óbvio, largar-me ao léu, ao som, ao movimento que impele: vá para a frente, até se acabar; acabe-se, que amanhã tem mais. Como já disseram, não me conte dos problemas; quero reencontrar Moraes, retroalimentar-me no foguete, quero ser de tantas para afirmar que não sou de ninguém. E o que me importa, de fato, está vazio e longínquo. _____ “Foguetão” foi um trio elétrico comandado pela banda instrumental Retrofoguetes no carnaval de Salvador (N. do A.)

Ela gosta, mas não assume (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Ela gosta, mas não assume Emmanuel Mirdad Faça muito sexo, o quanto aguentar; é tão bom infringir o que tentam enquadrar. E, se for proibido, mais molhada vai estar. Transe na parede, a janela aberta, luz acesa, berre gemidos para o mundo escutar. O que ela gosta é de gozar no tempo e do jeito que ela queira. Lambo e sugo com ritmo, no compasso que ela suinga. Preencho bem duro, amor que fica é o de picadeiro. Os dedos são mágicos, e o urso abraça em concha: os cheiros dos sexos têm fome (come!). Ela quer me encontrar e não vai contar para as amigas (nem um pouquinho). Ao me procurar, a sua boca vai me engolir: receba a minha potência e me beba até o talo. Este é o meu jeito de boa: só gozo depois que ela gozar. Ela gosta, mas não assume que dispensa o homem moderninho sem sustança. Viciada no meu xamego, comigo ela geme e goza, é isso o que importa. Ela gosta, mas não assume.

Erupção (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Erupção Emmanuel Mirdad Mais tarde, você me traz respostas; agora, me beije e só. Sinta a vida prima que transborda e luta contra os signos, que me cala os trecos que tenho e nos faz um, corpo nu, silêncio e sangue. Aqui estou a amar, novamente. Ereto e erupto, você me engole faminta. Veloz a sua boca que me lambe e morde. Não há segredos mais, vem e me suga. Assim como a devasso, dou a você múltiplos, e, a me sentir soberano, desabo.

Olhos de ogiva (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Olhos de ogiva Emmanuel Mirdad Saímos do carro aos trancos de um abraço e fogo, a minha mão dentro da sua vagina tapa os jorros; estava a gozar há mais de meio jantar depois. O cheiro de puta excita; puta minha, tudo grátis — amor, o melhor contrato. Cabelos cravados no punho firme da minha violência, bato você contra a parede, regido pelo estrago das suas unhas; as minhas costas em retalhos, tecelã descarada. Geme berros e urros; os sussurros são os sustos dos outros — vizinhos a assistirem, atônitos! Meto em você na garagem, em cima do carro da balzaquiana — coitada, de pé de pica, só o vibrador sem pilha —; bem que o servente avisara: ouvido de crente. Ela desce, a rezar palavrões, mas gosta; fica um pouco escondida, atrás da porta aberta à nossa frente. Eu, metido no lasco e dedos no ânus — as súplicas de uma mulher indomável —; unhas a devorar, além das mordidas que me sangram, a escorrer dos meus lábios para os beijos, o nosso suor perfurando as trou...

Canalha (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Canalha Emmanuel Mirdad Quero o seu dedo dentro de você, a passear pela memória táctil de todo espaço que ocupei ontem à noite. Leve-o à boca e lamba uma pequena amostra do oceano que produzi, com jeitinho, milimétrico, cilíndrico, “você é minha”. Sim, lamba e o coloque de novo, mais uma, mais outra, mais tarde, vai perceber que nunca mais me terá de novo. Relaxe... Não farei falta alguma.

Frankenstein (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Frankenstein Emmanuel Mirdad O rosto e o corpo de T. A elegância, o porte e o charme de J. A coragem, a vontade e a entrega de M. A articulação, a inteligência e a disposição de ¬A. O enigma nos olhos e o gosto musical de S. A ironia e a acidez de B. O toque e a massagem de R. A voz e os gemidos de L. A dança e a ternura de V. O beijo e o boquete de MR. E a bunda abissal da morena da Embasa. Ah, se eu pudesse fatiar tais porções suculentas, pedaço por pedaço, ajuntaria, no meu prato-ego, um banquete memorável, a devorar por anos. Ainda assim, não me fartaria. O problema não é vibrar pela coleção, e sim aferrar-me à edição de uma probabilidade única, que, provavelmente, já estará casada e com filhos, amando, só para retratar o que todos afirmam: é impossível! Porém, aferrado como estou, prossigo, arqueólogo, a explorar os fragmentos em contínua restauração das memórias que, em suma, é a única posse que tenho.

