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O milagre
Emmanuel Mirdad
Eu sou um cego,
mas enxergo os segredos;
a dissimulação não ultrapassa
as minhas pálpebras.
Na escuridão,
o que vibra desfaz o enigma.
Não me importo
se a dúvida me desafia
por todo o caminho.
Na minha tela tênue,
desenho garranchos bêbados;
não sei o que é um traço,
mas posso suspirá-lo.
Adivinho formas
que não se encontram na matéria;
é o brincar de Deus,
criando algo que não serve de nada
— audácia.
Eu toco a pele
e sinto a máscara;
conheço quem nunca
diz a verdade
— estão com olhos de medo
procurando a saída.
Eu vejo com as mãos
o cheiro de um gosto podre,
o suor quente do mentiroso.
Mas o que é belo
transparece, humildemente.
O silêncio das cores me traz
paz e graça, quando eu sinto a manhã
quebrando as minhas pálpebras,
quando o calor do dia
insiste que eu sobreviva.
Eu verei o sol
por entre as nuvens densas.
Eu verei o sol
perfurando os olhos
num milagre de um voo cego,
o canto de um assum preto.
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