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Microtons de sóis (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Microtons de sóis
Emmanuel Mirdad

                                ouvindo Smetak 

Dois mil e onze.
Ando sobre os pedregulhos do Pelourinho,
a ouvir, ao longe, a vibração prenha
de um samba reggae tocado por jovens
— que é o nosso blues, célebre por não inovar
o que já é consagrado e novo —,
arrodeado da gente nossa e dos outros, panos, cores
e a miséria dos invisíveis zumbis da paisagem.

Aclimatado pela xerox apastelada
dos clichês de outrora,
quero me sentir inserido
e partícipe da baianidade complô,
mas não;
o que me finca na baía de todos
é a fração do legado
de um genial suíço pluralista que,
avançando em mim,
além da sua obra expansiva,
microtoniza o meu coração,
indiretamente e cúmplice.

Eu sou baiano
e passo a dialogar os sentimentos em microtons,
para desafinar o padrão ocidental do amor
e sintonizar a paleta universal do sublime,
no free jazz-taquicardíaco.


_____

Anton Walter Smetak (1913-1984), violoncelista, compositor, inventor de instrumentos musicais, escultor e escritor, nascido em Zurique, Suíça, que veio morar em Salvador, Bahia, a partir de 1957, onde iniciou pesquisas microtonais e começou a construir instrumentos musicais com materiais inusitados, denominados de “plásticas-sonoras”. Foi um dos gurus dos artistas do movimento tropicalista. (N. do A.)

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