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Fantoche (Nostalgia da lama, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Fantoche
Emmanuel Mirdad

Se a vida me fosse conto de fadas,
qual dos meus sapos daria o beijo de plástico?
Se a vida me fosse cinema de Hollywood,
que raciocínio escaparia
de tal narrativa e estrutura imbecil?

Se a vida me fosse apocalipse,
a quem eu apontaria o dedo à besta da peste?
Se a vida me fosse sem Picasso,
quem teria outros traços
a refletir a podridão degenerativa
da frágil forma humana?

Se a vida me fosse drogas e farras,
que relevância haveria em mais um suicida?
Se a vida me fosse dinheiro e poder,
que destino teria o meu ego,
ridicularizado pela fragilidade
do preço de qualquer um?

Se a vida não fosse tão explicada,
o que seria de mim sem os alvos
das minhas críticas inúteis e necessárias
apenas para gastar a saliva que me sufoca?

Eu não tenho dúvidas de que,
se a vida me fosse, eu seria porra nenhuma.

E é por isso que canto e faço sexo;
é para fingir que controlo a força
que me domina e me faz de peão,
another brick in the wall.

Se a vida me fosse,
eu seria porra nenhuma.

“O mundo é uma ilusão.”


_____

“O mundo é uma ilusão” é uma fala do especialíssimo poeta-filósofo meu pai, Ildegardo Rosa (1931-2011), o Mestre Dedé, ouvidor-mor dos meus espinhos, a multidão dos mais especiais da minha vida, forrozeiro libriano falecido no dia de Santa Luzia e no Dia Nacional do Forró, nascimento do mestre Luiz Gonzaga, que ele tanto gostava. (N. do A.)

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