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Nu, tempestade
Emmanuel Mirdad
Nunca estive tão nu;
desmonto-me em pedaços desconexos
do quebra-cabeça que eu não montei
— a autopiedade agora me esfacela.
Há um cão no chão que me acolhe;
meu fiel me fez feliz e morreu
— sempre ouço os seus suplícios
nas noites em que berro ingratidão.
Quem sou eu, assim,
sem a sede que fortalece,
sem a audácia destemida do idiota,
sem a frágil sensação de que tudo está bem?
O saber que construí se transformou.
A humildade empobreceu os títulos.
A minha glória me envergonha e me cala,
e fez uma cratera no rim.
Quem sou eu, assim,
sem os grilhões e a gravidade da incerteza,
sem as fugas que tanto forjei?
Como faz falta o ego que cala.
Atordoado por estar em tempestade,
destruí as lembranças que me ensinavam
a não subtrair os erros que equilibram
a tendência de se achar estupidamente sábio.
Quem sou eu, assim,
imundo pela descoberta
de que não há sentido?
Não estou fixo nem pássaro
— e agora, o que irei concretar?
Nu, sem cortes,
em tempestade,
sigo à busca
do que não temer
no fim.
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