2011, a odisseia de um domingo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui 2011, a odisseia de um domingo Emmanuel Mirdad Guerra, ignorância, poluição e fome, mas o homem não consegue parar o mundo. Terremotos, tsunamis , tempestades, seca extrema, e nem a Terra consegue parar o mundo, quiçá a si própria. Nunca houve um freio após a gênese, nos confins da origem. Entretanto, subestimado como microscópio ao calendário insípido dos astros, hoje, um domingo de março de 2011, ousado e desprendido, foi o dia em que a Terra parou. Malucos não somos, e não foi um sonho, seu Raulzito. Saímos de casa, confrontamos a tempestade, e o nosso oásis maktubou-se, materializado. O amor freou o mundo e confundiu o tempo, que não soube mais o que contar e mensurar, quando a força do incrível gigante brecou a rotação do planeta, só para que os nossos braços pudessem rodopiar as sensações dos imortais. Abraçados como ficamos, a reconhecer o ninho em que as galáxias são gestadas, hoje fomos eternos.

Incondicional (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Incondicional Emmanuel Mirdad O amor é raro. Acontece, e não dá para medir, comparar ou quantificar. Quem ama, não ama mais do que o outro. Os dois amam, na mesma sintonia, que traz paz ao abraço de lar, aconchego ao segurar as mãos em conforto pelo encontro, afeto ao expor a gratidão evidente por estarem juntos, sem condicionantes. Os dois amam, na mesma vibração, a gozar o sublime pelo encaixe harmônico e feroz dos corpos — sem o erro infantil de provar uma performance —, o beijo com o querer ampliado pela profundidade dos lábios, a degustar o sabor da pele que nos complementa e amplia, a bailar os passos que nos combinam como um só ingênuo, a fluir a dança de Maya, todos os divinos seres que se transcendem ao sorrir, deslizar, fruir e intuir. O amor, raro, é o incondicional. É o mais próximo que podemos materializar do que é divino, astral, positivo, do bem. E, entre tantas figurações nocivas do que é o afeto, ser um casal e amar, incondicionalmente, a ...

A armadilha (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A armadilha Emmanuel Mirdad Não me interessa se a dúvida está a me perseguir, desde que aprendi o sentido da minha curta existência. Não me interessa explicar o que eu fiz para centrar a minha vida em uma certeza que alimenta o egoísmo. [ ] Mas que audácia afirmar o caminho, se é você que mesmo cria o que for para se manter vivo. As suas respostas todas são um bando de caraminholas, as fantasias abstratas que são metáforas armadas, os artifícios engenhosos para o manter formatado em um padrão ignorante. [ ] Eles querem a grana, precisam do dinheiro — obediência servil em prol da danação. A armadilha os espera na próxima esquina.

Fagia (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Fagia Emmanuel Mirdad Salão cheio de pessoas interessantes, baladinha cult , livraria confortável, artisticamente esbelta, estantes socadas de edições cheirando a árvores recém-cortadas — em breve, irão feder e mofar por falta de para onde escoar. O champagne é farto, os assuntos até que são safos, mas o que todos querem é foder. E se fuder.

Palmada palerma (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Palmada palerma Emmanuel Mirdad O pai levantou a mão contra a filha e bateu com a potência das gerações acumuladas: o bisavô que machucou o avô que feriu o pai que descontou na filha — tantos anos depois, sem razão plausível, como sempre. E ninguém desconfia que tal ferida compartilhada macula o próprio sangue com o veneno da intolerância, que impede os galhos de emergirem da lama comum — o que seria brotar os seus frutos à substância do sublime.

Forever alone (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Forever alone Emmanuel Mirdad Só, ele curte as próprias postagens; ninguém quer comentar, compartilhar, retuitá-las; quase não há visualizações. E o facebookcídio se espalha entre os cringes instagramatizados, e a geração tiktokeada está trolada num TT # de mimimis — influenciadores a se autoinfluenciarem das mesmas opiniões entubadas. Faltou luz. E agora?

É grave (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui É grave Emmanuel Mirdad Circulamos juntos em uma mesma órbita, mas a força que nos prega ao solo impossibilita a ampliação dos horizontes e nos restringe a um lidar horizontal. Enquanto as dimensões são conectadas em um tecido fluido de milhões de elos multidirecionais de possibilidades, pobre de nós, retilíneos de vai e vem, gravemente iludidos de que circulamos numa gangorra.

Acordado (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Acordado Emmanuel Mirdad O cordeiro beijou a patricinha mais reluzente do trabalho e acordou, a suar frio, antecipando a pancada do PM, que, inexoravelmente, aconteceria. A patricinha beijou o cordeiro mais atarracado do Carnaval e acordou, surpreendentemente, mais molhada que com o namorado, que, inevitavelmente, só lhe servia de propaganda.

Convivência (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Convivência Emmanuel Mirdad É tão estranho estar numa roda de conversa e não ser cúmplice de valor algum compartilhado entre os comuns, aqueles tipos específicos que, ao menos na teoria, fazem parte do seu nicho sociointelecultural, parte do seu umbigo panelinha, onde dá para arrotar à vontade o que o Google ensina. É como pairar, à espreita, e não vivenciar. Como se buscasse, silenciosamente, um cantinho de possibilidade em se materializar naquela forma compactuada e celebrada pelo outro. Mas ela não surge, e você continua a fingir, como um papagaio adestrado, a não distorcer o pacto da boa convivência.

Guilhotina silêncio (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Guilhotina silêncio Emmanuel Mirdad De tudo o que o ser humano pode condensar no seu pacote mais repugnante de crueldade, o que mais angustia é o desprezo profundo, soberbamente construído pelo silêncio. Na cara virada, mão retida, ausências reunidas na emissão de nenhum som, estende-se o fosso e a miséria esmaga; de nada se sente que vale o sem resposta, um mero ruído na disfonia das relações.

Pó e Sra. (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Pó e Sra. Emmanuel Mirdad A senhora varre a sala da casa para que a poeira volte e ela tenha que varrer, de novo, a manhã. Nas frestas que não alcança, o excesso dos dias; nos cantos, as dívidas do amanhã farei; das aranhas no teto, a preguiça de se esticar — quem sabe depois? Uma mesma cadência de juntar o bolo de pó e empurrar à pá, como num dub minimalista, lixo e fim; outro afazer amanhã, de novo. Não há como varrer por dentro, nem se deve; aos anos que findam o ser, acúmulo, apenas; muito mais do que nas frestas, a senhora e as suas experiências, pó, do pó ao pó, por fim.

Fração (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Fração Emmanuel Mirdad O sobrinho monta uma fila de carrinhos de brinquedo e antecipa o engarrafamento que virá, toda a espera que será obrigado a cumprir, quando não for mais um menino. Entretanto, ali, na sua lúdica estação, é ele quem liberta a imaginação na fração do seu experimento: carros voam, motos cavalgam, caminhões são pedestres, buzinas que não silenciam as dimensões mais longínquas. Engarrafado sou eu, que não sei brincar.

Os meninos sem badogues (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Os meninos sem badogues Emmanuel Mirdad A senhora continua a oferecer mamão de graça aos passarinhos bolsistas, e os bichinhos ecoam, livres, os seus cantos. Sorte que o smartphone badogara os meninos antes que eles dessem cabo dos alvos potenciais. A contemporaneidade anistia os passarinhos e enclausura as maldades da infância na trincheira virtual.

A anedota do tolo (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui A anedota do tolo Emmanuel Mirdad Não toca em árvores; consome plástico todo dia. Nunca quis um ventilador; trabalha só com ar-condicionado. Não lê histórias de ficção ou poesia; gasta papel higiênico em excesso. Não abre a porta de casa e inspira; mantém-se conectado à internet . Estar sozinho e virtualmente poderoso é melhor do que tocar nas pessoas. Debocha de quem anda de bicicleta; cogita o atropelo, tem medo e se sacia, a imaginar o barulho dos ossos se partindo. Não atende à ligação da mãe; a poeira se acumula na estante onde fica o aparelho de TV, ligado. Não abraça a irmã quando ela faz visita, nem atende o irmão quando ele buzina, mesmo se o sobrinho lhe quiser mostrar a nova cadeira de rodas que ganhara. Investe o dinheiro em ouro e na bolsa, e compra as mesmas blusas e cuecas na mesma loja de departamento. Evita olhar para a colega de trabalho, negra, recusa o cumprimento do outro colega, gay ; quer que os indígenas sejam desalojados e adquire ...

Crônicas (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

Download no Google Drive aqui Crônicas Emmanuel Mirdad Você embarcaria no táxi de prefixo 171? Enquanto uns pensam, outros acreditam. Mas tudo não tem o seu preço? De que adiantam o álcool e o fumo, se ela ainda indaga? “A vida é o inferno cheio de condecorações”. Será que é por aqui que ela escorrerá? Será que ela virá? Percorremos juntos. Quero um amor que seja bom para nós. Para cima, todo São Tomé ajuda? E se, quando fechar a porta, estiver vazio? E quem dirá que não é um espetáculo? Se ela parar de correr, vai lanchar a paz. Seguir sempre faz a força comigo. Da música, faz-se a luz; porque é primavera, não a amo. Para quem deve ir o primeiro pedaço? A autonomia de sair só e curtir, à noite, é uma puríssima dose de liberdade. Expandir-se ou conter-se? Reconheço, valorizo, mas a Bahia tem muito mais. Dormir, ao banho de lua, faz mal? É no bar de beira de rua que o estômago reitera a baianidade. Uma só não basta. Mais uma árvore cairá em Salvador. Mais uma casa, também. Triste. Ainda...